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A costureira boliviana Nancy Salva caminha pela avenida Paulista. Interrompe o passo em frente a uma loja de grife. Um dos vestidos na vitrine lhe parece familiar. Logo se dá conta: foi ela mesma quem fabricou a peça. A surpresa é maior ao reparar na etiqueta. O preço de venda é R$ 400,00, cinquenta vezes mais do que ela recebeu pelo trabalho.Nancy vive em São Paulo (SP) há uma década com o filho Raí, que tem 17 anos. Aquele instante singelo, em uma das principais ruas da cidade, mudou para sempre seu olhar sobre o próprio trabalho. Às vésperas das eleições presidenciais em seu país de origem, que ocorrem no próximo 20 de outubro, a costureira de 43 anos é um retrato das transformações sociais que Brasil e Bolívia viveram nas últimas décadas.No último domingo (13/10), Nancy embarcou em um ônibus com destino à sua terra natal. A previsão de chegada é na terça-feira (15 /10), cinco dias antes das eleições gerais. Ela não pode votar em São Paulo porque estava na Bolívia quando terminou o prazo de regularização junto ao consulado.PassadoA família de Nancy vive em uma comunidade rural a noroeste da capital boliviana, La Paz. Antes de 2008, não havia água encanada nem energia elétrica, e o acesso a serviços básicos no interior era precário. Na área urbana, indígenas eram proibidos de ocupar determinados postos de trabalho, e a miséria saltava aos olhos em cada esquina.A costureira relata que foi às ruas com os vizinhos para protestar contra o então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada (2002-2003), que renunciou após 14 meses de mandato, em meio a intensas manifestações populares, e que ficou conhecido pela entrega de recursos naturais a países estrangeiros. Para os manifestantes, Evo Morales, um líder cocaleiro que ficou em segundo lugar na eleição presidencial de 2002, era a esperança de dias melhores. No pleito seguinte, em 2005, o político indígena se consagrou, enfim, presidente.Hoje, a comunidade dos familiares de Nancy tem água na torneira, as casas são iluminadas e a internet substituiu a rádio San Gabriel – com programação nos idiomas aimará e quéchua – como fonte prioritária de informação. O acesso à banda larga e ao Whatsapp fez com que a comunidade deixasse de apoiar Morales de maneira unânime.A Bolívia tem cerca de 11 milhões de habitantes e mais de 10 milhões de pontos de conexão fixa e móvel à internet, cenário que abre caminho para as disseminação das “fake news” e que torna esta campanha presidencial diferente das últimas três, em que Morales foi eleito.“Dois anos atrás, estive por três meses na Bolívia. Dois meses inteiros, passei nas áreas rurais e, nas reuniões que a gente teve, há muitas lideranças jovens pensando um pouco diferente: ‘Se ele [Morales] continuar no governo, vamos ter o futuro da Venezuela’”. Relata a costureira, que lembra de ter ouvir o mesmo discurso no Brasil durante as eleições presidenciais de 2018. Dos 6,9 milhões de eleitores esperados na Bolívia, quase 3 milhões são jovens de 18 a 25 anos. Nancy mudou de país por razões diversas. Além da violência doméstica e dos salários baixos na Bolívia, ela sonhava conhecer as paisagens que via pela televisão. “Eu também queria conhecer o Brasil porque assistia às novelas brasileiras que passavam na Bolívia, com a parte do Rio, que era muito bonita”.Depois de cursar o ensino médio técnico e se formar em estatística, ela trabalhou em uma agência de pesquisas socioeconômicas. Por nove meses, antes de emigrar, atuou em uma empresa de exportações para portos do Chile e do Peru – a Bolívia não tem acesso ao mar. Quando o irmão de uma amiga ventilou a possibilidade de trabalhar em uma oficina de costura no Brasil, ela sequer imaginou que se tratava de um trabalho manual – “oficina” significa “escritório” em espanhol.O primeiro susto veio logo após cruzar a fronteira, em Corumbá (MS). Todo o dinheiro que havia economizado na Bolívia, após a conversão, lhe resultou em R$ 10,00: “Nem comi no trajeto até aqui [São Paulo]. Não conseguia almoçar, porque não tinha dinheiro”.As transformações que os dois países viveram no plano econômico se refletem até hoje no câmbio. De 2005 a 2018, o Produto Interno Bruto (PIB) boliviano cresce acima dos 4%. Nesse período, o Brasil fortaleceu sua moeda, atingiu um patamar de crescimento do PIB de 7,5% em 2010, mas a recessão dos últimos três anos fez com que o dólar voltasse a um patamar superior a R$ 4,00.“Um real chegava a quase três bolivianos. Compensava trabalhar e enviar o montante à Bolívia. Até o dólar estava com um bom preço”, conta. “Quando a Dilma estava [na Presidência], um real custava 2,70 bolivianos. Depois entrou o Temer, e nesse governo baixou para dois bolivianos. Agora, um real custa 1,60 bolivianos”.A chegada em São Paulo também foi traumática. O responsável pela oficina conduziu Nancy do bairro da Barra Funda até o Bom Retiro, na zona oeste, e a apresentou a seu novo quarto: um banheiro inutilizado, com uma cama do lugar do vaso sanitário: “É aqui que você vai dormir”. Cruzando um corredor estreito, chegava-se ao local de trabalho – uma garagem reformada. “Quando eu cheguei lá, havia quatro pessoas solteiras e seis casais. Tinha crianças também… Foi difícil para mim”. Todos eram bolivianos.A jornada de trabalho de Nancy começava às 7h e terminava às 22h, com intervalos breves para as refeições, e ganhava R$ 300,00 por mês. No ano seguinte, ela terminou de pagar as dívidas ao empregador, referentes à passagem e à alimentação, e passou a ganhar por produção, assim conseguiu regularizar sua situação no Brasil.

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