Le Monde Diplomatique

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Quando James Wilson lançou a The Economist, em 1843, ele prometeu “editoriais originais, nos quais os princípios do livre-comércio serão aplicados com o máximo rigor a todas as questões importantes do momento” – uma formulação que evoca mais uma cruzada do que a linha editorial de uma publicação do mundo dos negócios. No exterior, Wilson identificou, “ao alcance de nossas trocas comerciais, ilhas e continentes inteiros nos quais a luz da civilização mal se elevou”. Na Inglaterra, “a ignorância, a depravação, a imoralidade e a ausência de religião proliferam em proporções indignas de um país civilizado”. Nos dois casos, o vetor da civilização é o livre-comércio, sobre o qual “pensamos seriamente que fará bem mais que qualquer outro agente visível para difundir a civilização e a moralidade e até mesmo acabar com a escravidão”.

Durante os dois primeiros anos de existência, o novo título da imprensa britânica permaneceu fiel aos seus compromissos. Examinou os efeitos deletérios das tarifas aduaneiras sobre a oferta, a qualidade e o preço do açúcar, da lã, do trigo, do vinho, do ferro, do milho, da cochonilha, da seda, do peixe, da renda, do carvão, dos salários, da moeda, dos alfaiates, dos escravos e da roupa francesa. Seu slogan ocupava duas colunas muito densas sob um elegante cabeçalho em caracteres góticos: “The Economist: or The Political, Commercial, Agricultural, and Free Trade Journal” [The Economist: ou o jornal político, comercial, agrícola e de livre-comércio].

Os editoriais com frequência iam além da denúncia de leis específicas que consideravam mal inspiradas. Eles também preparavam o cenário para grandiosas tomadas de posições teóricas, como em uma série de artigos que perguntava: “Quem é responsável pela condição da sociedade?”. Depois de ter avaliado cuidadosamente os respectivos papéis das classes mais baixas, dos capitalistas, dos proprietários de terras e do Estado, The Economist chegou à conclusão de que as primeiras e o último eram corresponsáveis pela situação, mas não em partes iguais. Em um mundo onde “todo homem tem de prestar contas de suas próprias ações diante da natureza” e aprender com isso, os pobres têm de culpar apenas a si mesmos por seus infortúnios, na medida em que desperdiçam seus salários e seu lazer entregando-se ao sexo, à bebida e ao jogo em vez de economizar dinheiro e trabalhar para melhorar. “Quando alguém vê seus hábitos, sua ignorância, sua deferência em relação a amigos falsos, sua confiança inabalável em uma longa sucessão de líderes que eram também charlatões, não podemos desculpá-los. A natureza os considera responsáveis por seu comportamento, e por que não faríamos o mesmo? Nós os vemos sofrer e os declaramos falíveis.”

No geral, os capitalistas e os proprietários de terras são egoístas, mas isso é uma coisa boa, porque, quanto mais alta a renda deles, maior a quantidade líquida de produtos para a alimentação da comunidade e maior a quantidade de empregos e o montante das remunerações das classes trabalhadoras. Quanto ao Estado, ele se mostra simplesmente incapaz de tomar a medida desse complexo organismo social. Ao tentar fazer que sejam adotadas leis cujos efeitos ninguém pode prever, ele realiza uma tarefa “feita mais para Deus do que para o homem”. A realidade é que “o desejo de felicidade ou do que se chama de interesse próprio é universal. Ele não está confinado ao homem; invade a totalidade do reino animal. É a lei da natureza, e, se a busca do interesse próprio – à qual todos são livres para se dedicar – não leva ao bem-estar de todos, nenhum sistema de governo conseguirá isso”.

Sem piedade

Em 1847, após a vitória eleitoral do Partido Whig (Liberal), Wilson entrou na Câmara dos Comuns. Ao mesmo tempo que mudou de status, ele abandonou o setor industrial – onde seu pai lhe dera uma ajuda – para se interessar pelo mundo das finanças, que, no contexto do Império Britânico, se beneficiava do livre-comércio muito mais que qualquer outro setor de atividade. Gradualmente, a Economist revisou sua visão anterior do laissez-faire: quando os interesses imperiais estavam em jogo, o recurso à guerra tornava-se repentinamente uma necessidade absoluta.

O sinal da Segunda Guerra do Ópio foi dado em outubro de 1856, quando a polícia chinesa prendeu em Cantão a tripulação chinesa do Arrow (uma variedade de junco), acusado de pirataria. O cônsul britânico afirmou falsamente que o barco portava a bandeira britânica, que estava registrado em Hong Kong como parte de um tratado assinado em 1843 após a Primeira Guerra do Ópio e que os chineses não tinham, portanto, o direito de interpelar qualquer pessoa que estivesse a bordo. Sir John Bowring, plenipotenciário, superintendente-chefe de comércio, governador, comandante-chefe e vice-almirante de Hong Kong, despachou uma frota para subjugar Cantão com bombas – o governador Ye Mingchen, porém, já havia libertado os cativos e aceitado as condições que lhe tinham sido apresentadas. No entanto, Mingchen se recusava a pedir desculpas, já que, segundo afirmara, o Arrow era chinês. Isso valeu a Cantão um fogo cerrado de três semanas, seguido de uma intervenção armada que durou quatro anos e terminou com o saque de Pequim. Assim, a China foi aberta à cultura ocidental e ao comércio com ela. França, Rússia e Estados Unidos se juntaram à paróquia, mas foi o interesse especial dos britânicos por um único produto que deu nome a essa guerra.

Para Londres, na época, as receitas desse comércio eram consideráveis. Elas serviam não apenas para manter ativo o aparato estatal em funcionamento na Índia – onde a maior parte do ópio era produzida –, mas também para transformar um déficit comercial com a Ásia (seda, chá, cerâmicas) em excedente global. A demanda dos chineses dependentes desse narcótico era muito forte, mas sua proibição, imposta pela dinastia Qing, limitava a oferta.

O pretexto da invasão e a suspeita generalizada segundo a qual ela se beneficiava do comércio da droga desencadearam uma tempestade de protestos quando a notícia do “incidente do Arrow” chegou a Londres, em 1857. Em 24 de fevereiro, o líder da oposição conservadora, Lord Derby, apresentou uma moção condenando a atitude britânica, qualificada como “exigências arrogantes de uma pretensa civilização”. Foi rejeitada por pouco pela Câmara Alta.

A Economist então entrou na briga: “O comércio é tão necessário para a sociedade quanto o ar, a alimentação, as roupas ou o calor”. Como resultado, as intervenções seriam comparáveis a operações humanitárias: “Podemos lamentar a guerra, mas não podemos negar os grandes benefícios que ela proporcionou. […] O mesmo acontece com qualquer guerra com a China que permita que seu povo participe mais plenamente das trocas comerciais com todas as outras nações… e os coloca ao abrigo da tentação de matar bebês, deixar os idosos morrer de fome e regular seu número exterminando-se mutuamente”.

A partir de 1857, a Economist foi tão obnubilada quanto o resto da imprensa por relatos de abusos vindos da Índia britânica, onde, em Meerut, o motim de soldados indianos – os sipaios – contra seus oficiais europeus se transformou em uma rebelião contra a Companhia Britânica das Índias Orientais (British East India Company).1 Na época, essa empresa, fundada sob o reinado de Elizabeth I e tornada quase privada, imperava sobre dois terços do subcontinente indiano em troca de uma anuidade de 630 mil libras paga a Londres e retirada das rendas geradas pelos territórios que ela controlava.

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Três exércitos distintos marchavam sob sua bandeira – um para cada uma das províncias que organizavam a Índia: Bengala, Bombaim e Madras –, com efetivos de 232 mil indianos e 45 mil europeus. A primeira das três províncias era a maior e mais homogênea. Desde meados do século XVII, seu Exército recrutou camponeses hindus de Bengala, Oudh, Bihar e de Benares.

Esses homens se amotinaram em número muito maior que em qualquer outro lugar – um fenômeno que os contemporâneos atribuem a um insulto religioso involuntário: em Meerut, soldados de infantaria teriam recebido cartuchos recobertos de gordura de carne bovina ou suína, sendo necessário morder para separá-los, algo a que se recusaram tanto os muçulmanos quanto os hindus. Mas, na realidade, suas queixas eram estruturais. No Exército, recebiam soldos muito baixos, enfrentavam condições de vida deploráveis e não tinham nenhuma possibilidade de progresso interno: o oficial indiano mais antigo devia obedecer ao oficial europeu mais novo. Na sociedade, a outrora florescente economia têxtil entrou em colapso sob o assalto dos tecidos manufaturados britânicos, estando sujeita ao modelo de empresa da Companhia das Índias Orientais, baseado na pesquisa predatória de novas fontes de receita e de novos territórios.

A Economist se mostrou tão impiedosa com os indianos quanto tinha sido com os chineses. Quando Londres ordenou que suas tropas, a caminho da China, fizessem um desvio por Calcutá, o jornal pediu que os amotinados fossem julgados rapidamente pela traição de que haviam dado provas ao atacar “indiscriminadamente hospitais, quartéis e mulheres e crianças indefesas”, o que ele imputou “ao caráter dos nativos… meio crianças, meio selvagens, dominados por impulsos repentinos e irracionais”, em vez de serem impulsionados por uma motivação ou um objetivo consistentes. Em meados de julho, a publicação achou que o pior provavelmente passara, já que a tomada de Déli pelos rebeldes não provocara uma insurreição generalizada. “Três quartos do Exército de Bengala e a totalidade dos de Madras e Bombaim, bem como o conjunto das populações não militares, do Cabo Comorin ao Himalaia, permaneceram afastados. Não é a prova de que, apesar de seus inúmeros erros, a autoridade britânica deve ser considerada mais uma bênção que uma maldição pelos nativos da Índia?”

Mesmo o “massacre bárbaro e traiçoeiro da guarnição de Cawnpore”, massacre de europeus a respeito do qual, ao contrário do Times, a Economist não publicou detalhes, pouco abalou sua confiança no futuro do império. De fato, o motim se transformou em suas páginas numa bênção disfarçada: “Nenhum evento menos horrível teria àquela altura fortalecido tanto nossa determinação”. Se os sipaios tivessem cometido apenas atos de crueldade comum, “o governo teria sido imediatamente atacado por um partido poderoso, assimilando essa revolta à das colônias americanas e recomendando à nossa nação que não se opusesse a um movimento patriótico. […] No entanto, todas essas dúvidas e medos não são mais apropriados. Todo inglês sabe que abandonar a Índia seria cometer um pecado muito maior contra os milhões de hindus que se ele tivesse visado nosso próprio país. […] Comparado aos horrores de uma anarquia militar, o reino de terror durante a Revolução Francesa era um modelo de justiça e clemência… Na Europa, vemos como as raças indianas são incapazes de refrear suas superstições e paixões; também como nenhum respeito pela lei, pela ordem cívica e pelas obrigações sociais necessárias para as formas mais elementares de autogoverno ainda não está inscrito em sua mente. […] Se o poder inglês se retirasse, isso seria o fim do comércio com a Índia”.

“Demonstração de força”

As forças britânicas retomaram a iniciativa no fim de 1858, com a ajuda ativa ou a concordância dos estados principescos do norte e do centro da Índia, e com o desvio de regimentos vindos da Crimeia, da Pérsia e da China. Depois de terem reconquistado ou suspendido o cerco de cidades como Déli, Cawnpore e Lucknow, as tropas imperiais empreenderam terríveis represálias contra populações inteiras, consideradas culpadas de ter ajudado os rebeldes. A Economist observou com satisfação a “demonstração de força produzida pelas execuções diárias de amotinados de todos os graus” – alguns eram amarrados à boca de um canhão e retalhados –, mas se perguntou se os jornalistas e oficiais que reivindicavam a cabeça de cada sipaio de um regimento rebelde, mesmo que ele não tivesse cometido nenhum ato de violência, haviam refletido cuidadosamente sobre as reações que poderiam ocorrer em seguida no país: “Pelo menos vale a pena”, ela antecipava, examinar “se a execução a sangue frio de 35 mil homens ou mais é uma medida para a qual o povo e o governo inglês estão preparados”.

Uma das razões pelas quais a Economist apoiava o novo modelo de governo da Índia apareceu claramente um mês após a proclamação da paz: o Times de 5 de agosto de 1859 anunciou que Wilson havia acabado de concordar em se tornar chanceler do tabuleiro de xadrez indiano, encarregado de pagar o custo do motim.

Alexander Zevin é autor de Liberalism at Large: The World According to The Economist [Liberalismo em grande escala: o mundo segundo a The Economist], Verso, 2019, de onde este texto foi extraído.

1 Ler William Dalrymple, “Il y a cent cinquante ans, la révolte des cipayes” [Há 150 anos, a revolta dos sipaios], Le Monde Diplomatique, ago. 2007.

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