Outras Palavras

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Uma das mais tradicionais cooperativas de consumo de Nova Iorque é o
Park Slope Food Corp, fundado em 1973. O enfoque está em adquirir
produtos locais em grandes quantidades, privilegiando pequenos
produtores do entorno da cidade, quebrando os intermediários com os consumidores.

Essa semana um grupo brasileiro, formado por
cooperados e ativistas, desembarcou em Nova Iorque para uma missão
sobre “cooperativismo
de plataforma
”, em
preparação ao encontro The
State of Platform Cooperativism

que ocorre entre os dias 07 e 09 de novembro.

O
evento, que acontece desde 2015 na New
School
por iniciativa
do professor e ativista Trebor Scholz
,
se dedica a repensar o futuro da economia digital e a importância
crescente de estruturas de trabalho mediadas pela tecnologia que
retomem os princípios do cooperativismo, como a valorização,
reconhecimento e envolvimento dos trabalhadores em decisões. Trebor
é autor de importantes livros relacionados ao tema, como Uberworked
and Underpaid
e
Cooperativismo
de Plataforma
, conceito
utilizado para descrever “empreendimentos que usam um website,
aplicativo ou protocolo para vender bens ou serviços enquanto
baseiam-se em processos decisórios democráticos e propriedade
compartilhada da plataforma tecnológica por trabalhadores e
usuários”.


quatro anos, o Platform Cooperativism
tem criado conexões entre programadores, ativistas e lideranças
comunitárias. O “Diretório
de Cooperativas
” reúne
mais de 300 experiências de projetos que vão desde cooperativas de
entrega de comidas (pense em um Rappi no qual os entregadores são
proprietários da plataforma), plataformas
de uso de apartamentos em comunidades vulneráveis

(pense em um AirBnb no qual a taxa de intermediação é direcionada
a cooperados de um bairro) e plataformas em blockchain para
rastreamento da produção artesanal de produtos vendidos online.

A
missão brasileira foi organizada pela Coonecta,
grupo de São Paulo que se dedica ao fomento do cooperativismo e
inovação no Brasil. Nela, participam representantes de cooperativas
brasileiras do setor de crédito, transporte e saúde – todos
interessados no potencial de uma economia de plataforma enraizada nos
valores do cooperativismo. Sinal claro desse interesse é o fato do
cooperativismo de plataforma ter sido um
dos temas principais do 14º Congresso Brasileiro do Cooperativismo
em maio de 2019
.

O
cooperativismo de plataforma é o velho
e o novo
, ao mesmo tempo. É notável
que os princípios de “controle democrático”, “participação
econômica”, “autonomia e independência”, “cooperação” e
“engajamento com a comunidade” sejam vistos como definidores de
uma nova economia
nos EUA. Na realidade, muitos desses princípios são releituras de
ideais lançados há mais de 150 anos por movimentos de trabalhadores
(os “princípios de Rochdale”, disseminados no Brasil desde o
final do século XIX). A diferença está na remodelagem desses
princípios em economias de múltiplos lados, caracterizadas por
efeitos em rede, por novas formas de intermediação tecnológica e
pela extração de valor a partir dos dados pessoais.

Evidentemente,
o cooperativismo tem ganhado força justamente em razão da
aproximação com os níveis de desigualdade do século XIX nas
sociedades capitalistas contemporâneas e a precarização do
trabalho na “economia dos bicos” de hoje. Como mostram inúmeros
economistas – Thomas
Piketty
, Branco Milanovic e
Frances Stewart –, o problema da concentração de renda é brutal
e o fosso entre “super ricos” e classe trabalhadora é profundo.
O cooperativismo é uma das possibilidades, dentro de uma agenda
reformista maior, que envolve imposto progressivo sobre a fortuna de
bilionários e regimes de propriedade social, baseados na partilha de
direito de voto e de poder com os assalariados nas empresas.

Paralelamente
ao cooperativismo, há um movimento de employee-owned
enterprises
em ascensão. Nos últimos
anos foram criadas certificações para verificar se os empregados
possuem pelo menos 30% da propriedade de um negócio e se o acesso à
propriedade é aberto a cada empregado, limitando a concentração
acionária. O trabalho da Certified
EO
é justamente fazer essa
avaliação nos EUA. São mais de 6.000 empresas nesse formato, com
mais de 1 milhão e meio de “empregados donos de negócios” nos
EUA. Já as cooperativas de trabalhadores estão na casa de 500,
segundo dados da Certified EO.

É
claro que em
comparação com Brasil
as
cooperativas dos EUA são menores em número, escala e impacto.
Segundos os dados mais recentes do Anuário
do Cooperativismo Brasileiro 2019
, o
Brasil possui 6.828 cooperativas, sendo que o número de cooperados
saltou de 9 milhões para 14 milhões entre 2010 e 2018, com quase
400 mil empregos diretos. Somente em 2018 a receita bruta acumulada
das cooperativas brasileiras foi de 259 bilhões de Reais, com
bilhões injetados no interior do país. Como argumenta Mario de
Conto, da Faculdade de Tecnologia do Cooperativismo, é evidente o
potencial para as CoopTechs
no Brasil.

As
experiências estadunidenses, no entanto, mostram empreendimentos
comunitários concretos e um interesse crescente pela tecnologia que
não deve ser negligenciado. Em especial, elas revelam um amplo
movimento de “democracia econômica” em Nova Iorque
.

A experiência do Up&Go

O
Center
for Family Life
está
presente há mais de quarenta anos em SunSet Park em Nova Iorque.
Eles começaram com um trabalho
específico com imigrantes e com a comunidade trabalhadora
.
Eles dividem o trabalho em três níveis. Primeiro, community
services
, que abarca apoio a
alimentação, legalização e apoio jurídico a impostos. Segundo,
family counseling,
que se dedica ao aconselhamento familiar, cuidados, apoio a
imigrantes, e ajuda com crises familiares. Terceiro, employment
services
, que se dedica ao apoio para
trabalhadores e aulas de computação, inglês e job
placement
.

O
primeiro trabalho com tecnologia começou em 2006, com a ideia de uma
plataforma para apoio a trabalhadoras imigrantes. O Si,
se puede
começou
com 13 mulheres e a ideia básica era criar um plataforma de conexão
de trabalhadoras para trabalhos domésticos, no qual as trabalhadoras
seriam as proprietárias da plataforma (“women-run, women-owned,
eco-friendly housecleaning business”).

Desse
trabalho, surgiram outros projetos e experiência como Beyond
Care
, Émigré
Gourmet
(catering), Golden
Steps
(cuidados de adultos e idosos),
Brightly (limpeza)
e, finalmente, a Up&Go.

A
Up&Go é uma plataforma digital para que os clientes possam pedir
serviços de limpeza
. É a
primeira plataforma digital em que a propriedade é dos trabalhadores
em Nova Iorque. O sistema baseia-se em (i) trabalhos justos e (ii)
propriedade intelectual coletiva do código e das marcas.

O
projeto foi concebido como uma alternativa ao modelo de gig
platform
de outras empresas como Handy.
Na visão da ONG, o sistema de agenciamento sempre existiu. O que a
Up&Go quer é quebrar o lucro do
intermediário
por meio da gestão
comunitária
. A plataforma luta contra
políticas de preços flexíveis de empresas como Uber, que não
possuem transparência sobre o funcionamento do algoritmo.

O
desenvolvimento inicial ocorreu em 2016 com o estudo de viabilidade e
um apoio técnico do fundo de investimento social Robin Hood, fundado
por uma liderança do Bronx
.
O desenvolvimento inicial ocorreu em dezembro de 2016. O lançamento
Beta e o lançamento público ocorreram em 2017. Em dezembro os
founding co-ops tornaram-se
proprietários.

De
acordo com Sylvia Morse, coordenadora do projeto Up&Go, o
primeiro desafio foi o parceria com uma cooperativa de tecnologia
para desenvolvimento do protótipo. Além da Robin Hood, a
cooperativa CooLab deu o apoio a tecnologia e human-centered
design.
A meta era criar uma plataforma
que representasse os valores da cooperativa.

Posteriormente,
foi feito um trabalho de engajamento e ensino-aprendizagem para que
as trabalhadoras se apropriassem do conhecimento sobre a arquitetura
do sistema e passassem a tomar decisões sobre licenciamento do
software e políticas de uso de dados.

A tradição do Park Slope Food Corp

Uma
das mais tradicionais cooperativas de consumo de Nova Iorque é o
Park
Slope Food Corp
, fundado em
1973 por um grupo de 9 pessoas na Union Street, em Brooklyn.

O
Park Slope possui hoje 17 mil cooperados e o propósito central da
cooperativa é criar um mercado no qual produtos de qualidade são
vendidos a preços justos e baixos. O enfoque está em adquirir
produtos locais em grandes quantidades, privilegiando pequenos
produtores do entorno de Nova Iorque. Um segundo objetivo está em
quebrar os intermediários,
fazendo a conexão direta entre uma “plataforma de consumo” e os
produtos.

Desde o
início, um dos desafios do Park Slope foi reduzir os custos de se
manter um mercado deste porte. Para tanto, os cooperados criaram um
sistema de trabalho colaborativo. Todo cooperado do Park Slope Food
Corp precisa assumir a obrigação de trabalhar 2 horas e meia a cada
28 dias. Por dia, praticamente 500 pessoas se revezam em diferentes
funções. Há grupos de cooperados que assumem função de caixa,
grupos que abrem e fecham caixas, grupos que rotulam preços, grupos
que analisam a qualidade dos alimentos, grupos que auxiliam a levar
as compras até os veículos e grupos que fazem a segurança. Essa
dinâmica de trabalho cria um forte espírito de comunidade e de
pertencimento aos cooperados.

O
mercado da cooperativa é exclusivo para os cooperados. Não é
possível um turista ou visitante comprar algo se não assumir
obrigações perante a comunidade enquanto cooperado. O Conselho
Diretivo da cooperativa também é obrigado a acatar as recomendações
dos cooperados, que são feitas em assembleias na Union Street.

De
acordo com Joe Holtz, um dos fundadores da Park Slope Food Corp, o
ideal de quarenta anos atrás ainda se mantém forte na cooperativa.
Movidos por um amplo movimento de contracultura e de novos movimentos
de justiça social na década de 1970, o ideal era o de construir
“sucesso comunitário” e não apenas “sucesso individual”.
Atualmente, a Park Slope Food Corp tem utilizado ferramentas
tecnológicas de gestão do trabalho, aviso aos cooperados por
celular (“Amanhã é seu turno às 14h”) e mecanismos facilitados
de deliberação online.

[...]

Em
diferentes partes dos EUA e da Europa,
iniciativas semelhantes ao Park Slope Food Corp, como o La Louve em
Paris
. Nem todas, no
entanto, são exclusivas aos cooperados e exigem compulsoriamente uma
forma de trabalho, o que faz de Park Slope um exemplo bastante único
de empreendimento comunitário. Como diz o veterano Joe Holtz, o
cooperativismo é “um exercício prático do dia-a-dia e construção
de comunidade a partir do trabalho”.

A importância do cuidado doméstico

A
Cooperative
Home Care Associates
foi
fundada no Bronx, um bairro tipicamente marcado pela imigração
latina e caribenha, em 1985, a partir da iniciativa de Rick Surpin e
Peggy Powell. O objetivo inicial era de maximizar os salários dos
cooperados e benefícios a partir de um modelo de trabalho de
cuidados primários e secundários.

Atualmente,
a CHCA é a maior cooperativa de trabalho de cuidados dos EUA. As
trabalhadoras são 99% mulheres. 74% são latinas ou hispânicas e
15% são afro-americanas. 56% são imigrantes. Desde 1985, o modelo
de treinamento já formou mais 10.000 trabalhadoras. Anualmente, 600
pessoas trabalham regularmente a partir da cooperativa.

A
cooperativa trabalha com o conceito de “riqueza comunitária”.
Essa riqueza é mensurada a partir dos princípios de treinamento
gratuito, serviços de qualidade, emprego, tutoria, desenvolvimento
profissional e a ideia de ser dono do próprio negócio.

A CHCA
funda-se em um conjunto de princípios. Os principais são (i) adesão
voluntária, (ii) controle dos membros de forma democrática, (iii)
participação econômica dos membros, (iv) autonomia e
independência, (v) educação, entretenimento e informação, (vi)
cooperação entre cooperativas e (vii) preocupação com a
comunidade. As cooperadas trabalham e vivem no Bronx.

A
adesão é feita por um preço total de $ 1.000 (mil dólares). É
exigido um depósito inicial de 5 dólares. Os $ 950 são pagos com
cotas de $ 3,65 por semana (o preço de uma refeição). Entre as
responsabilidades, estão o comprometimento com 90 dias de trabalho e
a participação em treinamentos e orientação.

Atualmente,
a CHCA possui certificado pela Certified
Employee-Owned
e é integrante de redes
como US
Federation of Worker Cooperatives
(criada em 2004)e Democracy
At Work Cooperatives
.
Eles também contam com apoio do CYNU
Murphy Institute Center
e ICA
Group
, que provê consultorias para
empreendimentos de impacto social.

A
CHCA possui um time de tecnologia e privacidade para cumprimento das
leis de proteção de dados pessoais e cuidados com os dados
relacionados à saúde dos clientes que utilizam os serviços da
cooperativa. Atualmente, há interesse em criação de uma plataforma
web para que usuários dos serviços no Bronx possam contatar a CHCA
de forma simples, integrante meios de pagamentos.

Cooperativa
de dados clínicos

A
Savvy
Cooperative
é uma
cooperativa da “nova geração” nos EUA. Ela surgiu há dois anos
a partir da união de três profissionais da área da tecnologia e da
saúde. Diferentemente da CHCA, ela não possui uma “base local”,
mas trabalha com potenciais cooperados online.

O
objetivo central da Savvy Cooperative é criar um mercado de dois
lados, onde, de um lado, cooperados produzem
dados e inteligência a partir de seus tratamentos de saúde
e,
de outro, empresas da área da saúde podem acessar
tais dados
e remunerar
os pacientes de forma justa
.

A
ideia surgiu a partir de experiências concretas de tratamentos de
doenças pelos fundadores. Os três possuem condições médicas
específicas e perceberam que há todo um conjunto de partes
interessadas em acessar tais informações e gerar conhecimento a
partir do modo como um paciente realiza um tratamento de saúde ou
responde perguntas específicas em user-testing
e grupos focais.

A
cooperativa foi desenhada a
partir de um princípio de “justiça econômica” dos dados
gerados pelos pacientes
. A
premissa é que, se os pacientes colaboram na produção de
informações que geram valor para diferentes empresas no seu próprio
tratamento de saúde, então é justo que haja um arranjo de
consentimento informado e de remuneração pela informação gerada
por parte dos pacientes.

A
cooperativa possui 500 cooperados e mais de 10.000 pacientes que
engajados. A Savvy Cooperative está em fase inicial e possui um
modelo bastante particular de organização. A cooperativa possui
quatro diferentes classes de “cotistas”, permitindo, inclusive,
que haja investimento de fundos privados na cooperativa. Ainda não
há distribuição de dividendos e valores concretos, mas a
cooperativa espera escalar nos próximos meses e sacudir o debate
sobre “titularidade dos dados” em um cenário onde grandes
empresas de tecnologia estão interessadas em mercados relacionados à
saúde populacional e serviços de saúde.

No
fundo, a Savvy Cooperative coloca em debate a
provocação do filósofo estadunidense Jaron Lanier sobre “dignidade
dos dados” e sobre a propriedade dos dados pessoais
.
Sem dúvidas, o surgimento de cooperativas dedicadas a esse fim tende
a provocar ricas discussões sobre o futuro das economias digitais e
as possibilidades de experimentação econômica com viés
democrático.

A
reinvenção da democracia econômica na era das plataformas

As
cooperativas aqui analisadas mostram a força dos valores do
cooperativismo e as possibilidades de readaptação desses modelos
organizacionais em uma economia progressivamente intermediada por
plataformas e por geração de valores a partir dos dados.

O
cooperativismo de plataforma, enfim, abre três discussões
fundamentais.

Primeiro,
a possibilidade da redistribuição dos valores gerados a partir dos
dados, baseado na concepção de que a produção de informação é
uma forma de trabalho – um assunto polêmico diante da proposição
de que os dados pessoais não são “mercadoria” mas uma projeção
da personalidade que não poderia ser negociada.

Segundo,
a importância do engajamento das cooperativas com a compreensão do
funcionamento dos mercados de múltiplos lados e da extração de
valor a partir dos dados. Abre-se aqui a possibilidade de que
negócios éticos sejam modelados a partir da inteligência gerada
pela análise de dados, em conformidade com as novas legislações
sobre dados pessoais (como a LGPD que entra em vigor em 2020). As
cooperativas de plataforma podem ser líderes na adoção da proteção
de dados pessoais.

Terceiro,
a possibilidade de inovação social nos métodos de deliberação e
envolvimento dos cooperados na “vida onlife”, usando a expressão
do filósofo Luciano Floridi. Isso significa a ausência de fronteira
clara entre o off-line
e o online,
fazendo com que os processos deliberativos típicos (assembleia
presencial anual) sejam reimaginados em uma dinâmica de engajamento
constante, multimídia, interativa, participativa e mensurável. A
necessidade de democracia econômica abre grande espaço de inovação
tecnológica para concretização desse objetivo e precisa ser
avaliada criticamente, diante da crescente necessidade do “direito
de desconexão”. Abre-se aqui uma tensão entre as possibilidades
de participação constante, mediada pelas tecnologias, e uma
necessidade de “descanso digital” para garantia de um bem-estar
mínimo.

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