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Sobre o artigo de Haddad questionando a existência de uma burguesia industrial e nacional brasileira:

1) Apesar de criticar as opções econômicas e políticas da burguesia industrial brasileira, o autor ainda apega-se melacolicamente à busca do elo perdido da burguesia nacional, ao afirmar que esta ainda não se comporta como classe;

2) Esta melancolia esteriliza sua crítica referenciada intelectualmente, pasmem, em Fernando Henrique Cardoso, que organizou o enterro da indústria brasileira ao atualizar a dependência do tripé do capitalismo associado para o Consenso de Washington e a finaceirização;

3) É absolutamente assustador que Haddad evite o termo desindustrialização para se referir à perda da participação da indústria no PIB brasileiro, recorrendo a generalizações como a da superação global da indústria pelo setor de serviços de alta tecnologia. A desindustrialização brasileira no mundo não tem comparação. Não desenvolvemos um setor de serviços de alta tecnologia e nosso PIB industrial per capita é 25% menor que o de 1980, enquanto o dos Estados Unidos é 75% maior;

4) A chave da desindustrialização brasileira está na opção política da grande burguesia interna, enquanto fração dominante do capitalismo no Brasil, de impor a superexploração dos trabalhadores. Isso exige a ruptura com o desenvolvimento para estabelecer altos níveis de desemprego e precarização do trabalho, propiciando a desorganização dos movimentos sociais e a lumpenização cultural para permitir a conciliação da superexploração com níveis muito superiores de qualificação da força de trabalho. O apoio das principais frações da burguesia brasileira ao Golpe de Estado de 2016, a EC 95 e a Paulo Guedes apenas reafirmam que a pretensão de Fernando Henrique Cardoso de articular dependência e desenvolvimento mostrou-se um despropósito histórico, ancorada na ilusão ideológica do desenvolvimento dos 70. A balança da história pende muito mais para os caminhos abertos por Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos e Vânia Bambirra, onde eu e outros temos inserido nossos trabalhos de forma crítica para desenvolver este filão interpretativo;

[...]

5) Parte da crítica ao artigo de Haddad provém das viúvas do nacional desenvolvimentismo que, à esquerda e à direita, menos céticas que Haddad, esperam o ressurgimento de uma burguesia redentora que de fato nunca existiu;

6) Tudo isso sugere que uma eventual candidatura de Haddad parece ainda ancorar-se em referências interpretativas e, possivelmente, em alianças que estão muito abaixo das necessidades do nosso povo diante da radicalização que a luta de classes apresenta no Brasil e na America Latina.


Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É colunista do Blog da Boitempo, com o qual colabora mensalmente, às segundas.

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