Le Monde Diplomatique

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“Se [Hillary] Clinton tivesse sido eleita, evitaríamos a crise da democracia que estamos vivendo nos Estados Unidos, mas isso não resolveria questões estruturais, como racismo e misoginia”, disse Angela Davis durante o encerramento do seminário internacional “Democracia em Colapso?”, realizado pelo editora Boitempo e o Sesc São Paulo entre 15 e 19 de outubro, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, Fundação Maurício Grabois e Clacso.

Angela Davis no Brasil, 2019 (Crédito Bianca Pyl)
Angela Davis no Brasil, 2019 (Crédito Bianca Pyl)

A filósofa está no Brasil para uma agenda de eventos em São Paulo e Rio de Janeiro que marcam o lançamento de sua autobiografia (Boitempo, 2019). Durante a palestra “A liberdade é uma luta constante”, realizada no último dia 19 no Sesc Pinheiros, Davis reforçou a importância dos movimentos sociais se fortalecerem para buscar mudanças estruturais e não focar na política eleitoral. “Precisamos fazer mais do que eleger um presidente. Queremos tirar Donald Trump, mas isso não vai resolver os problemas mais profundos”, avaliou durante coletiva de imprensa, realizada no dia 21, no auditório do Parque do Ibirapuera.

Angela vê como positivo o fato de jovens estarem se declarando como socialistas nos Estados Unidos e com o senador e pré-candidato à Presidência Bernie Sanders estar liderando pesquisas, porém ela fez questão de enfatizar que o processo eleitoral sozinho não muda as consequências do capitalismo racista global. “Depois do Occupy Wall Street, assistimos à ascensão de um discurso anticapitalista que não víamos desde os anos 1930. Muitos jovens sabem que só a política eleitoral não vai mudar as consequências do capitalismo racista globalizado”, enfatizou.

Contribuição das femisnistas negras brasileiras

Angela Davis é reconhecida como uma das figuras mais importantes do feminismo negro – em sua produção a filósofa traz a questão interseccional (gênero, raça e classe) como fundamental para entender e combater opressões. “Vocês precisam olhar para suas referências, eu não entendo porque vocês me têm como referência de feminismo negro, tendo figuras como Lélia Gonzalez, que já pensava a intersecção entre raça e gênero há muito tempo – e também as consequências da colonização para mulheres indígenas, e com quem aprendi tanto”, disse durante a palestra realizada no Sesc.

Davis fez questão de valorizar pensadoras negras brasileiras por sua obra e contribuição ao feminismo, afirmando que elas devem servir de inspiração para outras partes do mundo. Ela citou Luiza Barros, Carolina Maria de Jesus e Marielle Franco, que na sua opinião ajudaram a mudar a forma de pensar democracia.

Quando questionada sobre “qual bandeira é a mais importante de ser defendida”, a filósofa e ativista do movimento feminista negro fez questão de dizer que selecionar uma luta não era produtivo. Para ela “todas as lutas estão conectadas, não dá para falar de uma luta verdadeiramente antirracista sem falar do patriarcado heteronormativo. Não é possível falar em feminismo sem falar da dimensão histórica que o capitalismo tem na opressão das mulheres”, contextualizou durante a coletiva de imprensa.

Angela Davis no Brasil, 2019 (Crédito Bianca Pyl)
Angela Davis no Brasil, 2019 (Crédito Bianca Pyl)

Ela completou afirmando que uma das contribuições mais importantes do movimento feminista “é o reconhecimento das pautas que aparentemente são pequenas ou localizadas para explicar a complexidade de todo um sistema de opressões.”

A democracia ainda exclui pessoas negras, principalmente, as mulheres. “Não há democracia sem a participação de mulheres negras, porque elas não representam apenas a si mesmas, elas representam suas comunidades”, disse a filósofa. “Quando as mulheres negras se rebelam, o mundo se rebela conosco”, afirmou durante a palestra “A liberdade é uma luta constante.”

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Abolicionismo penal

A filósofa comemorou a libertação de Preta Ferreira, que saiu da prisão após 109 dias detida por conta da criminalização da sua luta por moradia no Monivmento dos Trabalhadores Sem Teto. “Liberdade para as mulheres negras, deveria significar liberdade para todos”, disse. Nos anos 1970, Angela permaneceu 16 meses na prisão. Uma campanha ao redor do mundo pedia “Liberdade para Angela” até que ela foi inocentada das acusações de assassinato, sequestro e conspiração.

Angela é defensora do chamado abolicionismo penal e uma crítica do sistema judicial. Ela tem se dedicado a estudar o complexo industrial prisional e a reforçar a luta por um mundo sem prisões por entender que existe uma relação entre encarceramento em massa e escravidão que, na verdade, reforça um “instrumento de perpetuação da violência”, e não de combate. “As pessoas negras e pobres são as maiores vítimas desse estado policial. A reforma da prisão tem mantido esse tipo de sistema punitivo”, avalia, defendendo a abolição e não reforma do sistema prisional.

O capitalismo alterou o estado de bem estar social de maneira a priorizar o lucro, segundo Davis. “O que fazer com quem está sem moradia, educação educação saúde? Coloca na prisão. E colocar na prisão cria novas possibilidades de lucros, já que as prisões nos Estados Unidos são privatizadas – e esse modelo tem sido exportado para outros países, como o Brasil”.

Angela Davis fará uma palestra no Parque do Ibirapuera (dia 21, 19 horas) e falará na abertura do “Encontro de cinema negro Zózimo Bulbul: Brasil, África e outras diásporas”, dia 23, no Cine Odeon, no Rio de Janeiro.

 

Bianca Pyl é editora web do Le Monde Diplomatique Brasil.

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