Le Monde Diplomatique

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O governo atual promoveu a maior fuga de capitais em 23 anos, totalizado em R$ 10,79 bilhões em agosto. Já os bancos lucraram R$ 109 bilhões entre julho de 2018 e julho de 2019. É o maior lucro do setor em 25 anos. Por seu turno, o magnata Joseph Safra ampliou o seu patrimônio em mais de R$ 19 bilhões no último ano. Contrariando seu discurso eleitoral que destacava a sua aspiração de atrair investimentos para o país, Bolsonaro expulsa investidores para enriquecer uma elite patronal que apoia o seu governo (32% dos empresários se declaram bolsonaristas).

Esse é o modelo de Estado mínimo apresentado pelo governo. Contudo, esse formato se mostra imperfeito por priorizar uma política de aniquilação da esquerda e dos projetos de cidadania que vinham sendo encampados por ela, de forma tímida, vale dizer, porém eficiente. Por conta disto, o governo brasileiro se atola em sua grosseria ideológica, edificando um Estado incompetente e ineficiente para o cidadão e para a atração de investimentos, mas extremamente interessante para alguns setores da elite que querem aumentar suas fortunas por meio do perdão de suas dívidas, isenção de impostos e da retirada dos direitos trabalhistas.

Estética mórbida

As queimadas e as declarações absurdas do presidente (anti diplomáticas, diga-se de passagem), endossam esse processo. Marcas decidiram não comprar a matéria-prima brasileira e países europeus já estão sugerindo a não conclusão do acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

Cabe lembrar que tais declarações são espetáculos para esconder o projeto econômico de destruição do Estado, fortalecendo assim, o grande capital. A própria imagem do presidente, frequentemente entrevado em uma cama de hospital, tem esse objetivo. A representação de um Estado mórbido que precisa de alguém para se levantar. A cura seria, portanto, a intervenção livre e desimpedida do capital.

Essa incompetência para radicalizar o neoliberalismo também ficou clara na Argentina, já que o governo de Maurício Macri não está sendo bem avaliado pela população que votou na chapa de Cristina Kirchner nas primárias deste ano. Também vemos essa incompetência no Equador, onde o povo se rebela contra as medidas de austeridade de Lenin Moreno. Tirar do povo para fomentar a riqueza dos empresários exige estratégias alienantes extremamente sofisticadas, as quais as elites latino americanas não estão conseguindo encontrar.

Neomercantilismo

Nem nos EUA existe esse neoliberalismo tão cobiçado. O que encontramos por lá é um neomercantilismo que interliga os interesses das empresas e do Estado. Vemos com frequência o governo Trump taxar produtos chineses quando, na teoria neoliberal, a taxação deveria ser realizada pelas próprias flutuações do mercado. Mas na prática, essa utopia econômica se torna inviável. O crescimento da China nos alerta, inquestionavelmente, desse ponto.

É Milton Friedman, um dos maiores teóricos liberais, que defende a ideia de que o mercado é o único capaz de dar autonomia aos indivíduos em relação ao poder central, além disso, a economia despersonalizaria as relações sociais. Isso é a última coisa que vemos no governo Bolsonaro, que constantemente constrói uma imagem altamente personalizada do governo fomentando polêmicas, o que, por seu turno, infla ainda mais a alcunha de “mito”. Ou será uma intenção do governo personalizar a política para despersonalizar a economia? Impossível, pois política e economia em um sistema capitalista são indissociáveis.

A grande mídia, que anseia por um radicalismo neoliberal, já começa a sondar possíveis candidatos para 2022. Quer salvar o modelo econômico que vem sendo implantado por Guedes, que acredita estar sendo prejudicado pela incompetência do governo Bolsonaro. Sem dúvida, seu sonho de consumo seria João Doria ou Luciano Huck.

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Estado-empresa

A meta dos investidores é a implantação no Brasil do Estado-empresário, modelo que vem crescendo nos governos ocidentais. Tal paradigma começou com Berlusconi e hoje se encontra em Trump, Macron, Andrej Babis na República Tcheca e Tayyip Erdogan na Turquia. Eles levam a gestão para o campo político adotando técnicas de poder corporativo e gerencial. O Estado é reduzido, por um lado, “a uma tecnorracionalidade e, por outro, a grande empresa, dotada de uma nova legitimidade” preencher as brechas da política. Esse mecanismo tem, portanto, o objetivo de forjar uma neutralização e uma despolitização do Estado pela grande empresa. Assim o cidadão nem se sentirá governado, mas administrado.

Contudo, no que tange a América do Sul recente, a experiência de Macri, um presidente-empresário, não foi muito satisfatória. Já a de Piñera, outro presidente-empresário, pode vir a calhar para as elites empresariais da região. Mas é preciso destacar uma observação importante: o presidente chileno não assumiu o cargo com a promessa de destruir o legado da socialista Michelle Bachelet, mas de administrá-lo.

Ainda assim, essa administração vem se mostrando incompetente, e o povo já apresenta sinais de insatisfação, enchendo as ruas do país com protestos, levando o exército à atacar seus cidadãos pela primeira vez desde o período ditatorial.

Radical e insano

Contudo, o discurso insano e radical de Bolsonaro é bem diferente de Piñera. Uns acreditam que essa insanidade facilitará a implantação do neoliberalismo radical, já outros (como a corporação midiática da família Marinho e o grupo de empresários a ela conectados) pensam justamente o oposto, que o presidente brasileiro atrapalha. O que comprovará a tese verdadeira serão as ruas que, por enquanto, ainda estão vazias.

A ideologia bolsonarista dividiu o povo e o tornou estático, a maior pressão contra o governo está vindo – quando não do próprio governo – de parte da burguesia que está se sentido afetada pelo projeto ideológico em voga. Portanto, não é uma pressão efetivamente econômica, capaz de promover uma verdadeira mudança.

O certo é que a tentativa de radicalizar o neoliberalismo nas maiores potências da América do Sul vem se mostrando incompetente. Se na Argentina, esse projeto não deu certo, porque não se forjou um discurso radical e popular contra a esquerda, aqui não está avançando justamente porque o governo tem si dedicado lunática e exclusivamente a intensificar tal discurso. Por outro lado, é bem provável que se Bachelet vir candidata em 2022, vença o pleito presidencial. Muita coisa pode acontecer nesses três países (Chile-Argentina-Brasil) caso Alberto Fernández se torne o próximo presidente da Argentina. O fato é que essa incompetência da direita em administrar a sua agenda – o que, consequentemente, desencadeará movimentações sociais cedo ou tarde -, poderá promover o retorno da esquerda ao poder.

Raphael Silva Fagundes é doutor em História Política pela UERJ e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí

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