Diário do Centro do Mundo

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POR LUIS FELIPE MIGUEL

Meus colegas que estudam a base popular da extrema-direita (e a quem não me canso de agradecer, pela disposição para levar adiante um trabalho tão indispensável quanto insalubre) insistem que não devemos chamar os bolsomínions de “burros”.

Se a ideia é não chamá-los assim para não hostilizar pessoas que precisamos conquistar para posições mais democráticas e civilizadas, eu concordo plenamente. Mas se não devemos realmente considerá-los burros – daí já acho difícil.

“Burro” parece se referir a um déficit inato, o que seguramente é incorreto e preconceituoso. A rigor, são pessoas com discursos e comportamentos burros. Dizemos que elas são burras por metonímia.

São pessoas que militam por medidas que prejudicam seus interesses mais óbvios – por uma polícia que mate seus filhos, por um Estado que negue seus direitos, por uma política econômica que os empobreça e destrua seu futuro. Como defini-las?

São pessoas que acreditam nos maiores absurdos. No encontro da Anpocs, agora mesmo, um colega contou que seu dentista – portanto uma pessoa com formação superior – lhe perguntou: “É verdade que nas universidades públicas vocês dão aulas pelados?” Outros acreditam em kit gay, em mamadeira de piroca, em ideologia de gênero, em terra plana, em Olavo de Carvalho, em Lulinha dono da Friboi, em empreendedorismo. Como definir essas pessoas?

[...]

Não são questões complexas, que exijam muita reflexão para passar das causas aos efeitos, ou mentiras sofisticadas e verossimilhantes. São coisas tão insanas que nós nem sabemos como rebater. Ou o ANDES deve começar uma campanha de informação com o mote “professores dão aulas vestidos”?

Podemos discutir como essa burrice é produzida, quais mecanismos a fomentam. Mas não dá para não chamá-la pelo nome.

Alguns argumentam que o voto em Biroliro tem suas razões. Por exemplo, que o sacerdote pilantra que orienta as escolhas políticas reacionárias é também alguém que oferece consolo e apoio espiritual em algumas circunstâncias. Ou que a violência urbana que atinge em primeiro lugar as classes populares explica a sedução de propostas “duras” de segurança pública. Mas isso apenas nos diz que esse voto não é aleatório, que tem alguma motivação. Permanece o fato de que ele expressa uma profunda incapacidade de relacionar as escolhas políticas com suas consequências esperadas, de vinculá-las aos interesses ligados às condições reais de vida.

Ter uma motivação para o voto não significa que o voto é esclarecido, pelo simples fato de que essa motivação pode ser… burra.

Por exemplo: eu posso optar por votar em João Doria porque ele é o mais botocado dos candidatos. Isso faz com que meu voto tenha uma razão de ser. Nem por isso ele demonstra qualquer discernimento.

A ignorância política das massas – e incluo aqui, igualmente, trabalhadores pobres e classes médias – é um componente do sistema político vigente, ativamente produzido e reproduzido por inúmeros aparelhos. Cabe ao campo popular trabalhar permanentemente para combatê-la.

A constatação da burrice dominante é, portanto, uma acusação contra a esquerda, que não fez ou fez mal o seu trabalho.

Há, claro, uma explicação alternativa: o que o bolsonarismo revela é uma pulsão pela violência. Racismo, misoginia, homofobia e desprezo pelos mais pobres seriam atrativos tão poderosos que compensariam todas as perdas.

Não seria burrice, mas perversidade. O que é muito pior.

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