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Às vésperas de audiência que vai rever caso, ato público de apoio a Babiy aconteceu em SP; dançarina negra foi condenada por crime que afirma não ter cometido

Babiy Querino foi presa em janeiro de 2018 depois de ser reconhecida pelo cabelo e pela cor da pele| Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

Barbara Querino, 21 anos, está começando de novo. Presa por um crime que ela afirma não ter cometido e com provas da sua inocência por um ano e oito meses, a jovem dançarina está na rua desde o começo de setembro. Em janeiro de 2018, Barbara foi presa depois de ser reconhecida, de forma irregular, pelo cabelo e pela cor da pele por dois assaltos.

Agora, ela enfrenta o tudo ou nada: nesta terça-feira (29/10), o seu caso será reavaliado em uma audiência que pode determinar a sua inocência ou fazê-la voltar para a prisão.

Na véspera de um dos dias mais importantes de sua vida, Babiy, como é conhecida, recebeu o apoio e solidariedade de ativistas dos movimentos negros, feministas e pelo desencarceramento. O evento foi realizado na sede da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo).

Em entrevista à Ponte, Barbara conta a expectativa para a audiência que vai determinar o seu futuro. “Eu tô acreditando muito na possibilidade de que amanhã vai ficar tudo bem. O que eu quero que aconteça nessa audiência é que eles reconheçam que uma negra e o movimento de negros mostraram para eles que eles estão errados, que eles são racistas e genocidas. Eles querem nos matar, mas não vão conseguir”, argumenta.

“No começo da outra semana eu estava muito nervosa, porque essa audiência é a minha vida, né? Eu tô na rua, mas tem todas as questões de eu não poder passar das 22h, de não poder viajar… essa audiência serve para eliminar tudo isso e para provar pra eles que eles erraram comigo e erraram com outras pessoas”, crava Babiy.

O apoio tem sido fundamental para que Barbara mantenha a força e a saúde mental durante esse período. “Se eu estivesse sozinha já teria surtado. Mas como eu sei que não estou, eu fico mais forte para rebater o sistema brasileiro e mostrar que eles erraram, que precisam reconhecer o erro deles. Eles têm que ter uma consciência de que o que aconteceu comigo acontece com outras pessoas. Quero que eles entendam o real motivo do por que nós continuamos sendo presos e presas por sermos negros e morarmos nas periferias”, critica a dançarina.

Babiy recebeu apoio de advogados e ativista em evento na OAB-SP | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

Intitulado “Juristas pela Descriminalização de Corpos Negros”, o evento de apoio à Babiy foi organizado pelas seguintes comissões estaduais da OAB-SP: Jovem Advocacia, Mulher Advogada, Direito Penal, Direitos Humanos, Diversidade Sexual, Igualdade Racial, Justiça Restaurativa, Política Criminal e Penitenciária, Processo Penal, e Graduação, Pós-Graduação e Pesquisa.

Além da OAB-SP, participaram da organização do evento a Mandata Quilombo, da deputada estadual Erica Malunguinho, e diversas entidades ligadas aos direitos humanos e ligadas ao direito de defesa, como o IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), o IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa), o Grupo Prerrogativas, da ABJD (Associação Brasileira de Juristas pela Democracia) e a Amparar (Associação de amigos e familiares de presos/as).

Durante sua fala oficial, Barbara afirma que não estava lá para falar dela, mas sim da realidade que conheceu dentro da prisão. “Muitas pessoas não conseguem ir atrás, mas lá dentro tem muitas pessoas inocentes como eu. Ali eu conheci muitas mães de família, muitas filhas, muitas irmãs que estavam ali por coisas mínimas. As pessoas encarceradas hoje são vítimas de uma sociedade que rouba da gente, me roubaram tudo. Graças a Deus eu não me perdi, porque eu sabia que tinham pessoas que estavam aqui por mim”, relata Babiy.

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“A única diferença é que elas não tem um álibi que prove que elas não estavam no local. Essa é a questão: por ser negro, você tem que provar que não estava no local porque a sua palavra não é válida. Eu senti isso e mesmo provando eu fui sentenciada”, continua.

Público que compareceu à OAB-SP para apoiar Babiy | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

A dançarina também enfatiza a atuação do sistema judiciário branco e como a prisão acaba com os sonhos de jovens negros. “Eu olhei para um juiz branco na minha frente e ele não olhava ma minha cara. Eu não vou ficar quieta. Quando falamos em crime, quando falamos em estéticas negras, temos que entender que tudo é roubado da gente: nossa liberdade é roubada, nossas famílias são desestruturadas, nossos sonhos são roubados. Quando temos todos esses roubos, ficamos sem perspectivas de vida”.

Babiy afirma que, para entender o que acontece na sociedade hoje, temos que olhar para as periferias, para a forma que a polícia aborda jovens negros e negras na periferia. “O Judiciário branco te condena sem olhar nos seus olhos. Temos que entender que não é só por mim, tem muito mais gente lá dentro, são muitos casos que eu posso falar que eu conheci. Pessoas que estão lá há 3, 4 anos por crimes que não cometeram. O negro, não vou nem falar bandido, o negro para eles é negro morto ou negro preso. A minha audiência não seria necessária se o sistema trabalhasse de forma coerente e se não fosse racista”, critica.

Falas sobre o reconhecimento irregular, o encarceramento em massa e o genocídio da população jovem, negra e periférica ganharam força durante o ato. Críticas contundentes ao sistema judiciário e aos advogados brancos também marcaram as falas.

“O processo da Barbara estabeleceu um marco na maneira de discutir política em São Paulo, porque ela chamou o protagonismo do processo criminal para ela. Ela tirou das mãos do homem branco a história de uma mulher negra. Ela está contando a sua história a partir da sua perspectiva”, analisa Flavio Campos, atual advogado do caso. “Trabalhar nesse processo foi resgatar a minha autoestima e isso diz muito sobre ser negro. Resgatar autoestima é o segredo a vitória”, completa.

Da dir. para esq.: Flavio Campos, Claudia Luna, Simone Henriquez, Barbara Querino, Allyne Andrade e Thayna Yaredy | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

Quem também falou durante o evento foi Railda Alves, fundadora do Amparar (Associação de Amigos e Familiares de Presos). “A gente sabe quem são esses corpos que vão parar na cadeia. Temos que cobrar do Ministério Público também, não só do juiz. Por que o preso é torturado dentro da cadeia, as famílias são torturadas e todo mundo é conivente? Porque todo mundo que está lá dentro é preto. As coisas só mudam na nossa vida quando vivemos na pele. Sabe por que você foi presa, Babiy? Por que você é uma mulher preta. Se você fosse branca não iria. Tem que pedir indenização para você a para as outras Babiys na cadeia”, brada Railda.

Sobre os reconhecimentos irregulares, feitos com fotos expostas em redes sociais, Babiy foi enfática: “essa prática que a polícia tem é errada, mas você não vê eles nos Jardins parando as pessoas e fotografando. Você vê na periferia, você vê na quebrada. Eles não vão parar, eles se veem no poder de colocar você como uma criminosa, você sendo ou não”, argumenta.

“Na cadeia não tem estrutura nenhuma, você é humilhado 24 horas, você vive em uma grande opressão tendo que viver com as mãos nas costas. Eles querem um respeito, mas eles não te respeitam, te agridem se você falar num tom que eles não gostam. Você tem que se calar lá dentro. Durante um ano e oito meses eu fiz isso, eu fiquei quieta. Se eu não tivesse me calado, eu estaria lá até hoje”, aponta Barbara.

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