Carta Capital

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*Por Gilberto Maringoni, com a colaboração de Letícia Silva Ribeiro, João Victor Pennacchio e Paulo Henrique Campos Gal do Observatório de Política Externa e de Inserção Internacional do Brasil (OPEB) da Universidade Federal do ABC (UFABC).


É muito pouco provável que Alberto Fernández e Cristina Kirchner percam as eleições presidenciais argentinas, marcadas para o domingo 27. O jornal Clarín publicou na sexta 18 uma compilação de projeções de sete institutos de pesquisa. A vantagem da chapa peronista é inegável e – até aqui – irreversível. A maior diferença para com a postulação de Mauricio Macri é de 22 pontos e a menor de 16. Será um evento de grande impacto continental, em especial para o Brasil.

Fernández e Kirchner herdarão um país arrasado, com enormes expectativas de melhoria imediata nos padrões de vida por parte da população. É algo difícil de se obter no curto prazo. Esse será o principal desafio da volta do peronismo à Casa Rosada, em uma espécie de síndrome de sísifo, de reconstrução permanente. Aproveitando-se dessa vulnerabilidade inicial, estarão todos os agentes de mercado – bancos, meios de comunicação, oligarquias internas e interesses externos – prontos para desatar uma política de isolamento e estrangulamento do novo governo.

A Argentina está sob tutela do FMI, que aprovou em 2016 seu maior empréstimo a um país, 56 bilhões de dólares, integralizados em diversas parcelas. A inflação deve fechar o ano próxima de 50% e a taxa de desemprego é de 10,6%. A pobreza disparou, atingindo cerca de 15 milhões de pessoas, ou 35,3% da população.

Christina Kirchner e Alberto Fernández

A campanha eletriza uma sociedade movida por polarizações políticas constantes há quase oito décadas. As duas maiores centrais sindicais decidiram iniciar um processo de fusão, no último dia 3 de outubro. O congresso da Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) aprovou sua incorporação à Central Geral de Trabalhadores (CGT). Ambas apoiam os peronistas.

“Todos são peronistas. Até a oposição”

A unidade sindical só é possível num país que renova a cada momento sua principal corrente política, o peronismo. O presidente Juán Domingo Perón, entre 1946-55, foi o grande criador do Estado argentino moderno, com suas políticas industriais desenvolvimentistas e leis trabalhistas.

A influência do coronel tornou-se tão avassaladora, que o peronismo abrigou de ultraliberais, como Carlos Menem (presidente entre 1989-99), a grupos de luta armada de esquerda, como os Montoneros, que agiram nas décadas de 1960-70. É voz corrente que na Argentina todos são peronistas, até a oposição.

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Para os brasileiros, a disputa no Prata tem um significado especial. Jair Bolsonaro elegeu Maurício Macri seu aliado preferencial na região, juntamente com Sebastián Piñera, do Chile. O plano era criar uma aliança reacionária liberal e exercer uma influência de alcance global, com o apoio de Donald Trump. As tratativas correm sério risco de ir para o vinagre. Não é à toa que o brasileiro há meses alerta seus seguidores sobre o “perigo” representado pela eleição dos “bolivarianos”.

O país é o principal parceiro comercial brasileiro na América Latina e o terceiro no plano mundial, atrás da China e dos Estados Unidos. Entre janeiro e maio de 2019, a pauta de exportações brasileiras era composta por 89,6% de produtos manufaturados, segundo dados do Ministério da Economia. Trata-se de um diferencial importante em relação a outros mercados para os quais o Brasil vende produtos básicos e semimanufaturados, em sua maior parte.

Kirchnerismo e lulismo

As vitórias eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva (2002) e Nestor Kirchner (2003), com coalizões que se mantiveram no poder até 2015-6, estreitaram os laços bilaterais.  Graças ao boom das commodities (2004-12), a economia platina se recuperou e voltou ao mercado internacional de crédito e o Brasil realizou um ensaio desenvolvimentista, com sensível redução da miséria. 

Tal aquecimento alavancou mercados internos, deu margem a elevações generalizadas de salários, à queda nos índices de desemprego e à expansão de serviços públicos. Nesses anos não apenas o Mercosul ganhou dimensão política, para além de sua marca inicial de união aduaneira, como foi criada a União de Nações Sul Americanas (Unasul), entre outras iniciativas.

Argentina e Brasil vivem, pelo menos desde 2010, acentuados processos de desindustrialização, seja pela manutenção do câmbio em patamares elevados – caso em especial do Brasil – seja pelo abandono de políticas industriais e de desenvolvimento, a partir de 2015, caso de ambos.

Abraço de afogado

Bolsonaro visitou a Argentina na primeira semana de junho último, quando declarou apoio incondicional a Maurício Macri. O périplo foi precedido por uma surpreendente entrevista do brasileiro ao jornal La Nación. Sem meias palavras, o capitão tocou em uma das feridas abertas do país vizinho, ao falar às claras de um acordo dos porões da repressão dos anos 1970-80, que nenhum presidente da região jamais admitiu. Ao responder uma questão sobre a ditadura local, o brasileiro elogiou a Operação Condor (1975-85): “Quantas pessoas morreram ou desapareceram e por quais motivos? Que cada país escreva sua história…”

Macri logo em seguida veio a público dizer tinha afinidades com seu colega, mas não poderia de modo algum concordar com esse ponto. Na Argentina, durante os anos Kirchner (2003-15), uma comissão da verdade evidenciou crimes da ditadura (1976-83) e levou militares às barras dos tribunais.

O apoio de Bolsonaro a Macri pegou mal para uma parcela significativa da sociedade. O miliciano pode, assim, ter dado uma mãozinha para sua queda acentuada nas pesquisas. Alberto Fernández e Cristina Kirchner deveriam agradecer.

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