Le Monde Diplomatique

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Quando estava fotografando os cantos mais inóspitos da Terra para a concepção do livro Gênesis, publicado em 2013, Sebastião Salgado ficou impressionado ao visitar a Amazônia, sobretudo no contato com algumas tribos indígenas. Naquele momento, a obra, que serviu como uma homenagem ao planeta, com imagens de lugares não modificados pelo homem, foi o ensejo para o trabalho que segue em andamento, sobre a Amazônia.

Nos últimos sete anos, o fotógrafo visitou comunidades isoladas para compreender, entre outras coisas, que não somos diferentes dos indígenas que estão na mata. “Quando, pela primeira vez, fui trabalhar com uma comunidade indígena, imaginei que o contato seria difícil. Não falava a língua, são pessoas isoladas. Com menos de um dia eu já tinha me adaptado, porque tudo que é essencial para mim é essencial para eles. Os sentimentos são os mesmos, a relação comunitária, a solidariedade, o amor, a tristeza, o ódio”, conta.

Além do Brasil, Salgado esteve em países como Colômbia e Peru para registrar a vida de índios isolados. Sem premeditar o futuro reservado ao Brasil, o fotógrafo é dono de um arquivo com imagens que mostram uma floresta hoje aniquilada pelo fogo que consome a região nos últimos meses. A entrevista, feita antes dos incêndios, não diminui o ceticismo que o fotógrafo manifesta em relação ao governo de Jair Bolsonaro (PSL): “O governo que está destruindo uma série de instituições seríssimas e que foram construídas com grande esforço e dificuldade, com dispêndio enorme da sociedade brasileira, como a Funai e o Ibama”.

Ao Le Monde Diplomatique Brasil, Sebastião Salgado faz um balanço histórico da própria obra, revela influências artísticas que permearam sua trajetória e afirma que os anos dedicados à fotografia profissional estão perto do fim. “As minhas células estão morrendo.”

 

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Alguns trabalhos seus, como em Êxodos e Trabalhadores, mostram uma contradição entre o progresso e a extração de bens naturais. Você concorda?

SEBASTIÃO SALGADO – É a contradição da nossa espécie. Nós temos carros, casas, precisamos de bens de consumo dos mais sofisticados, e isso precisa sair de algum lugar. Nós criticamos as minas, mas também precisamos do minério de ferro, do carvão, para transformar em aço, que vão nas placas que constroem os navios, nas máquinas fotográficas. Precisamos do petróleo para o gás de cozinha. E, ao mesmo tempo, estamos criando poluição, depredando o planeta, e nossa espécie, profundamente predadora e que cresce cada vez mais, precisa sobreviver. A gente tem uma longevidade imensa. Como resolver essa contradição? Não sei.

 

Como você acha que a sua fotografia se insere nessa contradição?

Sou uma pessoa que teve uma formação universitária em Ciências Sociais e Economia Política, com diálogo na Macroeconomia, Finanças Públicas e Sociologia. Quase fiz parte da primeira geração que abandonou o campo e foi para a cidade. Quando eu era jovem, 90% da população vivia no campo. A minha fotografia só podia ter uma coerência com o momento histórico que eu vivi e aprendi nascido em um país subdesenvolvido. Hoje, quando vejo o conjunto das minhas fotografias, percebo que tive o privilégio de poder ter me colocado dentro do movimento da onda da história do planeta no período que vivi.

Minha primeira grande história foi na América Latina, rodando com os indígenas (Outras Américas, 1977). Fiz outro trabalho sobre o fim da mão de obra na produção industrial (Trabalhadores, 1986). Antes da grande chegada da eletrônica à linha de produção, a utilização do trabalho humano era muito densa. Fiz um trabalho sobre a reorganização da família humana, o abandono do campo para a cidade, os refugiados, imigrantes (Êxodos, 2000). A minha fotografia foi mais ou menos isso. O último grande projeto que eu fiz foi ligado à grande preocupação planetária, que é o meio ambiente (Gênesis, 2013). Hoje, estou em um trabalho grande, maior. Fiquei sete anos fotografando a Amazônia brasileira. Se você olha isso, há uma coerência de onde eu vim e no que eu fiz na vida.

 

Após Gênesis, que faz um retrato do planeta, o tema ambiental se mantém, em especial o índio. Por quê?

Quase todos os meus trabalhos nasceram dentro um do outro. Quando fiz Êxodos, ele nasceu do que eu havia feito em Trabalhadores. Trabalhadores era o que hoje chamamos de globalização, termo que não existia. Quando comecei a replantar um pedaço da floresta amazônica em Minas Gerais, no Instituto Terra, com a Lélia [Wanick Salgado], nasceu o projeto Gênesis e, dele, o Amazônia. Eu conheci a Amazônia durante o Gênesis e quis voltar mais profundamente.

É muito importante falar das comunidades indígenas, do respeito que devemos a elas, principalmente no Brasil. O maior componente da raça brasileira, se é que podemos falar nesses termos, é indígena. Quando os portugueses chegaram aqui, em 1500, só vieram homens. As primeiras mulheres chegaram 55 anos depois. Os indígenas tinham outra relação com o sexo, diferente do pensamento cristão. Houve uma miscigenação profunda entre portugueses e indígenas. Quando os escravos chegaram, eles foram suplantados nessa mescla entre portugueses e indígenas. O engraçado é que, ao perguntar para o brasileiro qual é a origem dele, a resposta é sempre “alemã”, “italiana”, “portuguesa”, mas quase nunca indígena.

Ao trabalhar com os indígenas você reencontra a própria espécie, e feliz do país que pode conviver com a sua pré-história. O Brasil tem pelo menos oitenta grupos de indígenas que não foram contactados, que somos nós de 20 mil anos atrás. É uma coisa fabulosa e que precisamos defender, respeitar. É fonte de cultura, ciência e sabedoria.

 

Você costuma dizer que as necessidades humanas são as mesmas. Isso aconteceu com os índios?

Absolutamente. Quando, pela primeira vez, fui trabalhar com uma comunidade indígena, imaginei que o contato seria difícil. Não falava a língua, são pessoas isoladas. Com menos de um dia eu já tinha me adaptado, porque tudo que é essencial para mim é essencial para eles. Os sentimentos são os mesmos, a relação comunitária, a solidariedade, o amor, a tristeza, o ódio. Nem fisicamente nós mudamos. A nossa pequena deformação está no pé: o fato de utilizarmos sapatos deixou nossos pés finos e longos, ao passo que eles têm o pé triangular e achatado na frente.

 

Na coleção Photo Poche, dedicada à sua obra, o texto de abertura diz que seu trabalho “faz uma reconciliação da estética-informação, estética-engajamento e estética-política”. Você concorda? Quando você começou, o plano era englobar tudo isso?

Fotografamos com o que herdamos. A minha herança são os meus pais, a terra onde nasci, a influência das primeiras luzes que entraram no meu sistema sensitivo, a sociedade de onde venho, toda a filosofia e ideologia que carrego. Ao fotografar, naquela fração de segundos, toda essa herança se manifesta. É difícil premeditar. Na fotografia você sabe onde vai, mas nunca se sabe o que vai encontrar. É algo instantâneo, instintivo. Se você posicionar cem fotógrafos em um lugar, vão aparecer cem fotos diferentes, porque os profissionais têm origens distintas. Essa revista falou isso de mim, e está certo. Mas eu não premeditei nada, é só a minha forma de viver.

 

Você citou essa coisa do instantâneo. Há uma frase sua que diz que nós nunca produzimos tanta imagem, mas que nunca fotografamos tão pouco.

[...]

Tem uma diferença grande entre o que você faz nessa nova linguagem, com o celular. Isso é linguagem de comunicação: mostra o evento, a relação das pessoas no espaço. Mas isso não é fotografia, é imagem. A fotografia é a memória, o espelho de uma sociedade. É um corte representativo.

Olha as fotografias dessa exposição em Serra Pelada e você vai entender como as pessoas trabalhavam e viviam nos anos de 1980. Essa linguagem eletrônica rápida acaba se perdendo. Você muda de telefone, não guarda, apaga…Sabe quando você era pequeno e seus pais tiraram um retrato e depois você vê essa foto com a ponta quebrada? Isso é uma fotografia.

“No Brasil, temos um governo que está destruindo uma série de instituições que foram construídas com grande esforço”, diz Sebastião Salgado (Foto: Henrique Santana)

 

No Roda Viva de 1996, você disse que tinha muito lirismo em suas fotografias. Você recebeu um prêmio literário na Alemanha recentemente. Se suas fotos fossem versos, quais seriam?

Minha obra é profundamente barroca. Nasci no interior de Minas Gerais, no meio das montanhas, das luzes. Sou ateu e não acredito em religião nenhuma, mas aquilo que vi quando criança, toda a religiosidade, fez que minhas fotos tivessem influência do barroco.

 

Você já disse que o preto e branco significam a abstração da realidade e confirmam ainda mais a realidade fotografada. O que isso significa?

É uma contradição, não é? O preto e branco significa uma abstração. Toda gama de cor está dissimulada na gama de cinza. Quando comecei a fotografar, usava cores, mas aquilo me desconcentrava profundamente. Os vermelhos, verdes, os tons vivos, eles tinham uma importância enorme no momento de reconstruir a imagem. Em vez de ver a sua dignidade, a personalidade da pessoa, via a cor da cadeira.

Quando fotografo em preto e branco, tudo se transforma em cinza, e aí posso me concentrar no que realmente quero. Foi uma forma de entrar na abstração para mostrar profundamente uma realidade. As pessoas que olham branco e preto veem uma abstração, mas instintivamente há uma reposição de cor, e cada um interpreta à sua forma. As fotografias passam a ser suas também, porque cabe a interpretação de cada um a partir dessa abstração.

 

Você tem vontade de voltar à fotografia social ou isso é um capítulo encerrado na sua trajetória?

Voltaria, mas já estou com 75 anos. É difícil voltar para qualquer lugar neste estágio. Deixo a porta aberta para a nova geração. Não fotografo mais refugiados, mas há quem esteja fazendo isso, com um jeito diferente, acompanhando o abandono de pessoas na Síria, no Iraque, no norte da África, rumo à Europa. Mas eu já estou muito mais próximo da morte. As minhas células já estão morrendo. Se estiver tudo certo comigo, sem nenhum acidente, vivo mais uns quinze anos e daí acabou.

 

Mais quinze anos fotografando?

Não, vivendo. Os fotógrafos não param de fotografar. Lembro-me de ir ao México certa vez no aniversário de 100 anos do Manuel Álvarez Bravo (fotógrafo, 1902-2002). Ele me chamou para mostrar as fotografias dele. Sabe o que era? Os pés inchados dentro de uma bacia com água quente. Quando se é realmente fotógrafo, vive-se densamente o ato. Posso ter sido um fotógrafo ligado ao social e ter feito cortes representativos, mas não sou ligado a nenhum partido político, não sou militante de nada. Sou puramente fotógrafo e utilizo minha profissão para contar as histórias que enchem a minha alma, que me revoltam e me motivam.

 

Como tem visto o Brasil atual?

Acredito em uma forma filosófica de evolução, na dialética. Nós evoluímos por partes. Em alguns momentos negamos a evolução, para solidificar tudo aquilo que acumulamos, para saltar outra vez e evoluir de novo. Hoje, no Brasil, vivemos a negação da negação. Temos um novo governo que está destruindo uma série de instituições seríssimas e que foram construídas com grande esforço e dificuldade, com dispêndio enorme da sociedade brasileira, como a Funai, o Ibama, o sistema de educação pública. Estão destruindo e sem proposta nenhuma, sem apresentar nada. É simplesmente a destruição pela destruição.

Ao mesmo tempo, está se criando uma grande reação a tudo isso. Uma resistência, um amadurecimento do povo brasileiro. É um momento difícil, mas acredito que podemos solidificar o que virá para o Brasil. Somos uma democracia jovem, que se urbanizou recentemente. A França levou quinhentos anos para se urbanizar, ao passo que aqui foram cinquenta anos, com todas as deformações que isso gera. Temos um PIB colossal, o quinto maior espaço geográfico do planeta. E mesmo assim não temos um Prêmio Nobel de Literatura, por exemplo.

Estamos em um nível de desenvolvimento muito precário. Isso não significa que o país seja ruim, mas é tudo muito recente. Veja Serra Pelada, algo que aconteceu na década de 1980, contemporâneo, mas parece ser o Egito antigo. Até os anos 1990 tínhamos uma inflação absurda, interrompida no governo do professor Fernando Henrique Cardoso. O trabalhador ia ficando pobre a cada dia do mês, e toda força de trabalho dele ia para o sistema financeiro. É um roubo! Por isso temos o sistema de bancos mais sólidos do mundo, o que é uma injustiça e configura uma característica profunda do subdesenvolvimento.

Eu espero que apareçam políticos que realmente tenham consciência nacional, que entendam a sociedade, que pensem comunitariamente em direção à grande maioria e que se comportem de outra forma, não um comportamento puramente individual. Ser político no Brasil serve para garantir a sobrevivência da sua família. Aqui não se valoriza o cargo público enquanto poder institucional. Isso ainda não chegou ao Brasil, porque somos uma democracia jovem, recente, mas estou seguro de que vai acontecer.

 

Guilherme Henrique é jornalista.

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