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‘Ideologia de gênero’ foi a grande vilã do governo e deverá seguir em pauta durante 2020

Vestir rosa ou azul foi a questão-prelúdio do que seria 2019 em relação às temáticas de sexualidade e gênero no Brasil – e a suposição não estava incorreta. A pauta moral do governo de Jair Bolsonaro encontrou, desde o “o que é

golden shower

?”, mais pontos de destaque para justificar censuras, mudanças de entendimento frente à comunidade internacional e, claro, algumas vergonhas. Confira quais:

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Ideologia de gênero

A chamada “ideologia de gênero” foi um dos tópicos que mais alavancou ministros na ala ideológica do governo Bolsonaro, como Damares Alves e Ernesto Araújo, para o debate público.

Damares, que assumiu a pasta da Família, Mulher e Direitos Humanos, foi a responsável pela primeira das polêmicas que surgiriam sobre o assunto ao longo do ano. Em um vídeo, apareceu comemorando a guinada que, em sua visão, seria dada no Brasil sob Bolsonaro de 2019: “Atenção, é uma nova era no Brasil: meninas vestem rosa e meninos vestem azul!” 

A pastora tentou se justificar depois de ser criticada em reiterar papéis estabelecidos para eles e elas. “Fiz uma metáfora contra a ideologia de gênero, mas meninos e meninas podem vestir azul, rosa, colorido, enfim, da forma que se sentirem melhores”, mencionou depois.

A ministra, porém, não deixou de lado a agenda que indicava que a “ideologia de gênero” era direcionada às crianças. Em uma publicação nas redes sociais, disse que a questão não era sobre diversidade, mas sim sobre algum plano maléfico de dominação da primeira infância. “Escolheram o Brasil como laboratório dessa teoria, mas estamos mandando um recado que acabou a brincadeira, nossas crianças não são cobaias”, publicou.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Depois, em entrevista ao canal GloboNews, a ministra argumentou que a ideologia de gênero deveria ser debatida somente nas universidades: “O menino é o que ele vê. Ele olha para o corpo e está vendo corpo de menino. E a escola está dizendo que não é menino, para esperar e ver o que ele quer ser”, criticou. 

No caso de Ernesto Araújo, o discurso foi além: em comunicado oficial interno no Itamaraty, o ministro orientou os diplomatas de banirem debates sobre identidade de gênero em seus ofícios. “O entendimento do governo brasileiro de que a palavra gênero significa o sexo biológico: feminino ou masculino”. A determinação colocou o País no mesmo rol de nações autoritárias, como a Arábia Saudita, em relação ao binarismo biológico.

Em uma transmissão ao vivo ao lado do presidente Jair Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo afirmou que trabalha contra os conceitos de ideologia de gênero: “O que nós também estamos sendo contra é o conceito de ideologia de gênero, que é uma deturpação aí do conceito de gênero. Pelo qual eu começo a dizer que não existe homem ou mulher, isso é uma opção social”, completou.

Brigitte Macron e a diplomacia sexista

A relação entre Brasil e França não foi das melhores em 2019. As queimadas na Amazônia fizeram com que o presidente francês Emmanuel Macron fosse um dos líderes de destaque a criticar a política ambiental brasileira. Porém, nada supera a ofensa gratuita que Jair Bolsonaro deferiu contra a primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

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Em sua página no Facebook, Bolsonaro respondeu ao comentário de um de seus seguidores que comparou a beleza de Michelle Bolsonaro a Brigitte. “Não humilha cara. Kkkkkkk”, respondeu Bolsonaro ao seguidor.

Como se não bastasse um erro do presidente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a endossar a fala de Bolsonaro em relação à beleza da primeira-dama. “Tudo bem, é divertido, não tem problema nenhum. É tudo normal e é tudo verdade. O presidente falou mesmo, e é verdade mesmo, a mulher é feia mesmo“, disse.

O comentário foi considerado sexista e repercutiu em âmbito mundial, mas também em forma de solidariedade. Uma campanha global com a hashtag #DesculpaBrigitte chegou a emocionar a primeira-dama francesa. “Os tempos mudam. Alguns estão dentro do trem da mudança (…) Mas nem todos: alguns ficaram na plataforma”.

Aborto e direitos reprodutivos

A defesa do “pró-vida” por parte do governo não é segredo para ninguém, mas, mesmo assim, o assunto não saiu da boca dos ministros e dos secretários de Bolsonaro. O debate, porém, continuou por caminhos restritivos em relação à pluralidade de vozes.

Em reportagem de 18 de setembro, o site AzMina publicou recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a realização de aborto seguro. No dia seguinte, a ministra Damares Alves afirmou, em sua rede social, que as jornalistas incentivam “práticas criminosas” e, depois, as denunciou.

Em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou que as jornalistas estavam sendo perseguidas e sofriam “assédio digital”. “A associação apela ainda aos Ministérios Públicos Federal e paulista que não deem seguimento a eventuais representações criminais contra as profissionais e a revista, em cumprimento a seu papel de salvaguardar a liberdade de expressão”, escreveu a entidade.

Mais recentemente, repercutiu um vídeo do novo presidente da Funarte, Dante Mantovani, em que ele faz uma associação pitoresca entre o aborto… e o rock:  “O rock ativa as drogas, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto”. A análise está no canal do Youtube de Mantovani que traz, além da associação em escala feita pelo novo presidente, outros pontos de uma indústria cultural que busca destruir a moral.

Na questão diplomática, um embaixador do Itamaraty, que representou o País na Cúpula de Nairóbi – evento da ONU que tratou dos direitos reprodutivos em escala global -, foi reiterar a posição do Brasil junto a outros países que negam o direito à escolha. Em resposta, um grupo formado por entidades da sociedade civil resolveu fazer um documento contrário ao dito pelo embaixador.

Como praxe em 2019, a esperança reside na articulação externa para dar visibilidade ao que pode ficar entrelinhas, também, em 2020. “A sociedade civil brasileira seguirá monitorando ativamente os direitos adquiridos durante as últimas décadas e que ampliaram a cidadania em nosso país”, afirma o grupo.

“Em consonância com o fortalecimento do sistema democrático brasileiro, denunciamos a posição internacional do Brasil neste fórum, que está em desacordo com os compromissos internacionais assumidos, com as leis e políticas nacionais. É inaceitável qualquer retrocesso em nossos direitos.”

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