Le Monde Diplomatique

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A VISITA DE JOÃO GILBERTO AOS NOVOS BAIANOS

Sérgio Rodrigues, Cia. das Letras

Música, literatura e futebol têm tudo a ver com alegria. Exceto, claro, quando nosso time perde, o livro é chato e o cantor desafina! E bem sabemos o quanto nós todos, brasileiros e brasileiras, andamos carentes de alegria: tem muito desafino pelaí, né não? Por isso, é muito mais do que bem-vindo o belo livro que Sérgio Rodrigues acaba de lançar.

A obra presenteia o leitor com um conjunto de histórias inspiradas em personagens da MPB, da literatura brasileira e do futebol. Seu título já antecipa quem representa a música, romanceando (com piscar de olhos do narrador) um episódio histórico. Os contos inspirados em personagens e situações da literatura brasileira vêm depois, seguidos do divertido texto que retoma o tão patético episódio do roubo da taça Jules Rimet das fuças da CBF nos idos dos anos 1980. As histórias vão se desfiando numa linguagem ao mesmo tempo rigorosa e cristalina, como se o narrador as estivesse contando numa roda de amigos. A elas não faltam lances engraçados – às vezes deliciosamente irônicos – que fazem o leitor rir ou (até os mais sisudos) pelo menos sorrir…

A história do roubo da Jules Rimet, que fecha o livro, tem um pedigree ilustre: foi originalmente publicada – em capítulos, como os folhetins antigos – no jornal francês Le Monde, nas vésperas da Copa de 2014, aquela dos 7 a 1. Narrada simultaneamente a um tórrido romance entre um escritor e uma socialite, tem como pano de fundo um cotidiano brasileiro de violência e impunidade, que tempera com toques de realismo contemporâneo os belos voos imaginativos do autor.

Ao inventar episódios hilários para Bentinho e Capitu e para poetas inconfidentes, o livro lhes confere uma deliciosa e divertida aura de vida real. E é uma certa vida literária contemporânea que inspira os conselhos (e os desabafos?) com que candidatos a escritores são brindados, em páginas que fazem os leitores de Sérgio rolar de rir. E se familiarizarem um pouco com as entrelinhas do mundo das letras, muito pouco presentes na literatura que tematiza a si própria.

Muitas razões para saudar esse belo livro que (sem querer, homenagem póstuma a João Gilberto) proporciona a alegria essencial para a necessária esperança em um tempo tão cor de cinza como o nosso.

 

[Marisa Lajolo] Escritora, ensaísta e professora de Literatura.

 

 

ANTIFA: O MANUAL ANTIFASCISTA

Mark Bray, Autonomia Literária

Mark Bray é historiador e investiga nesse livro as práticas antifascistas do passado e do presente, assim como seus vínculos temporais, como a reutilização de símbolos, técnicas, atualizações e dificuldades. A obra perpassa a formação do fascismo como evento histórico dos Estados modernos em conjunto com as resistências antifas – como são chamados os antifascistas. Desde o final do século XIV e começo do século XX, são apresentadas uma profusão de práticas até a continuidade dessas lutas nas subculturas punks.

O lançamento ocorreu na Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), atividade paralela da Flip, em Paraty. Nesse mesmo evento, ao receber o jornalista Glenn Greenwald, a festa foi alvo de um ato bolsonarista, localizado na outra margem do rio. Com suas bandeiras verde-amarelas grafadas 17, colocaram caixas de som para abafar as falas da mesa e alvejaram a embarcação onde se realizava o debate por cerca de uma hora, sem ação concreta das forças de segurança do Estado ou da organização geral da Flip.

Escrito na urgência dos acontecimentos recentes no mundo, o encontro fortuito entre Mark Bray e esse acontecimento desdobra as próprias tese do livro. O historiador mostra que a estratégia do diálogo, calcada na razão, e da fé nas estruturas do Estado democrático de direito nunca impediu o fascismo de ocupá-lo. Ademais, não existiram revoluções fascistas; todos os governos históricos reconhecidos como tal foram eleitos. As estruturas utilizadas para a repressão são estruturas policiais formadas ainda em governos liberais, mesmo que em suas versões mais socializantes. No decorrer da leitura apresenta-se uma perspectiva antifa que não se resume ao combate violento de grupos fascistas, mas também inclui a afirmação de um novo mundo no presente, com perspectivas anticapitalistas. Buenaventura Durruti, em entrevista ao jornalista Van Passen em 1936, fez a seguinte afirmação: “Nenhum governo do mundo combate o fascismo até suprimi-lo. Quando a burguesia vê que o poder lhe escapa das mãos, recorre ao fascismo para manter o poder de seus privilégios, e isso é o que ocorre na Espanha. Se o governo republicano tivesse desejado eliminar os elementos fascistas, podia tê-lo feito há muito tempo. Em vez disso, contemporizou, transigiu e gastou seu tempo buscando compromissos e acordos com eles”. O livro parece tentar incessantemente atualizar essa análise, apostando em descrever práticas de resistência que escapem à mera reposição do capitalismo.

 

[Wander Wilson] Doutor em Antropologia pela PUC-SP.

 

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<INTERNET>

 

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Museu do impedimento

De 1941 a 1979, um decreto tornou ilegal o futebol feminino no Brasil. Lea Campos, a primeira árbitra de futebol do Brasil, foi presa quinze vezes durante a proibição. Segundo relatos de Karen Zolko, meia-esquerda que atuou na equipe feminina do S.C. Corinthians Paulista em 1977, elas foram proibidas de usar a camisa do clube por causa da lei. O Museu do Futebol, em parceria com o Google Arts & Culture, montou uma exposição on-line em que você pode enviar material do período da proibição para que essa história não fique esquecida.

<www.museudoimpedimento.com>

 

A última canção do pássaro

Songbird VR é uma jornada de 9 minutos pela Ilha de Kauai, parte do arquipélago do Havaí, em 1984. Quem assiste é convidado a buscar o extinto pássaro ʻōʻō, preto e com penas amarelas nas patas, que tem um canto único. A história refaz os passos do cientista que foi a última pessoa a ver o lendário pássaro antes de ele desaparecer para sempre.

<http://tindrum.dk/project/317/>

 

K-town ‘92

Em abril de 1992, em Los Angeles, as pessoas saíram às ruas revoltadas, colocando fogo em carros e lojas. A mídia na época explicou pouco a razão, mas mostrava coreanos, negros e latinos como os causadores e vítimas da violência. Grace Lee, coreano e norte-americano, resolveu montar um documentário interativo que ao mesmo tempo explica melhor a história e faz uma crítica da mídia de então. Nessa nova narrativa é possível ver as múltiplas dimensões da história.

<http://ktown92.com>

 

[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.

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