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A política neoliberal era esperada, mas a quantidade de escândalos e absurdos superou as expectativas

2019 não foi um ano fácil. Jair Bolsonaro assumiu a Presidência da República e deu início a uma nova visão de como conduzir o País. Suas perspectivas políticas, no entanto, não se resumiram a uma diferente política ideológica ou econômica. Escândalos, afirmações e ações inusitadas fizeram parte do primeiro ano de seu governo. Confira.

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O dia em que tudo começou

“É o início da libertação do Brasil do socialismo, do politicamente correto e do gigantismo do Estado”, discursou Bolsonaro ao tomar posse (Foto: Evaristo Sá/AFP)

Eleito com 55% dos votos válidos em outubro de 2018, Jair Bolsonaro tomou posse como Presidente da República em 1º de janeiro. Subiu a rampa do Planalto acompanhado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro e de um dos seus filhos, o vereador carioca Carlos Bolsonaro.

Em seu discurso, o presidente repetiu alguns dos chavões que o acompanharam durante a campanha eleitoral, como a necessidade de combater a “ideologia de gênero” e a de libertar o Brasil da “submissão ideológica”.

O evento de posse, no entanto, marcou uma novidade na cobertura jornalística. Nunca antes na história do país os jornalistas não puderam transitar livremente pela Esplanada dos Ministérios. Os profissionais da mídia foram obrigados a se manter em uma sala restrita durante horas, sem poder interagir com as autoridades. Fotógrafos foram orientados a não erguerem suas máquinas abruptamente. “Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper a ‘abater o alvo’”, orientou a comunicação do novo presidente.

Tabata e a cobrança na educação

Vélez respondia Tabata (Foto: Reprodução TV Câmara)

Ricardo Vélez Rodriguez ficou pouco tempo no governo. O colombiano, que esteve à frente do Ministério da Educação por menos de quatro meses, levou um esculacho de uma novata poucos dias antes de ser exonerado. A bronca foi da deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP). A pedetista, que ganhou fama pela sua jornada da periferia paulistana à Universidade de Harvard, tem como pauta principal a educação.

“Não é possível apresentar um power point com dois, três desejos para a educação. Cadê os projetos? Onde eu os encontro? Quem são os responsáveis?”, ela questionou. A deputada defendeu ainda que a falta de preocupação com a área é o que faz com que jovens sem acesso aos estudos morram diariamente nas periferias.

01, 02 e 03

Flávio, à esquerda do pai. Eduardo, à direita do pai. Carlos, à direita de Eduardo. (Foto: Roberto Jayme/ASCOM)

Na família Bolsonaro, cada filho se destaca por uma razão. E os três são chamados pelo pai de 01, 02 e 03, como soldadinhos de chumbo. Curiosamente, a ordem escolhida pelo pai não foi a partir de quem veio ao mundo primeiro.

Flávio, o mais discreto dos três, é o 01. Senador pelo Rio de Janeiro, desde 2018 é investigado pelo Ministério Público pelos crimes de lavagem de dinheiro e peculato. A denúncia mais grave ao primogênito da família é de que quando deputado estadual, praticava a “rachadinha”, ou seja, o desvio pelo parlamentar de parte do salário dos funcionários de seu gabinete. As investigações apontam que Fabrício Queiroz, o amigo íntimo da família e ex-assessor de Flávio que esteve sumido na maior parte do ano, seja o responsável por ter coordenado a prática para o 01.

Carlos, o 02, ficou conhecido por escrever tuítes na conta do pai e influenciar nas decisões ministeriais. “Carluxo” é o filho mais próximo do presidente, apesar de ser vereador no Rio de Janeiro, enquanto os irmãos residem em Brasília. Poucos dias antes da CPI das Fake News que colocou o clã bolsonarista no centro das investigações, Carlos, que era superativo no Twitter, suspendeu sua conta. Quase um mês depois, retornou à rede social. Sem provas concretas que o liguem ao caso, Carlos também é pessoa de interesse no Caso Marielle. Não bastasse que ele e Marielle fossem adversários declarados. No dia do assassinato da vereadora, Carlos, que mora no Rio no mesmo condomínio que o pai e o ex-PM Ronnie Lessa, acusado de ter matado Marielle, estava em casa quando Élcio Vieira, o outro acusado de ter cometido o crime, entrou no condomínio.

Dudu, ou Eduardo, é o 03. Eleito em 2018 como deputado federal por São Paulo, o filho do presidente se destacou ao receber o convite do pai para ser o embaixador do Brasil nos EUA. O processo, que apesar de ser considerado nepotismo, teve até a aprovação de Donald Trump, mas não vingou. Em entrevista à jornalista Leda Nagle, incitou o AI-5 “caso a esquerda radicalize”. A fala fez com que o deputado tenha se tornado objeto de investigação do Conselho de Ética da Câmara por quebra de decoro parlamentar. Apesar disso, após uma crise que dividiu o PSL entre os apoiadores do clã bolsonarista e os de Luciano Bivar, presidente do partido, Eduardo Bolsonaro tornou-se líder da legenda na Câmara. A Justiça chegou a suspender Eduardo e outros 16 deputados pesselistas por atuar contra Bivar, mas o 03 retomou o cargo de líder do partido.

O lambe-botas de Donald Trump

O primeiro encontro entre os dois líderes de extrema-direita (Foto: Alan Santos/PR)

O primeiro encontro entre os dois presidentes aconteceu em março, quando Bolsonaro foi até a Casa Branca, nos EUA. Uma das principais pautas entre os dois era o debate de como poderiam orquestrar uma intervenção militar conjunta na Venezuela, que enfrentava uma crise política. Não foi pra frente, mas o presidente brasileiro defendeu diversas pautas do presidente estadunidense, como o recuo nas políticas migratórias e o muro que Trump pretendia construir em sua fronteira com o México. Em agosto, após ser negociado um acordo entre a União Europeia e Mercosul, Bolsonaro passa a questionar o acordo, o que agradaria Trump, que ficava de fora da negociação.

No entanto, o apreço um pelo outro não era recíproco. Enquanto o Brasil realizava diversas concessões aos EUA, Trump rejeitou a entrada do Brasil na OCDE e restaurou taxas de importação de aço e alumínio para o Brasil. Bolsonaro justificou: “Se for o caso, ligo pro Trump”.

A Lava Jato da Lava Jato

Glenn Greenwald, jornalista-fundador do The Intercept Brasil, participa de audiência pública na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados para prestar informações sobre fatos que a Vaza Jato revelou referente à presos da Lava Jato. (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

“Não temos provas, mas temos convicção.” Em 9 de junho, a frase dita pelo procurador Deltan Dallagnol ganhou um novo significado. O portal The Intercept Brasil passou a publicar uma série de diálogos que teve acesso entre os procuradores do Ministério Público Federal e o ex-juiz Sérgio Moro em relação à Operação Lava Jato. A série ficou conhecida como “Vaza Jato” e trouxe à tona conversas entre esses atores que deixam claro que houve o envolvimento de Moro nas investigações do MPF para condenar investigados na operação, como o ex-presidente Lula.

O Supremo na mira

Manifestantes protestam contra o Supremo Tribunal Federal em Curitiba (Foto: Eduardo Matysiak)

Há anos, o Supremo Tribunal Federal é atacado, tanto por setores da direita quanto da esquerda. O fim das regalias financeiras e a isenção política são as pautas mais cobradas dos ministros da Corte. Em 2019, no entanto, os maiores ataques aos ministros vieram dos lavajatistas, que passaram a acusar o Supremo de perseguição da Lava Jato por conta da Vaza Jato.

Essa não foi a única polêmica, no entanto, a envolver um ministro da Corte. O ex-Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, revelou que devido às divergências que possuíam, tinha planos de matar o ministro Gilmar Mendes e depois se suicidar.

Os bolsonaristas também criticaram a Corte em diversas ocasiões. Bolsonaro chegou a dizer que gostaria de escolher um ministro para o STF que fosse “terrivelmente evangélico”. No entanto, não é descartada a possibilidade de que Bolsonaro escolha o ex-juiz e atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro, para ocupar uma das vagas do Supremo.

Em contrapartida, o Supremo criminalizou a homofobia como racismo e mudou seu entendimento sobre a prisão após condenação em segunda instância. A partir dessa decisão, todo condenado em segunda instância no Brasil não pode ser preso até o trânsito em julgado da sentença que o condenou. Isso permitiu que Lula, José Dirceu, Rennan da Penha e muitos outros pudessem recorrer em liberdade.

A trupe bolsonarista

(Foto: Reprodução Twitter Abraham Weintraub)

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É fato: Bolsonaro escolheu uma seleção inesquecível para compôr sua equipe ministerial. Paulo Guedes, Sérgio Moro, Damares Alves, Tereza Cristina, Ricardo Salles, Ernesto Araújo: todos eles cometeram gafes ao longo do ano. Mas se houvesse uma disputa pelas bobagens emitidas, um deles levaria a taça: Abraham Weintraub. O economista assumiu o Ministério da Educação no início de abril, no lugar de Vélez Rodriguez.

Em seus nove meses de gestão, contingenciou 30% do orçamento das universidades federais durante seis meses e para explicar esses cortes, usou chocolatinhos; chamou Franz Kafka de ‘cafta’ (o prato árabe); lançou o Future-se, projeto que permite que universidades captem recursos privados; fez paródia do musical Singing in the Rain para dizer que é vítima de fake news; cometeu erros ortográficos em documentos oficiais (sim, o ministro da Educação); direcionou ataques à União Nacional dos Estudantes (UNE); debochou das bolsas do Capes que haviam sido cortadas; ironizou que não teria ideologia no Enem em 2019; minimizou o fato de ter sido vazada uma foto de prova do Enem; zombou das queimadas na Amazônia; defendeu que a proclamação da República foi uma infâmia contra Pedro II e defendeu que estudantes plantam maconha nas universidades.

O presidente que não gosta do Nordeste

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), que foi atacado pelo presidente (Foto: Gilson Teixeira)

O Nordeste foi a única região brasileira em que o presidente não ganhou maioria de votos nas eleições de 2018. Muitos viram como essa a razão para o presidente ter demorado cinco meses de seu mandato para pisar na região. O maior bola fora, no entanto, ainda estava por vir. Em julho, durante um café da manhã com jornalistas, comentou informalmente com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que “daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada com esse cara”. Os ‘paraíba’ são os governadores nordestinos. E ‘o do Maranhão’ é Flávio Dino, do PCdoB.

Indignados com a atitude do presidente, os governadores da região escreveram uma carta a Bolsonaro expressando seu descontentamento com a fala. “Independentemente de normais diferenças políticas, o princípio federativo exige que os governos mantenham diálogo e convergências, a fim de que metas administrativas sejam concretizadas visando sempre melhorar a vida da população”, argumentaram.

Amazônia em chamas

As consequências das queimadas na Amazônia durante o mês de Agosto (Foto: Vinícius Mendonça/Ibama)

O ano foi triste para o meio ambiente brasileiro. O maior bioma mundial despertou atenção do globo. Até o mês de julho, o desmatamento na região havia sido 278% maior que o registrado no mesmo período em 2018. No entanto, o mês de agosto marcou a maior média de focos de incêndio nos últimos 21 anos. Produtores do agronegócio convocaram o “Dia do Fogo”, a ser realizado em 10 de agosto, com o objetivo de fazer derrubadas em massa que chamassem a atenção das autoridades.

Em um jornal de Novo Progresso (PA), que divulgou a ação antes de ocorrer, os produtores argumentaram que o avanço da produção ocorre sem o apoio do governo. “Precisamos mostrar para o presidente (Jair Bolsonaro) que queremos trabalhar e o único jeito é derrubando. Para formar e limpar nossas pastagens é com fogo”, defenderam. Alertas de urgência foram enviados ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pedindo reforço na fiscalização da região, mas o órgão só respondeu aos pedidos dois dias depois da data.

O chamado dos produtores resultou em altas entre 170% e 320% de registros de focos de incêndio em Novo Progresso, Altamira e São Félix do Xingu entre os dias 9 e 11 daquele mês. Em contrapartida, presidente Jair Bolsonaro defendeu que as queimadas na Amazônia são uma tradição da região. E a situação se agravou para outras regiões: a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e o Pantanal, no Mato Grosso, também sofreram incêndios que superaram os piores recordes brasileiros.

Indisposição internacional

Flagrados por uma emissora televisiva, da esquerda para a direita: Sebastian Piñera (presidente do Chile), Emmanuel Macron (presidente da França) e Angela Merkel (chanceler alemã) (Foto: Reprodução)

Tudo se iniciou quando a crise gerada pelas queimadas na Amazônia atingiu o exterior. O presidente passou a declarar que países “com interesse na Amazônia” não queriam preservar a região, mas usá-la para negócios próprios. Bolsonaro chegou a afirmar que ONGs internacionais com atenção na Amazônia eram as responsáveis pelos incêndios que a floresta sofreu. O presidente chegou a justificar que a razão pela qual França e Alemanha faziam essa defesa ambiental era porque “Macron é de esquerda e eu sou de centro-direita” e que a “Alemanha tem muito a aprender com o Brasil” [em relação ao meio ambiente].

Pouco tempo depois, Bolsonaro concordou com o comentário de um apoiador em suas redes sociais de que Brigitte Macron, primeira-dama francesa, era muito feia. A Piñera, Macron diz: “Eu tinha de reagir. Você entende? Eu queria ser pacífico. Queria ser correto, construtivo com o cara e respeitar sua soberania. Tudo bem. Mas eu não poderia aceitar isso”. Alguns dias depois, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reforçou o comentário de Bolsonaro.

O presidente francês também questionou a atitude de Bolsonaro ao cancelar uma reunião com seu ministro das Relações Exteriores alguns minutos antes. Logo após o cancelamento, o presidente gravou uma live enquanto cortava o cabelo. “Isso não é a atitude de um presidente”, defendeu Macron.

A reforma da Previdência

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, emocionado após a Reforma ser aprovada na Câmara (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência-Brasil)

Desde que Bolsonaro assumiu, tem defendido que seu governo será responsável pelas reformas. Uma delas, temida e defendida há anos, foi aprovada no início de novembro. Apesar disso, Bolsonaro teve pouca responsabilidade na aprovação da Reforma da Previdência. A principal cabeça por trás de sua promulgação foi o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Entre as principais mudanças, estão: trabalhadores só poderão se aposentar quando completarem 65 anos, no caso dos homens, e 62 anos, no caso das mulheres. Na iniciativa privada, homens terão de contribuir por 20 anos, e mulheres, por 15 anos. No serviço público, o tempo de contribuição para ambos os sexos é de 25 anos. A reforma acabou com o modelo de aposentadoria por tempo de contribuição, em que não era preciso ter idade mínima. Para aqueles que se aposentarem apenas com o tempo mínimo, o valor da aposentadoria será reduzido.

As fake news chegam ao Congresso

O ex-bolsonarista, o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP) durante sessão da CPMI (Foto: Lula Marques)

Ainda em 2018, investigações jornalísticas apontaram que o presidente Jair Bolsonaro teria utilizado robôs durante sua campanha eleitoral em 2018 como disseminadores de fake news de seus opositores. Em setembro, o Congresso Nacional instaurou a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News com o objetivo de investigar a criação de perfis falsos e ataques cibernéticos para influenciar as eleições, a prática de cyberbullying contra autoridades e cidadãos vulneráveis e o aliciamento de crianças para o cometimento de crimes de ódio.

Em cenas bastante inusitadas, os deputados federais Alexandre Frota e Joice Hasselmann, que iniciaram o ano como bolsonaristas convictos, forneceram denúncias contra as pessoas que estão em volta do presidente Jair Bolsonaro, como o próprio filho Carlos Bolsonaro, o guru bolsonarista Olavo de Carvalho, o assessor especial da Presidência Filipe Martins, o secretário de Comunicação Social do governo Fabio Wajngarten, entre outros assessores bolsonaristas. As atividades que seriam realizadas por este grupo ficou caracterizado como “Gabinete do Ódio”.

O ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz também trouxe respostas à Comissão: surgiram nomes novos descritos como participantes e financiadores das milícias digitais bolsonaristas. A CPI continua em 2020.

Slide apresentado pela ex-líder do governo, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) sobre o Gabinete do Ódio, do clã bolsonarista (Foto: Lula Marques)

 

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