Outras Palavras

Clique para compartilhar o link do texto original

Por Áurea Carolina

Enfim chegará o momento
em que teu sofrimento não será em vão
E mãos desatadas de ti apartadas
em ti se reencontrarão
Olha o povo na rua
Olha o som da vitória
Olha a voz da memória
nas quebradas da Maré
Maré, canção de André Mussalém

Nos últimos dias,
com o aparecimento de novos fatos relacionados à execução política
da vereadora Marielle Franco, ficou ainda mais evidente o quanto esse
crime que abalou o Brasil tem produzido efeitos decisivos sobre o
momento histórico que estamos atravessando. Conforme noticiado pela
imprensa, as investigações sobre o caso chegaram a um possível
envolvimento da família Bolsonaro com os assassinos, em uma trama
que desencadeou imediatamente reações desesperadas do presidente da
República, do ministro da Justiça e do procurador-geral da
República, entre outros atores bolsonaristas, que trataram de
desqualificar a denúncia sem que houvesse uma conclusão definitiva
do processo investigatório.

Independentemente
dos desdobramentos que se seguirão e da verdade sobre os fatos, a
morte premeditada de Marielle e, por consequência, do seu motorista
Anderson Gomes, é um marco que sintetiza a fermentação de
profundos abalos na estrutura da sociedade brasileira. Presenciamos
um cenário em transformação. Forças conservadoras e autoritárias
se debatem raivosas, mas também atualizam formas mais racionais e
organizadas de infiltração na vida cotidiana. As esquerdas
convencionais têm pouca capacidade demonstrada, até o momento, de
coordenar esforços e promover ações de base para retomar a
democracia institucional. Emergem experiências inovadoras de feição
antissistêmica a partir das lutas feministas, antirracistas, LGBTI,
indígenas, entre outras, por condições dignas de existência.

O símbolo de
Marielle interpela tudo isso. Detratores da memória de Marielle
insistem, sem sucesso, em negar a sua extraordinária projeção
política. Espalham mentiras, tentam abafar o caso como se fosse mais
um número para as estatísticas de violência, querem esvaziar a
pergunta insuportável para eles – quem mandou matar Marielle? –
com a pergunta estúpida de quem teria mandado um homem em sofrimento
psíquico dar uma facada em Bolsonaro.

O surto conservador
diante do fenômeno, contudo, é compreensível. A figura de Marielle
provoca um curto-circuito nas emoções daqueles que se sentem
ameaçados pelo poder encarnado por ela: mulher, negra, bissexual,
mãe, favelada, acadêmica, altiva, sorridente, engajada, eleita. A
miséria subjetiva causada pelo patriarcado e pelo racismo impede que
se reconheça tanta alteridade.

[...]

Uma imagem
autoexplicativa dessa pane mental talvez seja o exibicionismo de
homens brancos ostentando armas ou fazendo gestos de armas como se
aquilo pudesse lhes dotar de um poder que confessam não possuir por
eles mesmos. Os brutamontes não aguentam uma mulher livre,
empoderada por sua própria trajetória. Em tempos de renovada
franquia do conservadorismo no Brasil, Marielle se tornou alvo
emblemático do ódio.

Porém, a chama
mobilizadora que atravessa Marielle, acesa muito antes do seu
florescer público, se alastra com a sua execução. O encontro de
lutas no corpo político de Marielle é a metonímia de como têm se
formado redes de cooperação entre diversas lutas em uma chave
interseccional. Uma luta puxa a outra. O que dá resultado é o fazer
coletivo, a intervenção direta sobre os territórios, as alianças
construídas entre quem se movimenta para mudar as coisas. O exemplo
de Marielle comprova essa sabedoria experimentada na prática.

Por tabela, declina
rapidamente o ranço esquerdista das grandes teses e manias de
protagonismo desconectadas das realidades concretas das pessoas.
Abre-se aí uma das fronteiras mais promissoras da transição
democrática que está em curso no Brasil: começa a se afirmar um
poder que vem da organização autônoma de mães e familiares de
vítimas da violência estatal, estudantes negros e pobres, moradores
das periferias, religiosos progressistas, educadores e comunicadores
populares, artistas e agentes culturais, trabalhadores de serviços
públicos que lidam na ponta com demandas da cidadania, defensores
dos direitos humanos e do meio ambiente, ativistas urbanos e muitos
outros coletivos.

Tais experiências
também começam a se lançar para a ocupação do sistema político,
como fez Marielle. Na manhã de 15 de março de 2018, o dia seguinte
ao assassinato, milhares de Marielles brotaram no chão da
Cinelândia, em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde o
corpo da nossa irmã era velado. Eu estava lá e vi isso acontecer. A
multidão tinha o rosto de Marielle. Ali estava exposto o símbolo
gigante que ganhou o mundo porque consubstancia uma linguagem
universal. Marielle, imortal, é um chamado de coragem. Como na
belíssima música “Maré”, de André Mussalem [ouça
e veja o clipe aqui]
, o Brasil não é o mesmo depois dessa voz
que não cala nas quebradas.

The post Seiscentos dias sem Marielle appeared first on Outras Palavras.

Leia o texto completo em Outras Palavras