Outras Palavras

Clique para compartilhar o link do texto original

Leia também:
Aconteceu em Santiago
O que a explosão popular nas ruas do Chile pode dizer sobre as pernas curtas da “nova” direita, a crise do capitalismo e insuficiência de uma esquerda que parece incapaz de renovar seu projeto

Por Antonio Martins, com informações de Gunther
Alexander
, do 4V, em Santiago

O divórcio entre o capitalismo e a liberdade, tratado em
inúmeros ensaios pelas ciências sociais, nos últimos dez anos, ganhou a
concretude das balas, no Chile, nesta segunda-feira (21/10). Diante de uma
população sublevada desde a sexta anterior, as tropas e tanques continuam nas
ruas. Já havia onze mortos até o domingo. Mas a violência dos militares
intensificou-se desde que, no domingo, o presidente Sebastián Piñera fez nova
reviravolta. Ele, que no sábado havia revogado o aumento das tarifas de
metrô, estopim dos protestos, e reconhecido as razões da população para se
indignar, recrudesceu e anunciou
“guerra”
contra os manifestantes.

O toque de recolher permanece, com requintes de terror
psicológico. Não há um horário fixo em que a população é proibida de sair de
suas casas: é o exército, por meio de seu chefe, o general Javier Iturriaga,
quem anuncia o período de restrição. Neste ambiente de incentivo ao conflito, é
natural que a violentas forças da ordem tenham se multiplicado. Há centenas de
relatos, que circulam boca-a-boca ou pelas redes sociais. O número de presos,
incerto, está na casa das centenas.

Porém surgiu outro fato surpreendente e inspirador (em
especial, para o Brasil). Nas ruas, a população não recuou. Ontem, na Praça
Itália, em Santiago, centenas de milhares de manifestantes voltaram a se reunir
e desafiar o Estado de Emergência. A foto estampada na manchete de Outras
Palavras
ontem é emblemática: tanques de guerra tentam avançar sobre a
multidão – mas esta não recua e os soldados hesitam. Mais: eclodiu uma greve
geral, impulsionada por paralisação no setor dos transportes.

[...]

Surgiu uma questão: como dar à revolta consequência política?
O fato de a população permanecer rebelada nas ruas, após a revogação do aumento
das passagens, revela que a insatisfação vai muito além da tarifa. Mas de que
maneira concretizar os grandes anseios das maiorias chilenas: serviços públicos
de qualidade (em especial Saúde e Educação), aposentadorias dignas numa nova
Previdência pública e, em especial, uma democracia real, um sistema político não
corrompido pelo poder econômico e pelos privilégios?

Em Santiago, surgiu um esboço de saída. Nesta segunda,
articulou-se uma coalizão de movimentos sociais e atores políticos em
favor de uma Assembleia Constituinte. Reúne líderes das mobilizações como a que
exige nova Previdência, setores do sindicalismo – em especial na área da
Educação – e participantes do partido-movimento Frente Ampla. Apresenta um
conjunto de reivindicações ligadas ao fim das políticas neoliberais e
desmercantilização da vida: redução da jornada de trabalho; reajuste das
aposentadorias; reforma do sistema previdenciário; fim dos privilégios
tributários aos ricos; restauração da Saúde pública; desprivatização do
abastecimento de água. Acrescenta algo pouco comum nas agendas de esquerda:
redução dos salários e privilégios dos parlamentares. E converge para a
necessidade de reformar a Constituição. Ao contrário de outros países
sulamericanos, o Chile não reescreveu sua Constituição após o fim do período
das ditaduras militares. Não seria o momento de fazê-lo, agora quando cresce em
todo o mundo a crítica ao declínio da democracia e o desejo de reinventá-la?

No fim da noite, a resistência popular forçou o presidente
Piñera a um novo ziguezague. Menos de 24 horas depois de prometer “guerra”
contra os protestos ele prometeu que buscaria um “acordo social” para
“responder a suas demandas”. Discurso vazio, certamente – mas revela como a
luta social pode colocar em apuros os governantes da atual safra de direita.

Na manhã desta terça-feira no Brasil, Jair Bolsonaro sugeriu
que, no Chile, o general Pinochet seria uma saída melhor… Se você não
entendeu, não perde por esperar,
diz uma canção de Geraldo Vandré. Para
azar do ex-capitão, o ditador chileno está morto, é execrado pela grande
maioria dos seus compatriotas e não poderá socorrer nem a Piñera nem a si
mesmo, Bolsonaro, quando as maiorias se derem conta, também no Brasil, o
verdadeiro caráter de seu regime.

The post Chile: as ruas contra os tanques appeared first on Outras Palavras.

Leia o texto completo em Outras Palavras