Outras Palavras

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Esse texto é o primeiro capítulo do livro Por um Populismo de Esquerda, de Chantal Mouffe, publicado pela editora Autonomia Literária.

Gostaria
de deixar claro, desde o início, que o meu objetivo não é
acrescentar outra contribuição ao já pletórico campo dos “estudos
do populismo”, uma vez que não tenho a intenção de entrar no
debate acadêmico estéril sobre a “verdadeira natureza” do
populismo. Este livro é uma intervenção política e reconhece
abertamente a sua natureza partidária. Definirei o que entendo por
“populismo de esquerda” e argumentarei que, na conjuntura atual,
ele proporciona a estratégia adequada para recuperar e aprofundar os
ideais de igualdade e de soberania popular, que são constitutivos na
política democrática.

Como
cientista política, minha forma de teorizar orienta-se a partir de
Maquiavel, quem, como Althusser nos lembrou, situava-se sempre “na
conjuntura”, em vez de refletir “sobre a conjuntura”. Seguindo
o exemplo de Maquiavel, descreverei minha reflexão numa conjuntura
específica, procurando por aquilo que ele chamou de verità
effettuale della cosa

(verdade efetiva da coisa) do “momento populista” que hoje
testemunhamos nos países europeus ocidentais. Limito minha análise
à Europa Ocidental. Embora a questão do populismo seja, sem dúvida,
também relevante no leste europeu, é necessária uma análise
especial para esses países. Eles são marcados pela especificidade
de sua história sob o comunismo, e sua cultura política apresenta
diferentes características. Esse é também o caso das diversas
formas do populismo latino-americano. Enquanto há “semelhanças de
família” entre vários populismos, eles correspondem a conjunturas
específicas que precisam ser apreendidas de acordo com os seus
diversos contextos. Espero que minhas reflexões sobre a conjuntura
europeia ocidental forneçam algumas percepções úteis para abordar
outras situações populistas.

Mesmo
tendo um objetivo político, uma parte significativa das minhas
reflexões será de natureza teórica, porque a estratégia populista
de esquerda que defenderei está fundada numa abordagem teórica
antiessencialista, que defende que a sociedade está sempre dividida
e discursivamente construída por meio de práticas hegemônicas.
Muitas críticas dirigidas ao “populismo de esquerda” se baseiam
na falta de entendimento dessa abordagem e essa é a razão mais
importante para explicitarmos aqui. Farei referência aos princípios
centrais da perspectiva antiessencialista em muitos pontos do meu
argumento e darei esclarecimentos adicionais em um apêndice teórico
ao final do livro.

Para
desfazer possíveis confusões, iniciarei especificando o que entendo
por “populismo”. Descartando o sentido pejorativo do termo, que
tem sido imposto pela mídia para desqualificar todos aqueles que se
opõem ao status
quo
,
seguirei a abordagem analítica desenvolvida por Ernesto Laclau, a
qual permite abordar a questão do populismo de uma forma que
considero particularmente fecunda.

Em
seu livro, A
Razão Populista
,1
Laclau define o populismo como uma estratégia discursiva de
construção de uma fronteira política, dividindo a sociedade em
dois campos e apelando para a mobilização dos “excluídos”
contra “aqueles que estão no poder”.2
O populismo não é uma ideologia e a ele não pode ser atribuído um
conteúdo programático específico. Tampouco ele é um regime
político. Trata-se de um modo de fazer política que pode ter
diferentes formas ideológicas, de acordo com o tempo e o lugar,
compatível com diversas estruturas institucionais. Podemos falar de
um “momento populista” quando, sob a pressão de transformações
políticas ou socioeconômicas, a hegemonia dominante é
desestabilizada pela multiplicação de demandas insatisfeitas.
Nessas situações, as instituições existentes falham em garantir a
lealdade das pessoas, na tentativa de defender a ordem existente.
Como resultado, o bloco histórico que estabelece a base social de
uma formação hegemônica é desarticulado e surge a possibilidade
da construção de um novo sujeito de ação coletiva — o povo —
capaz de reconfigurar uma ordem social tida como injusta.

Essa
situação, sustento, é precisamente o que caracteriza a nossa
conjuntura atual e, por essa razão, é apropriado chamá-la de
“momento populista”. Esse momento populista indica a crise da
formação hegemônica neoliberal, a qual foi implementada
progressivamente na Europa Ocidental durante a década de 1980. Tal
formação hegemônica neoliberal substituiu o Estado de bem-estar
social keynesiano social-democrata que, em trinta anos após o final
da Segunda Guerra Mundial, forneceu o principal modelo socioeconômico
nos países democráticos da Europa Ocidental. O centro dessa nova
formação hegemônica é constituído por um conjunto de práticas
políticas e econômicas que visam impor a regra do mercado —
desregulamentação, privatização, austeridade fiscal — limitando
o papel do Estado à proteção dos direitos de propriedade privada,
livre mercado e livre comércio. Neoliberalismo é o termo atualmente
usado para se referir a essa nova formação hegemônica, a qual,
longe de estar limitada ao domínio econômico, também significa
toda uma concepção de sociedade e de indivíduo fundada em uma
filosofia de individualismo e posses.

Esse
modelo, implementado em vários países da década de 1980 em diante,
não enfrentou nenhum desafio significativo até a crise financeira
de 2008, quando começou seriamente a mostrar seus limites. A crise,
iniciada em 2007, nos Estados Unidos, com o colapso do mercado
hipotecário de alto risco (subprime),
evoluiu para uma completa crise bancária internacional, com a
falência do banco de investimentos Lehman Brothers no ano seguinte.
Massivos resgates de instituições financeiras tiveram de ser
implementados para impedir o colapso do sistema financeiro mundial. A
recessão econômica global que se seguiu afetou profundamente várias
economias europeias e provocou uma crise da dívida no continente.
Para lidar com essa crise, políticas de austeridade foram
implementadas em muitos países europeus, com drásticos efeitos,
particularmente nos países do sul.

Na
ocasião da crise econômica, uma série de contradições se
condensaram, levando ao que Gramsci chama de um interregnum:
um período de crise durante o qual uma série de premissas
consensuais estabelecidas em torno de um projeto hegemônico são
desafiadas. A solução para a crise ainda não está à vista, e
isso caracteriza o “momento populista” no qual nos encontramos
hoje. O “momento populista” é, portanto, a expressão de
diversas resistências às transformações políticas e econômicas
observadas durante os anos de hegemonia neoliberal. Essas
transformações têm levado a uma situação que poderíamos chamar
de “pós-democracia”, para indicar a perda de dois pilares do
ideal democrático: igualdade e soberania popular.

“Pós-democracia”,
termo proposto primeiramente por Colin Crouch, assinala o declínio
do papel dos parlamentos e a perda da soberania como consequência da
globalização neoliberal. De acordo com Crouch:

A causa fundamental do declínio democrático na política contemporânea é o desequilíbrio agora em desenvolvimento entre o papel dos interesses corporativos e aqueles de praticamente todos os outros grupos. Tomado em conjunto, com a inevitável entropia da democracia, tem levado a política a se tornar novamente um negócio de elites fechadas, como foi nos tempos pré-democráticos.3

Jacques
Rancière também usa o termo, o qual ele define da seguinte forma:

Pós-democracia é a prática de governo e a legitimação conceitual de uma democracia depois do demos, uma democracia que eliminou a aparência, o erro na conta e o litígio do povo, redutível assim ao jogo único dos mecanismos de Estado e das combinações das energias e dos interesses sociais.4

Mesmo
não discordando de nenhuma das definições, meu uso do termo é um
tanto diferente, porque, através da reflexão sobre a natureza da
democracia liberal, pretendo trazer à tona uma característica
diferente do neoliberalismo. Como é bem conhecido, etimologicamente
falando, “democracia” vem do grego demos/kratos,
que significa “o poder do povo”. Quando falamos de “democracia”
na Europa, referimo-nos, contudo, a um modelo específico: o modelo
Ocidental, que resulta da inscrição do princípio democrático em
um contexto histórico particular. Esse modelo recebeu vários nomes:
democracia representativa, democracia constitucional, democracia
liberal, democracia pluralista.

Em
todos os casos, o que está em questão é um regime político
caracterizado pela articulação de duas tradições diferentes. De
um lado, a tradição do liberalismo político: o Estado de direito,
a separação dos poderes e a defesa da liberdade individual; de
outro lado, a tradição democrática, cujas ideias centrais são a
igualdade e a soberania popular. Não há uma relação necessária
entre essas duas tradições, mas apenas uma articulação histórica
contingente que, como C. B. Macpherson mostrou, teve lugar através
de lutas comuns dos liberais e dos democratas contra regimes
absolutistas.5

Alguns
autores, como Carl Schmitt, afirmam que essa articulação produziu
um regime inviável, porque o liberalismo nega a democracia e a
democracia nega o liberalismo. Outros, seguindo Jürgen Habermas,
mantêm a “co-originalidade” dos princípios da liberdade e da
igualdade. Schmitt tem toda a razão em apontar a existência de um
conflito entre a “gramática” liberal, que postula a
universalidade e a referência à “humanidade”, e a “gramática”
da igualdade democrática, que requer a construção de um povo e uma
fronteira entre um “nós” e um “eles”. Porém, acredito que
ele esteja enganado em apresentar esse conflito como uma contradição
que leva inevitavelmente uma democracia liberal plural à
autodestruição.

Em
O
Paradoxo Democrático

(The
Democratic Paradox
),
concebi
a articulação dessas duas tradições — de fato, em última
instância, irreconciliáveis —, sobre o modo de uma configuração
paradoxal, como o locus
de uma tensão
que define a originalidade da democracia liberal como uma politeia,
uma forma de comunidade política que garante o seu caráter plural.
A lógica democrática da construção de um povo e da defesa de
práticas igualitárias é necessária para definir um demos
e para subverter a tendência do discurso liberal de um universalismo
abstrato. Contudo, a sua articulação com a lógica liberal nos
permite desafiar as formas de exclusão que são inerentes às
práticas políticas de determinação das pessoas que governarão.

A
política democrática liberal consiste num processo de negociação
constante, através de diferentes configurações hegemônicas nessa
tensão constitutiva. Esta tensão, expressa em termos políticos ao
longo da fronteira entre direita e esquerda, pode ser estabilizada
apenas temporariamente, por meio de negociações pragmáticas entre
forças políticas, e essas negociações sempre estabelecem a
hegemonia de uma delas sobre a outra. Revisitando a história da
democracia liberal, descobrimos que, em algumas ocasiões, a lógica
liberal prevaleceu, enquanto que, em outras, foi a democrática. No
entanto, as duas lógicas permaneceram em vigor e a possibilidade de
uma negociação “agonística” entre direita e esquerda, que é
específica do regime democrático-liberal, sempre se manteve viva.

As
considerações anteriores preocupam-se apenas com a democracia
liberal, considerada como um regime político, mas é evidente que
aquelas instituições políticas nunca existem independentemente de
suas inscrições em um sistema econômico. No caso do
neoliberalismo, por exemplo, estamos lidando com uma formação
social que articula uma forma específica de democracia liberal com o
capitalismo financeiro. Embora seja necessário levar essa
articulação em consideração quando se estuda uma formação
social específica, é possível, no nível analítico, examinar a
evolução do regime democrático-liberal como uma forma política de
sociedade, trazendo à tona algumas de suas características.

A
situação atual pode ser descrita como “pós-democracia”,
porque, nos últimos anos, como consequência da hegemonia
neoliberal, a tensão “agonística” entre os princípios liberais
e os democráticos, a qual é constitutiva da democracia liberal, foi
eliminada. Com o fim dos valores democráticos de igualdade e
soberania popular, os espaços “agonísticos”, onde diferentes
projetos de sociedade poderiam se confrontar entre si, desapareceram,
e os cidadãos são privados da possibilidade de exercer seus
direitos democráticos. Com certeza, a “democracia” é ainda
mencionada, mas ela foi reduzida ao seu componente liberal e
significa apenas a existência de eleições livres e a defesa dos
direitos humanos. O que se tornou cada vez mais central foi o
liberalismo econômico com a sua defesa do livre mercado e muitos
aspectos do liberalismo político foram relegados ao segundo plano ou
simplesmente eliminados. Isso é o que eu entendo por
“pós-democracia”.

Na
arena política, a evolução para a pós-democracia se manifestou
através do que propus em Sobre
o Político

chamar de “pós-política”, a qual borra a fronteira política
entre direita e esquerda.6
Sob o pretexto da “modernização”, imposto pela globalização,
partidos social-democratas aceitaram os ditames
do capitalismo financeiro e os limites que eles impuseram às
intervenções do Estado e às suas políticas redistributivas.

Como
resultado, o papel dos parlamentos e das instituições que
possibilitam aos cidadãos influenciar as decisões políticas foi
drasticamente reduzido. As eleições já não oferecem mais qualquer
oportunidade para decidir sobre alternativas reais, através dos
tradicionais “partidos de governo”. A única coisa que a
pós-política permite é a alternância bipartidária de poder entre
partidos de centro-direita e centro-esquerda. Todos aqueles que se
opõem ao “consenso de centro” e ao dogma de que não existe
alternativa à globalização neoliberal são apresentados como
“extremistas” ou desqualificados como “populistas”.

Portanto,
a política se tornou mera questão de gestão da ordem estabelecida,
um domínio reservado aos especialistas e a soberania popular foi
declarada obsoleta. Um dos pilares simbólicos fundamentais do ideal
democrático — o poder do povo — foi minado, porque a
pós-política elimina a possibilidade da luta agonística entre
diferentes projetos de sociedade, que é a própria condição para o
exercício da soberania popular.

Ao
lado da pós-política, há outro desenvolvimento que precisa ser
levado em consideração para o entendimento das causas da condição
pós-democrática: o crescimento da “oligarquização” das
sociedades europeias ocidentais. Mudanças no plano político tiveram
vez no contexto de um novo modo de regulação do capitalismo, em que
o capital financeiro ocupa um lugar central. Com a financeirização
da economia, houve uma grande expansão do setor financeiro em
detrimento da economia produtiva. Isso explica o crescimento
exponencial das desigualdades que testemunhamos nos últimos anos.

As
privatizações e as políticas de desregulamentação contribuíram
para a deterioração drástica das condições dos trabalhadores.
Sob os efeitos combinados da desindustrialização, da promoção de
mudanças tecnológicas e dos processos de transferência de
indústrias para países onde o trabalho era mais barato, muitos
empregos foram perdidos.

Com
os efeitos das políticas de austeridade impostos após a crise de
2008, essa situação afetou também grande parte da classe média,
que entrou em um processo de pauperização e precarização. Como
resultado desse processo de oligarquização, o outro pilar do ideal
democrático — a defesa da igualdade — foi também eliminado do
discurso democrático-liberal. O que agora domina é uma visão
individualista liberal que celebra a sociedade do consumo e a
liberdade que os mercados oferecem.

[...]

É
no contexto pós-democrático da erosão dos ideais democráticos da
soberania popular e da igualdade que o “momento populista” deve
ser apreendido. Ele é caracterizado pela emergência de múltiplas
resistências contra um sistema político-econômico que é cada vez
mais percebido como sendo controlado por elites privilegiadas surdas
às demandas de outros grupos da sociedade. No início, a maior parte
da resistência política ao consenso pós-democrático vinha da
direita. Nos anos 1990, partidos populistas de direita, como o FPÖ,
na Áustria, e a Frente Nacional, na França, começaram a se
apresentar com o objetivo de devolver ao “povo” a voz que lhe
tinha sido privada pelas elites. Recorrendo à fronteira entre o
“povo” e o “sistema político”, eles foram capazes de
traduzir, em um vocabulário nacionalista, as demandas dos setores
populares que se sentiam excluídos do consenso dominante.

Foi
assim, por exemplo, que Jörg Haider transformou o Partido da
Liberdade da Áustria em um partido de protesto contra a “grande
coalizão”. Mobilizando temas da soberania popular, ele conseguiu
articular a crescente resistência à forma como o país era
governado por uma coalizão de elites que impedia o verdadeiro debate
democrático.7

O
panorama político, que já tinha dado sinais de radicalização de
esquerda com diversos movimentos antiglobalização, mudou
significativamente em 2011. Quando as políticas de austeridade
começaram a afetar as condições de vida de amplos setores da
população, importantes protestos populares ocorreram em muitos
países europeus e o consenso pós-político começou a se desfazer.
Na Grécia, o Aganakitsmenoi,
e, na Espanha, os Indignados do M15 ocuparam as praças centrais
exigindo “Democracia Agora!”. Eles foram seguidos pelo movimento
Occupy,
que nasceu nos Estados Unidos, e que teve manifestações em diversas
cidades da Europa, particularmente em Londres e em Frankfurt. Mais
recentemente, o Nuit
Debout,
na França, em 2016, foi a expressão dessas formas de protestos
referidas como os “movimentos das praças”.

Esses
protestos foram o sinal de um despertar político após anos de
relativa apatia. Contudo, a recusa desses movimentos horizontais de
se envolver com instituições políticas limitou o seu impacto, e,
sem uma forma de articulação com a política institucional, logo
começaram a perder o seu dinamismo. Embora tais movimentos de
protesto tenham certamente desempenhado um papel na transformação
da consciência política, foi apenas quando eles foram acompanhados
por movimentos políticos estruturados, prontos para se envolverem
com instituições políticas, que conseguiram alcançar resultados
importantes.

É
na Grécia e na Espanha que assistimos aos primeiros movimentos
políticos que implementam uma forma de populismo voltada ao
restabelecimento e ao aprofundamento da democracia. Na Grécia, o
Syriza — uma frente social unificada nascida da coalizão entre
diferentes movimentos de esquerda em torno do Synaspismos,
o antigo Partido Eurocomunista — sinalizou a emergência de um novo
tipo de partido radical, cujo objetivo foi desafiar a hegemonia
neoliberal por meio da política parlamentar. Estabelecendo uma
sinergia entre movimentos sociais e partidos políticos, o Syriza foi
capaz de articular, de uma vontade coletiva, uma variedade de
demandas democráticas, e isso permitiu-lhe chegar ao poder em
janeiro de 2015.

Infelizmente,
o Syriza não foi capaz de implementar o seu programa
antiausteridade, em função de uma resposta brutal da União
Europeia, que reagiu com um “golpe financeiro” e forçou o
partido a aceitar os ditames
da Troika.
Tal fato não invalida a estratégia populista que levou o partido ao
poder, mas certamente levanta importantes questões pertinentes às
limitações que a adesão à União Europeia impõe acerca da
possibilidade de levar a cabo políticas que desafiam o
neoliberalismo.

Na
Espanha, em 2014, a ascensão meteórica do Podemos deveu-se à
capacidade de um grupo de jovens intelectuais de aproveitar o terreno
criado pelos Indignados. Isso levou à criação de um movimento
partidário, visando romper o impasse da política consensual
estabelecida através da transição para a democracia, cuja exaustão
tornou-se evidente. A estratégia do Podemos de criar uma vontade
coletiva popular, construindo uma fronteira entre as elites (la
casta”)
e o “povo”, ainda não conseguiu desalojar o direitista Partido
Popular do governo, mas membros do Podemos conseguiram entrar no
Parlamento, onde depuseram um importante grupo de deputados. Desde
então, eles representaram uma força importante na política
espanhola e transformaram profundamente o cenário político na
Espanha.

Desenvolvimentos
semelhantes ocorreram em outros países: na Alemanha, com o Die
Linke,
em Portugal, com o Bloco de Esquerda, e na França, com La
France Insoumise
,
de Jean-Luc Mélenchon, o qual, em junho de 2017, um ano após a sua
criação, elegeu dezessete deputados no Parlamento e agora
representa a principal oposição ao governo de Emmanuel Macron.
Finalmente, o inesperado bom resultado do Partido Trabalhista
britânico, sob a liderança de Jeremy Corbyn, também em junho de
2017, é outro sinal de uma nova forma de radicalismo emergindo em
diversos países europeus.

Os
partidos social-democratas, que, em muitos países, desempenharam um
papel importante na implementação de políticas neoliberais, são
incapazes de compreender a natureza do momento populista e de
enfrentar o desafio que ele representa. Prisioneiros de seus dogmas
pós-políticos e relutantes em admitir os seus erros, eles não
conseguem reconhecer que muitas das demandas articuladas pelos
partidos populistas de direita são democráticas e uma resposta
progressista deve ser dada a elas. Muitas dessas demandas vêm de
grupos que são os principais prejudicados pela globalização
neoliberal e que não podem ser satisfeitos dentro do projeto
neoliberal.

Classificar
os partidos populistas de direita como de “extrema-direita” ou
“neofascistas” e atribuir o seu apelo à falta de educação é
especialmente conveniente para as forças de centro-esquerda. É uma
forma fácil de desqualificá-los sem reconhecer a própria
responsabilidade da centro-esquerda na sua emergência. Estabelecendo
uma fronteira “moral” que exclui os “extremistas” do debate
democrático, os “bons democratas” acreditam que eles podem
impedir a ascensão das paixões “irracionais”. Tal estratégia
de demonização dos “inimigos” do consenso bipartidário pode
ser moralmente confortável, mas é politicamente frágil.

Para
impedir a ascensão dos partidos políticos de direita, é necessário
conceber adequadamente uma resposta política através de um
movimento político de esquerda que aliará todas as lutas
democráticas contra a pós-democracia. Em lugar de excluir a
priori
os
eleitores dos partidos políticos de direita, como necessariamente
movidos por paixões atávicas, condenando-os por manterem-se
eternamente prisioneiros dessas paixões, é necessário reconhecer o
núcleo democrático na origem de muitas dessas demandas.

Uma
abordagem populista de esquerda deve tentar oferecer um vocabulário
diferente, a fim de orientar essas demandas em direção a objetivos
mais igualitários. Isso não significa tolerar a política dos
partidos populistas de direita, mas recusar imputar aos seus
eleitores a responsabilidade pela forma como suas demandas são
articuladas. Não nego que há pessoas que se sentem perfeitamente à
vontade com esses valores reacionários, mas estou convencida de que
há outras que são atraídas por esses partidos porque sentem que
eles são os únicos a se preocupam com os seus problemas. Acredito
que, se uma linguagem diferente estiver disponível, muitas pessoas
podem lidar com seus problemas de uma forma diferente e participar da
luta progressista.


há diversos exemplos de que tal estratégia pode funcionar. Por
exemplo, nas eleições legislativas de 2017, na França, Jean-Luc
Mélenchon e outros candidatos de La
France Insoumise
,
tais como François Ruffin, receberam o apoio de eleitores que,
anteriormente, tinham votado em Marine Le Pen. Argumentando com as
pessoas que, sob a influência da Frente Nacional, foram levadas a
ver os imigrantes como responsáveis por sua privação, ativistas
conseguiram fazer com que esses eleitores alterassem seus pontos de
vista. Seu sentimento de terem sido deixados para trás e seu desejo
por reconhecimento democrático, anteriormente expresso numa
linguagem xenófoba, pôde ser formulado por um vocabulário
diferente e dirigido para outro adversário. Algo similar ocorreu na
Grã-Bretanha, nas eleições de junho de 2017, quando 16% dos
eleitores do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), partido
populista de direita, votaram em Jeremy Corbyn.

Agora
que o discurso antissistema também vem do lado progressista e que as
forças políticas de esquerda estão traçando uma fronteira entre o
“povo” e a “oligarquia”, estamos realmente no centro de um
“momento populista”. O que está em jogo, neste momento,
portanto, é como a resistência à pós-democracia será articulada
e como “o povo” será construído. Há muitas formas de fazer
isso. Nem todas as construções da fronteira política populista têm
objetivos igualitários, mesmo quando a rejeição ao sistema
existente é feita em nome da devolução do poder ao povo.

Ambos
os tipos de populismo visam a aliar demandas de insatisfação, mas
eles o fazem de maneiras muito diferentes. A diferença reside na
composição de um “nós” e como o adversário, o “eles”, é
definido.

O
populismo de direita alega que trará de volta a soberania popular e
que restaurará a democracia, mas essa soberania é entendida como
“soberania nacional” e reservada àqueles considerados os
verdadeiros “nacionais”. Os populistas de direita não tratam da
demanda por igualdade e constroem um “povo” que exclui numerosas
categorias, normalmente imigrantes, vistos como uma ameaça à
identidade e à prosperidade da nação. Vale a pena assinalar que,
embora o populismo de direita articule muitas resistências contra a
pós-democracia, ele não necessariamente apresenta o adversário do
povo como constituído pelas forças do neoliberalismo. Seria,
portanto, um equívoco identificar a sua oposição à pós-democracia
como uma rejeição ao neoliberalismo. Sua vitória poderia levar a
formas nacionalistas autoritárias de neoliberalismo que, com o
intuito de recuperar a democracia, na verdade, a restringiria
drasticamente.

O
populismo de esquerda, ao contrário, procura recuperar a democracia
para aprofundá-la e ampliá-la. Uma estratégia populista de
esquerda visa aliar as demandas democráticas em uma vontade coletiva
para construir um “nós”, um “povo”, confrontando um
adversário comum: a oligarquia. Isso requer o estabelecimento de uma
cadeia de equivalência entre as demandas dos trabalhadores, dos
imigrantes e da classe média precarizada, assim como outras demandas
democráticas, tais como as da comunidade LGBT. O objetivo dessa
cadeia é a criação de uma nova hegemonia que permitirá a
radicalização da democracia.

1
N do T: LACLAU, Ernesto. A
Razão Populista
.
Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Três
Estrelas, 2013.

2
LACLAU, Ernesto. On
Populist Reason
.
Nova York e Londres: Verso, 2005.

3
CROUCH, Colin. Post-Democracy.
Cambridge: Polity, 2004, p. 104.

4
RANCIÈRE, Jacques. Disagreement:
Politics and Philosophy
.
Tradução de Julie Rose, Minneapolis: University of Minnesota
Press, 1999, p. 102.

5
MACPHERSON, C. B. The
Life and Times of Liberal Democracy
.
Oxford: Oxford University Press, 1977.

6
MOUFFE, Chantal. On
the Political
.
Abingdon: Routledge, 2005.

7Em
“The ‘End of Politics’ and the Challenge of Right-Wing
Populism”, analisei o crescimento do Partido da Liberdade da
Áustria sob Jörg Haider. Veja em: Francisco Panizza (Ed.),
Populism
and the Mirror of Democracy

(Nova York e Londres: Verso, 2005), pp. 50-71.

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