Le Monde Diplomatique

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Para conhecer realmente a fundo qualquer período da história de um país, é necessário saber o que sua ficção já tivera antes a sabedoria de sinalizar, aquilo que em muitos casos fora antecipado pelo descompromisso imaginoso da arte.

O que afinal é uma forma distinta entre o sonho e a coragem.

A obra do chileno Roberto Bolaño (1953-2003), a propósito, é marcada pela presença de personagens que aparentam ser conduzidos sobre um país que vive o ponto de passagem compartilhado entre realidade e pesadelo, historicamente situados no período de busca pelos significados deixados entre as ruínas humanas causadas pela ditadura de Augusto Pinochet.

Não é por acaso, portanto, que essa atmosfera historicamente ambígua, anunciada nos livros de Bolaño, tenha colapsado nas últimas semanas, e nem também que vários manifestantes tenham carregado um cartaz com a afirmação de que “O Chile acordou”.

Manifestantes tomam as ruas de Santiago, no Chile
Manifestantes tomam as ruas de Santiago, no Chile (Crédito – Ignacio Bustamante/ShutterStock)
Fim de ciclo

É uma imagem que demonstra com clareza o desejo de rompimento com um modelo sonâmbulo de democracia, vivido em quase todos os países da América do Sul, e cujo ciclo pode finalmente ter se encerrado nesse capítulo chileno.

Logo, o que em Bolaño é apresentado como a convivência com o fundo difuso de um tempo cansado, é o acerto em perceber que o ambiente tenso em que se movem seus personagens representa o incômodo com um passado coletivo mal resolvido. Algo semelhante ao que ocorre no Brasil, no qual a Lei da Anistia serviu apenas para disfarçar de modo ineficaz as feridas institucionais históricas ocasionadas pela ditadura.

Especialmente em Estrela distante (1996) e Noturno do Chile (2000), há uma inquietante associação entre pureza e violência. Por isso, na tentativa de fundar, acima dos petardos da história, uma autonomia da vida artística onde ela não é possível, os personagens nesses livros padecem o estranhamento dessa relação, pois o mistério não nasce nem se dissolve no vazio. É que, como ponderou Georges Bataille, na literatura como na vida, “A tentativa desenfreada do bem, do puro, torna-se uma homenagem à existência daquilo que nega, isto é, o mal.”

Ambiguidade

A questão política que atualmente se desenha tem, por sua vez, origem numa forma correlata de ambiguidade. Pois a sociedade chilena vive um cenário em que, embora os indicadores macroeconômicos indiquem um crescimento estável, há um imenso contingente humano que não se sente beneficiado por esse processo − pois essa precária bonança de contrários também não acontece no vazio.

Há um profundo descolamento produzido pela distância da dimensão pública do poder em relação à pauperização da população chilena, o que a história ensina ser uma receita para convulsões sociais.

[...]

É, portanto, na combinação problemática do modelo econômico neoliberal, sustentado pelo esforço de radical desestatização começado na década de 1970, com os resquícios institucionais da lógica do poder autoritário (por exemplo, na polícia, organizada ainda sob formação militar) que está a raiz dessas manifestações de rua. E essa distância entre povo e poder ficou claramente evidenciada quando, nos primeiros dias da revolta popular, o presidente Sebastián Piñera afirmou estar “em guerra” contra a população chilena.

Estado e mercado

A agonia do modelo chileno de sociedade é a irrupção de uma enfermidade causada pela convivência na verdade impossível de antagonismos entre a aplicação radical de alguns valores da esfera privada e uma esvaziada esfera pública. Ou da relação agônica entre um como que classicismo privado em contraste com o embrutecimento dos serviços públicos oferecidos à população.

Assim, a sensibilidade que se desenvolve a partir desse processo já fora bem articulada na maneira pela qual Bolaño introduziu a ironia subjacente que há na impossível neutralidade da procura pela beleza em meio à violência. Algo como o sucedâneo artístico daquela dimensão ética.

Como em Noturno do Chile, em que os artistas de Santiago reunidos no andar superior de uma casa discutiam novas formas de expressão artística enquanto que, no andar de baixo, funcionava um centro de tortura de presos políticos. Ou em “Estrela distante”, em que um poeta aviador ao mesmo tempo escreve poemas no céu com a fumaça do avião e colabora com órgãos de repressão estatal.

O que então fica demonstrada é essa ambivalência insuportável na história recente do Chile, a pressão de um susto diluído diária e coletivamente. E que enfim atingiu seu ponto de ruptura, isto é, o cinismo da tentativa de conciliar as necessidades concretas da população à eficiência maquinal de um Estado que se quer neutro. Algo cuja presença a ficção, a seu modo, já anunciara.

Porque, da mesma maneira como já se disse sobre Albert Camus, a literatura de Roberto Bolaño mostra a imagem de um neutro que mancha.

Gilberto Clementino Neto é poeta, bacharel em Relações Internacionais, mestre e doutorando em Teoria da Literatura (UFPE).

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