Le Monde Diplomatique

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“Pretendo beneficiar um filho meu, sim”, respondeu o presidente Jair Bolsonaro sete dias depois de anunciar a indicação de filho mais novo (entre os três que são políticos), o deputado federal (PSC-SP) Eduardo Bolsonaro, para o cargo de embaixador brasileiro em Washington, nos Estados Unidos, no final de julho. “Se puder dar um filé mignon ao meu filho, eu dou”, continuou durante uma transmissão realizada em suas redes sociais.

A escolha do chefe do Executivo, no entanto, não é a única etapa para que Eduardo ocupe o cargo: ele precisa convencer a maioria dos 17 integrantes da Comissão de Relações Exteriores do Senado ou, em caso de reprovação, ganhar a autorização via plenário. Segundo Bolsonaro, tudo já foi negociado com o presidente da Casa, o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP). Nos últimos dias, porém, a imprensa publicou várias notas de bastidores de Brasília afirmando que o filho do presidente está praticamente descartado da briga pelo cargo por falta de apoio no parlamento. À boca pequena, se comenta que o atual chanceler, Ernesto Araújo, é que irá para Washington.

Mais do que a indicação – criticada por quase todos os lados –, chama atenção a defesa inflexível de Bolsonaro por seu filho: “pretendo beneficiar um filho meu, sim” se assemelha à situação daquele pai cuja grande adversidade econômica e lembrança negativa na trajetória social recente foi o confisco provisório da poupança — onde se guardava todas as economias de uma família em seus primeiros momentos — decretada pelo presidente Fernando Collor de Mello no início do seu mandato, em 1991. Seus filhos, transeuntes da vida da classe média e membros do núcleo duro da geração millennial — que não consegue sair da casa dos pais — ao mesmo tempo, são, assim, aqueles que precisam torcer moralmente o discurso anterior do “mérito” por meio do trabalho e do esforço individual para validar a ajuda financeira e social paterna que recebem como legítima.

A tentativa de colocar o filho em uma das principais embaixadas brasileiras no exterior e a reação a ela, porém, podem ajudar a iluminar o fenômeno social bolsonarismo, do qual o presidente e sua família são apenas o produto. Para isso, vou rememorar uma análise do “modo de produção da opinião política” das classes sociais francesas feita pelo sociólogo Pierre Bourdieu nos anos 1960 e 1970.

Os modos de produção da opinião política

Um dos principais intelectuais europeus da segunda metade do século XX, o francês Pierre Bourdieu é autor de A Distinção, de 1979, 18ª obra mais citada do mundo atualmente segundo o Google Scholar. No livro, para além de toda conceituação sociológica, o autor separa um capítulo para falar sobre os modos de produção da opinião política na França daqueles anos, entendendo a expressão, de forma bem resumida, como a “autoridade para falar politicamente das coisas políticas”. O argumento era que as classes sociais tinham visões de mundo distintas, interpretando os assuntos da política interna e externa da França por meio de princípios diferentes: enquanto os mais pobres a observavam por meio do ethos, é dizer, da ética, da moral, do costume, as classes dominantes tinham uma percepção mais “sistemática” ou “partidária” desses assuntos.

A interpretação ética ou moral das coisas era usada em todas as relações práticas com o mundo, típica das classes empobrecidas e, portanto, dominadas da sociedade francesa daquele período. A percepção sistêmica era aquela em que era possível controlar uma lógica e impetrar uma reflexão, de forma que o seu resultado fosse uma “linha” ou um “programa” no qual todos os julgamentos propriamente políticos se encontrariam. Uma percepção do mundo tendencialmente encontrada nos membros das classes dominantes ou pretensiosas (leia-se, em ascensão).

Nas palavras de Bourdieu, enquanto o primeiro princípio era implícito, construído por esquemas de pensamentos e de ação “pré-reflexivos”, o outro era explicitamente político. Ambos estavam ligados às classes sociais, ainda que não mecanicamente (isto é, era dever do sociólogo encontrar sua realização no campo de pesquisa), por intermédio, principalmente, das “condições materiais de existência”.

Na França das décadas de 1960 e 1970, assim, um agricultor interiorano era mais propenso a defender que não se deveria falar sobre sexo com crianças e adolescentes menores de 15 anos do que os empregados e quadros médios parisienses, que respondiam positivamente à questão sobre abordar o tema antes que seus filhos completassem 11 anos. A questão, para Bourdieu, era que nessas reações se encontravam dois modos de produção da opinião distintos: um amparado na moral doméstica popular e outra na “boa vontade cultural a reconhecer […] a norma dominante” das classes mais afastadas das necessidades urgentes. Em outras palavras, o argumento era que, quanto mais se descia no espaço social, ou o que dá no mesmo, quanto mais se chegava perto das urgências materiais da vida, mais a interpretação dos fatos se tornava ética, pré-reflexiva, moral, princípio implícito, não propriamente político, sistemático, reflexivo e esquemático.

O bolsonarismo como fenômeno inverso

No final de abril, em sua coluna na Folha de S. Paulo, o filósofo e professor Pablo Ortellado argumentou que, ao contrário das críticas estruturais ao bolsonarismo, que versavam sobre um argumento central de que toda a mobilização de pautas morais que balizaram sua campanha eleitoral era uma espécie de “disfarce” para a agenda neoliberal de seu projeto de país, cuja expressão máxima era a figura Paulo Guedes, hoje ministro da Economia, o mandato do presidente e o fenômeno social do qual ele é consequência são essencialmente morais. “É um governo conservador que utiliza de maneira acessória e até mesmo oportunista a agenda liberal —e não o contrário”, diz Ortellado.

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Ortellado, porém, ainda não chegou a responder a questão sobre quem são os receptores atuais dessas “linhas de discurso moral articuladas” de Bolsonaro, e Rosana Pinheiro-Machado, em uma entrevista concedida a mim durante as eleições do ano passado, sugeriu que se tratava de um “homem branco que sempre sustentou a família e que agora está se sentindo frustrado, que acha que o problema é dar tudo para as minorias, mas ainda assim é um sujeito negociável” — um perfil que, levando em conta os dados do Datafolha de setembro, não se sustenta mais, ainda que tenha algum sentido considerando o contexto da campanha eleitoral.

Segundo o instituto de pesquisa, os segmentos que mais aprovam o governo Bolsonaro não chegam à metade dos índices, mas seguem majoritários em suas variáveis. O presidente tem maior aprovação entre homens (33% de bom/ótimo), brancos (36%), moradores do Sul e do Centro-Oeste (37%), pessoas com rendas de cinco a dez salários mínimos (39%), empresários (48%) e evangélicos neopentecostais (46%).

Ao contrário, ele tem maior reprovação na maior parte das variáveis socioeconômicas, assim como uma significativa rejeição de gênero: mulheres (43% de ruim/péssimo), desempregados (48%), negros (51%) e nordestinos (52%).

Haddad

E quando o Datafolha perguntou em quem os brasileiros votariam se a eleição presidencial fosse hoje, os perfis que escolheriam o petista Fernando Haddad foram de jovens entre 16 e 24 anos (51%), estudantes (50%), pessoas que estudaram até o ensino fundamental (45%) e médio (42%) e desempregados (52%), enquanto, entre os que se manteriam fieis a Bolsonaro, estariam sulistas (43%), pessoas acima dos 60 anos (34%), os quem têm diploma universitário (40%) e os que ganham entre cinco e dez salários mínimos (53%).

Assim, o bolsonarismo em seu formato atual segue masculino, mas é sobretudo um fenômeno de classe médias sulistas que, ao contrário do que Bourdieu encontrou na França, mas mantendo sua divisão analítica, têm um modo de produção da opinião política baseado nos princípios implícitos, isto é, interpretam os fatos políticos por meio de um ethos, não da reflexão estritamente política.

Mito

É dizer, portanto, que no Brasil de agora há uma inversão dos modos de produção da opinião política: a classe que sustenta o bolsonarismo, tanto o fenômeno social como o projeto político, e que interpreta a política por princípios implícitos, pré-reflexivos, éticos, morais, os mesmos utilizados para mensurar todas as práticas do cotidiano, não é aquela em que estão os mais pobres, os estratos populares, mas sim uma classe com volumes significativos de capitais escolar e econômico – as classes médias e médias altas que possuem, ao contrário da análise estrutural, certo lugar dominante na sociedade brasileira. Ao contrário, no espectro brasileiro momentâneo, considerando os dados do Datafolha, os mais empobrecidos são justamente aqueles que tendem a se opor ao bolsonarismo — o que não significa que eles interpretem os fatos políticos necessariamente em termos políticos.

É para uma base social mais distante das “urgências materiais”, que hoje representa pouco menos de um terço da aprovação (29%), que Jair Bolsonaro ocupa o mesmo lugar que o colocou no topo da campanha eleitoral: o de “mito” (cuja imagem, aliás, é moral, porque mitos não são reais e muito menos políticos profissionais). Ou como diz Ortellado, espantado, em outro artigo de sua mesma coluna, ao invés de pedir desculpas pelas declarações e atitudes politicamente polêmicas dos últimos meses, Bolsonaro “parece divertir-se com a indignação que causa — e uma parte do seu público também”.

A base mais fiel de Bolsonaro, neste momento, usa lentes muito específicas para observar o mundo: aquelas mesmas que, prontas para ver na indicação do filho do presidente à embaixada brasileira mais estratégica legitimidades tanto política e moral, só resolveu colocar estes óculos porque eles lhe permitiram validar o que, a olho nu, lhes era politicamente indefensável.

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