Outras Palavras

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Artistas da vanguarda soviética: Meyerhold (ator e teórico do teatro), Maiakóvski (poeta “multimídia”) e Malévitch (artista plástico)

Por Iná Camargo Costa | Imagem: A. Sverdlov

Essa é a terceira e última parte de uma série que Outras Palavras publica sobre a utilização do termo “marxismo cultural” na História. O primeiro texto pode lido aqui:

Marxismo cultural, um fantasma que ronda a História
Bolsonaro e seu séquito tomaram-no como o grande mal a ser combatido. Não é novidade: em Mein Kampf, Hitler já o utilizava para justificar fechamento de jornais e perseguição a intelectuais e artistas. Mas o que é mesmo este espectro?

O Marxismo Cultural e a paranoia americana
Décadas de medo: para a direita dos EUA, os sindicatos e artista e, mais tarde, feministas, LGBTs, negros e ambientalistas, são parte da Conspiração de Marx para destruir a família cristã. Discurso de Bolsonaro é um requentado desta época

III

No 18 Brumário, Marx
faz uma observação muito pertinente para a situação em que nos encontramos: “As revoluções proletárias […] se
autocriticam constantemente, interrompem continuamente seu curso, voltam ao que
parecia resolvido para recomeçarem de novo; escarnecem com impiedoso rigor as
meias medidas, fraquezas e misérias dos seus primeiros esforços; parecem
derrubar seu adversário só para que este arranque da terra novas forças e
diante delas se erga novamente, ainda mais gigantesco; recuam constantemente
ante a magnitude infinita de seus próprios objetivos, até se criar uma situação
que torna impossível qualquer retrocesso”[1].

Períodos como o que estamos atravessando, de ascensão do
fascismo, nos colocam diante da necessidade de recomeçar tudo de novo. Aqui nos
limitaremos ao trabalho da memória na frente cultural com o próprio marxismo
como elemento central para nos dar régua e compasso.

Lembremo-nos, por exemplo, de que a tradição socialista e
comunista é rica em confrontos, divergências e polêmicas infindáveis. Deles é
que o marxismo tira a sua força e capacidade de avançar. Para uma pequena
amostra desta ampla matéria, basta remeter a clássicos como o Manifesto comunista e Do socialismo utópico ao científico,
este último da lavra de Engels. Nestas duas obras nos defrontamos com o
socialismo reacionário dos aristocratas que sonham com a volta ao feudalismo, o
socialismo conservador da burguesia, além do socialismo e do comunismo
crítico-utópicos. Socialismo científico vem a ser uma denominação entre outras
do marxismo, que suprassume todos os conceitos anteriores.

O próprio marxismo acabaria produzindo outra multiplicação de
denominações. Por exemplo: marxismo legal, surgido na Rússia do século XIX, os
marxismos economicista, reformista e/ou revisionista; marxismo empedernido (na
formulação de Lenin em 1906); marxismo ortodoxo (na concepção de Lukács), o
marxismo-leninismo dos stalinistas e assim por diante, até culminar na
relativamente recente formulação de Perry Anderson – marxismo ocidental. Isto
sem falar em outra preciosa contribuição inglesa, a de Raymond Willliams, que
impulsionou a formação  da ala do
materialismo cultural[2],
atuante até hoje na Inglaterra e nos Estados Unidos. Todas estas “escolas”
constituem a nossa herança. Temos que no mínimo cultivar dialeticamente a sua
memória pois, como aprendemos com Hegel, é com ela que forjaremos as armas com
que confrontar os neoassaltantes de beira de estrada atualmente na ativa.

Sobre marxismo ocidental e materialismo cultural, vale a pena
fazer uma pausa, pois a nossa hipótese é que os luminares do “marxismo
cultural-espectral” assaltaram a obra de Perry Anderson[3],
assim como a produção dos discípulos angloamericanos de Raymond Williams.
Anderson subsume ao conceito de marxismo ocidental autores como Gramsci,
Lukács, Escola de Frankfurt… Não são os mesmos mobilizados pela versão
fantasmática? Outra demarcação do marxista inglês: os integrantes do marxismo
ocidental atuariam de preferência no âmbito da cultura e do debate teórico
(exceção feita a Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, cuja
principal contribuição ao marxismo cultural – incluídas as reflexões sobre
Maquiavel – foi produzida no cárcere fascista e, por isto mesmo, à revelia),
enquanto os marxistas  tout  court
(os clássicos: Marx, Engels, Plekhanov, Lenin, Rosa Luxemburg, Trotsky…),
além de debaterem amplamente as questões culturais, também eram ligados à
militância revolucionária, ou seja, vinculados a partidos, tanto da tradição
socialista quanto da comunista[4],
o que não se aplica aos integrantes da Escola de Frankfurt.

Dando continuidade a esta primeira pausa, não é demais lembrar
uma outra consideração de Engels a propósito da luta de classes em todas as
frentes, inclusive a cultural: “todas as lutas históricas, quer se processem no
domínio político, religioso, filosófico, ou qualquer outro campo ideológico,
são na realidade apenas a expressão mais ou menos clara de lutas entre as
classes sociais”[5].

Luta de classes é a principal marca registrada do marxismo,
mas é bom não esquecer que sua mais importante determinação é a da crítica ao
capitalismo, cifrada no subtítulo do Capital:
crítica da economia política. Importa insistir nisto, porque nosso ponto de
honra é a luta pelo fim do sistema capitalista, de modo que o inimigo – que
defende a continuidade do capitalismo – tem bons motivos para temer os
comunistas. Somos inimigos mesmo: nós combatemos as relações de produção
capitalistas, a verdadeira causa de todas as misérias – econômicas, sociais,
políticas e culturais – atualmente existentes. Sendo assim, podemos e devemos
dar razão a eles quando brandem o “marxismo cultural” contra nós, mas
precisamos corrigir as suas falácias, falta de percepção e seus erros
elementares, decorrentes de medo, ignorância e incapacidade para o pensamento.

Dialeticamente, para um marxista, o marxismo cultural (sub specie spectrum) nada mais é que a
fusão operada pelo inimigo entre marxismo ocidental e materialismo cultural,
numa operação ideológica que requenta, além de mal e porcamente reciclar, a
marmita nazista. Segue-se que, para além do recurso aos nossos clássicos,
devemos incorporar ao trabalho do pensamento na frente cultural todos os
autores e obras que Perry Anderson examinou em seu livro – com destaque
particular para a Escola de Frankfurt e Gramsci –, bem como os procedimentos e
sugestões de Raymond Williams em sua profícua trajetória de pensador das
relações entre cultura e luta de classes na Inglaterra. Estudar, por exemplo, O eclipse da razão, de Max Horkheimer e
o capítulo “Indústria cultural, o iluminismo como mistificação das massas” do
livro Dialética do iluminismo, também
de Adorno e Horkheimer. Estes trabalhos foram elaborados num contexto de
reflexão sobre a pergunta “como foi possível o surgimento da barbárie
nazista?”. Para uma visão ampla do trabalho dos frankfurtianos, os brasileiros
ainda temos a sorte de dispor da antologia publicada pela editora Abril na
coleção Os Pensadores, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Habermas,
trabalho coletivo que contou com o enérgico apoio (consultoria) de dois grandes
marxistas culturais especialistas no assunto: Otília e Paulo Arantes.

Gramsci, em seus Cadernos
do cárcere
, tem inspiradoras análises dos desafios postos aos intelectuais
pela presença e dominação cultural da Igreja Católica na Itália[6],
cuja condição de empresa privada que obteve status de Estado graças aos
fascistas, (pelo Tratado de Latrão em 1929), foi examinada no artigo “O
Vaticano”, publicado na revista Correspondência
Internacional
em 1924. Ali Gramsci afirma sem meias palavras que o então
papa Pio XI apoiou o golpe de estado do fascismo e declara que, além de contar
em seus quadros com indivíduos de habilidade consumada na arte da intriga, o
Vaticano é a maior força reacionária da Itália e um inimigo internacional do
proletariado.

Encampando, além das acima enumeradas, as sugestões de Raymond
Williams, o campo prioritário de atuação dos marxistas culturais vem a ser a
esfera da cultura pautada pela luta de classes em todos os seus desdobramentos
e seu olhar deve estar direcionado preferencialmente
para os artistas e obras que, ao longo da história do capitalismo, tematizaram
as lutas pela emancipação dos trabalhadores em todas as suas modalidades, sem
prejuízo do interesse por aquelas obras que, a exemplo do que fez Machado de
Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas,
desmascaram os comportamentos da classe dominante.

É assim que temos basicamente dois momentos nesta produção
cultural: a da luta contra a escravidão propriamente dita – em especial a dos
africanos, mas no caso de países de continentes como o americano também a dos
nativos – e a da luta contra a escravidão salarial (esta é uma das expressões
que Marx utiliza em diversas obras, inclusive O Capital). A causa pela qual lutamos é libertar o proletariado das
relações de produção capitalistas – nunca é demais insistir –, e desde que foi
fundada a Internacional Comunista (1919), um desdobramento que sintetiza estas
pautas é a luta contra a dominação colonial. Portanto, aos marxistas culturais
interessam todos os episódios de confronto com o colonialismo e o imperialismo,
a começar pela Revolução do Haiti (1791-1804), até as vitoriosas guerras que os
vietnamitas travaram contra Japão, França e Estados Unidos, passando por
revoluções como a cubana e pelas guerras de libertação de Angola, Moçambique,
Cabo Verde e Guiné-Bissau, entre outras. E só para adiantar um tópico: você
sabia que o sucesso mundial de 1967, Pata
pata
, de Miriam Makeba, apoiada por Harry Belafonte, serviu para arrecadar
fundos para tirar lutadores contra o apartheid das prisões sul africanas? Eis
uma das milhares de histórias que interessam a um militante comunista do
autêntico marxismo cultural!

Marxismo cultural pode muito bem servir de senha para nos
voltarmos ao que realmente interessa no plano cultural. Enumeremos alguns
exemplos para começo de conversa. Como estamos no Brasil, nossa primeira
prioridade é a luta de resistência dos africanos às condições de escravidão,
cuja figura mais antiga é o quilombo[7].
Palmares e Zumbi são ainda hoje fonte inesgotável de inspiração. Marxistas
culturais brasileiros têm em Zumbi uma espécie de ancestral e já contam com respeitável
tradição de abordagens da sua luta, com erros e acertos. Neste item entram
evidentemente Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo, autores da obra
prima Upa, neguinho!, gravada por
Elis Regina e integrante do espetáculo Arena
conta Zumbi
. Mas não podemos nos esquecer de que foi Abdias Nascimento[8]
quem abriu os olhos do jovem Augusto Boal para importância desta questão.

Ainda no capítulo da denúncia e da luta contra a escravidão, o
marxismo cultural tem muito o que aprender com os afroamericanos. Para ficar só
num exemplo, existe um spiritual, Swing low, sweet chariot, que foi adotado
pelos abolicionistas como senha para a fuga organizada de escravos. Uma
organização clandestina (a Underground
Railroad
, ou estrada clandestina) fazia chegar a determinada plantação a
notícia de que uma carroça passaria à noite para levar os fugitivos designados.
Durante o dia, o líder dos trabalhadores cantava “swing low, sweet chariot”
(balance de leve, querida carroça) e o coro respondia “coming for to carry me
home” (que vem para me levar para casa – casa, aqui, significa liberdade).
Todos ficavam sabendo que a carroça passaria naquela noite e tomavam as
providências para a fuga ser bem sucedida. O Brasil teve organizações
similares, como Os tenentes do diabo
(Rio de Janeiro) que publicamente aparecia como associação carnavalesca, mas
que ao mesmo tempo comprava cartas de alforria e colaborava em fugas
organizadas.

Poetas europeus também participaram desta luta. Um dos
melhores exemplos é Heinrich Heine (1797-1856), amigo de Marx, que escreveu o
poema Navio negreiro, no qual
denuncia a violência do tráfico, tanto no aprisionamento quanto na travessia do
mar, e expõe a frieza dos traficantes em seus cálculos. Parte dele foi
reaproveitada pelo nosso Castro Alves em poema de mesmo nome. Machado de Assis
imortaliza o poema de Heine em passagem inesquecível do seu Memorial de Aires (1908), quando o
diplomata aposentado constata em seu diário que o dia é 13 de maio.

A luta contra a herança do escravismo no Brasil e no mundo
ainda está em andamento e precisa integrar de modo enérgico o conjunto das
referências do marxismo cultural. Assim como a Jamaica forjou um C.L. R. James,
cuja obra abarca desde Notas sobre
dialética
(1948) até Os jacobinos
negros
(1963), os Estados Unidos têm uma miríade de militantes, poetas e
escritores de leitura obrigatória. Obviamente, Angela Davis e Bobby Seale fazem
parte desta galeria, mas também Langston Hughes, Eugene O’Neill, Malcolm X,
Stokely Carmichael e Martin Luther King. 
Nina Simone entra como a compositora da trilha sonora da luta por
direitos civis e Billie Holiday, que em 1939 gravou Strange Fruit para denunciar linchamentos de afroamericanos nos
estados sulistas, também deve fazer parte da sonoplastia do marxismo cultural.
Dentre os brasileiros, cabe destaque a Luís Gama, José do Patrocínio, Abdias
Nascimento e todos os seus discípulos (de Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo a
Érica Malunguinho), mas isto apenas para começo de conversa.

No âmbito da luta cultural do proletariado contra a escravidão
salarial, da qual Brecht é uma das mais eloquentes sínteses, entram todos os
escritores naturalistas, a começar por Emile Zola e Maxim Gorky. Do primeiro
vale a pena destacar Germinal (1885),
que trata da organização dos trabalhadores numa prolongada greve de mineiros
que contou até com o apoio da Associação Internacional dos Trabalhadores
(fundada por Marx, entre outros, em 1864, também conhecida como Primeira
Internacional). O assunto central do romance é a greve que evolui para uma
rebelião violentamente massacrada pelas forças da ordem. De Gorky (1868-1936)
destaque-se o romance A mãe (1906)
que mostra como uma mulher evolui de analfabeta e despolitizada a militante
fundamental na luta clandestina depois de acompanhar a evolução política do
próprio filho, que morre num confronto com as forças da ordem. Brecht adaptou
este romance para o teatro.

[...]

Para encerrar este primeiro passeio, cabe fazer uma homenagem
a Augusto Boal, também discípulo de Paulo Freire, enumerando alguns nomes
daqueles que podemos chamar de integrantes do arco-íris do marxismo cultural sem precisar pensar duas vezes
(desde já insistindo: é lista de memória e sem pretensão de ser exaustiva).

Dentre os brasileiros, além dos já citados, temos Jorge Amado,
Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Patrícia Galvão, Joracy Camargo (todos
escritores-militantes), Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Carlos
Drummond de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, Antonio Candido, Florestan
Fernandes, Emília Viotti, Fernando Novais, Anatol Rosenfeld, Chico de Assis,
Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Ruy Guerra (este foi importado de
Moçambique, mas se abrasileirou rapidamente), Eduardo e Lauro Escorel, Leon
Hirszman, Oduvaldo Vianna Pai e Filho, Solano Trindade, João das Neves, Clóvis
Moura, Chico Buarque, Flávio Império, Michel Löwy, Roberto Schwarz, Maria
Bethânia, Ivone Lara, Clementina de Jesus, Carolina Maria de Jesus…

Nas Américas temos Rigoberta Menchú (Guatemala), Gabriela
Mistral, Pablo Neruda, Ariel Dorfman, Violeta Parra e Patricio Guzmán (Chile),
Rubén Darío (Nicarágua), Miguel Angel Astúrias, Carlos Fuentes, Frida Kahlo e
Diego Rivera (México), Atahualpa del Cioppo e Mário Benedetti (Uruguai), Sergio
Cabrera, Gabriel García Márquez, Santiago Garcia e Enrique Buenaventura
(Colômbia), Leonidas Barletta, Oswaldo Dragún, Fernando Solanas e Eduardo
Pavlovsky (Argentina), José Martí, Roberto Fernandez Retamar (Cuba), Aimé
Césaire (Martinica), César Vallejo, José María Arguedas e José Carlos
Mariátegui (Peru), Henry Sylvester Williams (Trinidad), Harriet Taubman,
Frederick Douglass, James Brown, Mother Jones, Joe Hill, John Reed, Louise
Bryant, Paul Robeson, Elisabeth Gurley-Flynn, Jack London, John dos Passos,
Joan Baez, Woody Guthrie, W.E.B. Dubois, Elmer Rice, Harry Braverman, Frederic
Jameson, Sally Fields, James Baldwin, Spike Lee (Estados Unidos)…

Note-se que ainda nem começamos a pensar em nossos clássicos,
grandes cientistas, pensadores e filósofos que, de fins da Idade Média ao
século XIX, vêm enfrentando as trevas cultivadas pela Igreja Católica (e agora
também pelas evangélicas). É o caso de Maquiavel, Giordano Bruno, Galileu e
Copérnico, René Descartes, Voltaire (que insistia sobre a necessidade de
“massacrar a infame”), Diderot, Laplace (o astrônomo que dispensava a hipótese
de Deus), David Strauss, Feuerbach, Newton, David Hume, Kant, Charles Lyell,Charles
Darwin, Thomas Huxley, Ernst Haeckel… Para o século XX, podemos adotar Cheikh
Anta Diop como símbolo da pesquisa mais relevante: o marxismo cultural se
considera herdeiro de todas as conquistas da ciência e assume seu compromisso
irrevogável com a verdade – tanto a científica quanto a histórica – porque sabe
que a mentira tem um papel reacionário. Reafirma assim seu compromisso com a
legítima defesa da humanidade.

Como lembrou o
companheiro Carlos Russo Jr., citando Gramsci, em recente matéria do site
“Espaço Literário Marcel Proust”, “o fascismo incorpora como nunca a servidão,
a mentira e o terror, flagelos que buscam fazer reinar o silêncio entre os
homens, obscurecendo-os uns aos outros e impedindo que se reencontrem no único
valor que poderia salvá-los: a longa cumplicidade cujo limite é precisamente o
poder de revolta dos homens em conflito contra o despotismo e a opressão.”[9]

Fim do primeiro tempo

Quando os nazistas inventaram o fantasma do bolchevismo
cultural, para variar cometeram a falácia da generalização apressada (marca
registrada de toda abstração indevida que tem a intenção de bloquear o debate).
Atiraram num fantasma quando na realidade o bolchevismo cultural – entendido
como a revolução bolchevique no plano da cultura – estava muito presente na
União Soviética e também na Alemanha, sobretudo nas figuras de Asja Lacis
(leta), Meyerhold, Tretiakov (russos) e de Piscator, Hans Eisler, Max Valentin
(alemães), entre inúmeros outros. O fato histórico é que havia dentre os
bolcheviques, desde outubro de 1917, uma ala dedicada a enfrentar os problemas
culturais que os marxistas debatem desde que existem e a Revolução colocara na
ordem do dia: órfãos da guerra e da revolução, fome, analfabetismo, questão
feminina, integração do proletariado e seus filhos à vida cultural
(escolarização, todas as modalidades de arte, teatro, cinema, literatura etc.,
etc., etc.).

A luta cultural da Revolução de Outubro ainda é amplamente
desconhecida entre nós e por isso vale a pena começar do começo quando o
assunto é bolchevismo cultural. Os bolcheviques que assumiram a linha de frente
nesta luta foram Lunatcharski e Krupskaia (comissários do povo para a educação
e cultura – o Narkompros). Uma semana antes do 25 de outubro de 1917,
Lunatcharski deu o primeiro passo na tarefa de organizar artistas e
intelectuais para a luta que se avizinhava. Com os mais aguerridos, fundou a
Proletkult (cultura proletária), organização que em pouco tempo (menos de um
ano) arregimentava cerca de 400 mil pessoas[10].
Krupskaia dedicou-se às crianças, às mulheres e ao programa de erradicação do
analfabetismo. Seus textos disponíveis no site marxists.org mostram o alcance do seu compromisso com a construção
de um futuro sem as marcas horrendas da ideologia burguesa tanto no que se
refere à autonomia das mulheres quando na educação de crianças experimentando a
igualdade de gênero (meninos e meninas em pé de igualdade e camaradagem na
organização chamada Jovens Pioneiros) desde a mais tenra idade. O exato oposto
do escotismo, adotado com entusiasmo por fascistas e nazistas (meninos e suas
violências de um lado e meninas se preparando para a submissão aos homens e
para a maternidade do outro). Merece destaque, no trabalho com crianças, a
atuação de Asja Lacis, que desenvolveu, com apoio de Meyerhold, métodos de
resgate de crianças abandonadas através do teatro e depois ajudou os camaradas
alemães a organizarem até grupos infantis de agitprop. Ainda na questão
feminina temos na linha de frente Alexandra Kollontai e Inessa Armand que
publicaram textos a respeito da necessidade de libertar as mulheres da
escravidão doméstica e da submissão aos homens empenhando-se na criação de
restaurantes, lavanderias e creches de modo a liberar o tempo das mulheres para
a ação política. Inessa Armand cuidou até do trabalho feminino na retaguarda do
exército vermelho durante a guerra civil[11].

Dentre os incontáveis bolcheviques da frente cultural –
dramaturgos, diretores teatrais, cineastas, artistas plásticos – destaquemos
ainda Tretiakov, o exemplo de “artista militante” na expressão de Walter
Benjamin[12];
Meyerhold, que dirigiu a divisão de teatro do comissariado da educação e
cultura; Eisenstein, Dziga Vertov e Pudovkin que ainda hoje dão régua e
compasso ao cinema que pretende ser relevante; Rodchenko e Stepanova, que
desenvolveram na teoria e na prática as propostas do construtivismo; e, evidentemente,
Maiakovsky, o poeta que a plenos pulmões cantou a Revolução em prosa e verso.
São dele os versos inesquecíveis: COME ANANÁS, MASTIGA PERDIZ. TEU DIA ESTÁ
PRESTES, BURGUÊS.


[1] MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969,
p. 21. Aplicada ao próprio
marxismo, esta proposição resultou na obra coordenada por E.J. Hobsbawm, História do marxismo, que na edição
brasileira conta com 12 volumes e está disponível para download no site Biblioteca
Base
.

[2] Para quem está chegando agora, um bom
começo é o verbete “cultural materialism” da Wikipedia. Os mais dispostos encontrarão amplo material nas
diversas obras de Raymond Williams publicadas no Brasil pela Editora Unesp.
Recomendo especialmente A política e as
letras
, de 2013, em que ele reconstitui sua própria trajetória no trânsito
permanente entre cultura e política.

[3] Cf. ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. São Paulo: Brasiliense,
1989.

[4] Recomendamos uma visita ao site marxists.org, seção “select author”,
para se ter uma ideia da quantidade de integrantes desta tradição.

[5] ENGELS, F. Prefácio à terceira edição
alemã da obra O 18 brumário de Luís
Bonaparte
, op. cit. p. 12.

[6] Os excertos publicados no volume Literatura e vida nacional são de
extremo interesse para quem tem que se haver com os atuais descendentes do
infamíssimo padre Bresciani, jesuíta grosseiro e fanático (1798-1862) que
cultivava um espírito de vingança reacionária e caprichava na polêmica áspera,
atropelando o interlocutor. Na opinião de De Sanctis, ele era pouco dotado, de
caráter vulgar, desprovido de espírito, rancoroso, dado a encenar paixões que
não sentia, dedicado a mentir, caluniar e odiar. Não é coincidência a
semelhança entre estes traços de falta de caráter e as atitudes dos nossos
adversários políticos.

[7] Palenques são os equivalentes dos nossos
quilombos em países latinoamericanos. Há histórias de extremo interesse na
Colômbia, Jamaica e Venezuela, bem como no Equador, México, Panamá e Peru. Em
espanhol, os fugitivos da escravidão eram chamados “cimarrones”.

[8] Marxistas culturais que ainda não
incorporaram esta figura fundamental em suas referências podem começar a se
atualizar com a obra O quilombismo,
já em terceira edição, agora (2019) por conta da editora Perspectiva e do
Ipeafro. Abdias propõe que Exu (como expressão dos princípios da comunicação,
contradição e dialética) e Ogum (como princípio do compromisso com a luta)
sejam considerados símbolos do quilombismo.

[9] Cf. https://www.proust.com.br/post/fascismo-revolta-e-renascimento

[10] Interessados em mais detalhes podem ler o
livro publicado em 2018 pela editora Expressão Popular: LUNATCHARSKI, A. Revolução, arte e cultura.

[11] Há vários textos destas e de outras
mulheres no livro SCHNEIDER, Graziela (org.). A revolução das mulheres. São Paulo: Boitempo, 2017. Ver, sobre o
mesmo assunto, GOLDMAN, Wendy. A libertação das mulheres e a Revolução Russa. In JINKINGS, Ivana e DORIA, Kim (orgs.).
1917 – o ano que abalou o mundo. São
Paulo: Boitempo, 2017.

[12] Cf. o ensaio “O autor como produtor”,
disponível em várias edições.

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