Outras Palavras

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A sabedoria popular
costuma nos oferecer frases de senso comum, mas que podem nos propiciar
lampejos de elementos importantes para compreender os fenômenos políticos,
sociais e econômicos. “A vida é dura!”. “Não se faz o omelete sem quebrar os
ovos!”. “Nada como um dia após o outro!”. “É grande a distância entre intenção
e gesto!”. “Bem-vindo à realidade!”. “Não dá pra fazer de outro jeito!”.

Pois lá já se vão 10
meses do governo do capitão. Um candidato que não aparecia como um dos
possíveis ganhadores nem mesmo no início do ano passado. Um deputado federal
que passou sete mandatos ininterruptos, passeando pelos corredores da Câmara
dos Deputados entre 1991 e 2018, sem nenhuma atuação parlamentar de expressão.
Bolsonaro era conhecido apenas por seu discurso extremista para os saudosistas
da ditadura e para os que achavam que a pena de morte seria a solução mais
adequada para todos os problemas da violência em nosso País.

Mas eis que a conjuntura
política e eleitoral de 2018 lhe oferece a oportunidade de se apresentar como
um candidato em condições de superar os traços nas pesquisas de opinião. Assim,
o defensor da tortura e inimigo declarado das políticas de direitos humanos
torna-se um presidenciável com musculatura própria, superando inclusive os
percentuais de aceitação dos candidatos mais tradicionais da direita
tupiniquim. Um parlamentar do baixo clero, tosco no modo de se relacionar com
as pessoas e sem experiência alguma no comando do poder executivo começa a
flertar com franjas das elites do mundo empresarial e do financismo.

A aproximação com Paulo
Guedes foi um passo essencial para facilitar a aceitação de sua candidatura por
aqueles que detêm o poder de fato. Grandes conglomerados do sistema financeiro
e dos meios de comunicação embarcaram na canoa furada. Esse processo se
reforçou quando o candidato conferiu autonomia total ao ex-Chicago boy na
formatação do programa econômico e ainda concentrou nele os poderes de um
verdadeiro superministro. Ocorre que as ideias ultraliberais desse agente muito
conhecido do mercado financeiro não entregaram aquilo que era esperado pela
maior parte dos que se aventuraram nessa candidatura de forma absolutamente
irresponsável.

Liberalismo
exacerbado de Guedes

A economia não conseguiu
retomar um mínimo aceitável de crescimento, o desemprego continua em níveis
astronômicos, o ritmo de falência das empresas segue galopante e o governo só
faz cortes e mais cortes de despesas no orçamento, em especial nas áreas do
social e de investimentos. Para piorar o quadro, Bolsonaro optou por reduzir ao
máximo as alternativas de buscar a retomada do PIB pelo lado do aumento das
exportações. Afinal, essa sempre é a saída “mágica” dos austericidas – visar
naquilo que o jargão do economês chama de “demanda externa”, uma vez que a
possibilidade pela via do consumo interno está esmagada pelo arrocho. O
alinhamento automático com a agenda quase pessoal de Trump e o afastamento dos
parceiros tradicionais do bloco sul-americano travestiram-se de uma opção
ideologizada ao extremo, com as consequências esperadas de fechar as portas das
exportações brasileiras para mercados importantes no plano global.

Ocorre que as cobranças podem
demorar, mas via de regra não costumam falhar. Os índices de popularidade do
governo seguem despencando ladeira abaixo e a base social e política começa a
demonstrar sinais de inquietação. Não por acaso, o grupo parlamentar no
Congresso Nacional e o próprio partido ligado à família do presidente começam a
apresentar fissuras. O olhar sobre o cenário das eleições municipais do ano que
vem leva à busca de novos arranjos partidários e o governo é pressionado a
exibir resultados concretos a curto prazo. O problema é que isso significaria
exigir de Paulo Guedes uma flexibilização no rigor da austeridade do
corta-corta a todo custo.

Diante de tais
dificuldades, tudo indica que o capitão está buscando exercer um pouco de
comando sobre o leme descontrolado da economia. A viagem internacional dos
últimos dias é um bom exemplo dessa possível mudança de rota. Aquele país que
fora demonizado durante toda a campanha eleitoral, e mesmo ao longo dos
primeiros meses de governo, agora recebe tratamento diferenciado. Até
anteontem, a China era acusada de todos os males pelos bolsominions e os
governos anteriores foram responsabilizados pela “desgraça de entregar a nossa
economia aos comunistas”. Em março do ano passado, Bolsonaro chegou mesmo a
realizar um périplo pelo Oriente e foi até Taiwan, em uma clara provocação ao
governo de Pequim.

[...]

De
traição em traição

Por aqueles tempos não
tão distantes assim, sua frase de efeito mais famosa para justificar a
estigmatização do principal parceiro comercial do Brasil era que “a China
não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil”. No entanto, nada
como uma crise política combinada com a continuidade da recessão para jogar
umas pitadas de realismo pragmático nesse caldeirão do radicalismo programático
bolsonarista. Pois agora, o presidente é só elogios para o regime chinês depois
dessa nova viagem à Ásia. Para desespero dos agrupamentos mais autênticos
nessas loucuras da extrema direita, Bolsonaro firmou negócios, estreitou
relações diplomáticas e comerciais e ofereceu mundos e fundos aos chineses em
troca de promessas de investimentos do trilionário fundo de aplicações
estrangeiras do país comunista. Quem te viu, quem te vê.

Em outro front da
diplomacia, o pai do ex-futuro ocupante da embaixada brasileira em Washington,
mandou um outro tremendo “esqueçam o que falei”. Depois de ter anunciado a meio
mundo que seu governo iria reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, o
capitão começou a sentir as dificuldades de governar apenas para o pequeno
círculo dos influenciados por seu guru, Olavo Carvalho. O jogo real da
diplomacia revelou-se a Bolsonaro um pouco mais complexo do que as singelas
jogadas irresponsáveis em um tabuleiro de War. Os setores exportadores
brasileiros começaram a perceber as quedas em suas encomendas oriundas da parte
dos países árabes. Bingo – nenhuma surpresa para quem conhece um mínimo de
relações econômicas internacionais.

E aqui Bolsonaro deu
outro cavalo de pau em suas promessas de campanha. Talvez desapontado por ter
sido largado falando sozinho pela diplomacia de Trump em sua pretensão de
ocupar uma vaga na OCDE, o presidente brasileiro se aproximou de um grupo de
nações nada amigas de Israel e que são importantes compradoras de nossas
“commodities”, em particular de nossa produção de carnes. As consequências de
tal traição em termos da política interna e do jogo de forças em sua base
aliada não deverão tardar muito a aparecer no debate acirrado entre os
“autênticos” e os “vendidos”.

Mas talvez uma das
mudanças mais marcantes do Presidente, que ainda nem completou um ano de
mandato, seja no quesito da sua forma de se relacionar com o parlamento e com
as instituições políticas de forma geral. Depois de martelar durante muito
tempo na tecla da necessidade de uma “nova forma de fazer política”, Bolsonaro
acaba tendo de recorrer ao velho e conhecido modo de conquistar maioria no
Congresso Nacional e de buscar apoio para seu projeto de governo.

Uma das razões que o
levaram ao segundo turno no pleito de 2018, chegando à frente de candidatos
como Meirelles e Alckmin no campo conservador, foi justamente o bombardeio
exercido contra a forma clientelista e fisiológica de se relacionar
politicamente. Apesar de ter conseguido eleger uma bancada expressiva do PSL na
Câmara dos Deputados, a realidade da dinâmica político-partidária logo se
impôs. Para conseguir governar, Bolsonaro cada vez mais vai se inspirando nos
modelos que tanto combateu da “velha forma de fazer política”.

Ao que tudo indica, não
bastaram os escândalos de Queiroz, as denúncias contra os esquemas milicianos
envolvendo seus filhos, as comprovações de tramoias com uso de recurso público
para a família e as suspeitas da prática generalizada das chamadas
“rachadinhas”. A partir de um certo momento, Bolsonaro começa a romper com seus
princípios de purismo ideológico e se aproxima de setores bastante conhecidos
do fisiologismo. Como é dada como certa alguma recomposição ministerial para o
horizonte próximo, essa operação deve confirmar, mais uma vez, a prática do
estelionato eleitoral.

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