Rede Brasil Atual

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São Paulo — Aos 34 anos de idade, a curitibana Raissa Fayet tem apresentado ao público brasileiro, ao longo de 2019, sua trilogia Zoiúda. Cantora, compositora, atriz e ativista, primeiro lançou o single homônimo, cujo título é inspirado numa fala ouvida há mais de 10 anos, no espetáculo do grupo Kundun Balê, pertencente ao primeiro quilombo do Paraná. “Zoiúdo, vai matar os ‘mal’ do mundo.”

A frase nunca saiu da sua cabeça. Anos depois, ao participar de um ritual com medicinas da floresta, a “canção chegou”. “Eu recebi essa canção. É a expansão da consciência, a abertura do portal, o terceiro olho, para começarmos a enxergar as coisas de outra forma. A ideia é expandir a consciência e encontrar o sagrado que existe dentro da gente e respeitar o sagrado da Terra”, explica Raissa Fayet, no programa Hora do Rango do último dia 31.

Filha de pai pernambucano e mãe paranaense que tocam e cantam, Raissa cresceu imersa no ambiente artístico da família, estimulada à arte desde pequena. “Sempre teve instrumentos em casa, muita música e, eu curiosa, comecei a pedir pra aprender as músicas no violão”, recorda. A primeira canção aprendida foi Na hora do almoço, de Belchior. A criança cresceu, virou adolescente e foi estudar teatro até se formar em cinema. Ainda fez conservatório de música e começou a escrever as primeira canções. “O caminho foi super aberto para que eu vivesse de arte desde muito jovem”, explica.

Em 2004, foi selecionada para um edital do governo do Paraná. “Eu tinha 18 anos e então comecei a ganhar dinheiro fazendo música. Fiquei cinco anos nesse projeto”, relembra, com viagens para o interior do Paraná para dar oficinas de música, teatro, poesia e circo. Raissa tomou o caminho do teatro de bonecos, compondo trilhas sonoras de espetáculos. “Fui entendendo como poderia sobreviver como artista, encontrando várias vertentes, não podia ser só uma coisa específica. É muito difícil ser só atriz de teatro e cinema no Brasil. Então fui ampliando as possibilidades.”

Raissa Fayet morava em Guarapuava, interior do Paraná, trabalhando com teatro de bonecos, quando recebeu um chamado do pai. Amigo do guitarrista Alexandre Menezes, o Xandão do grupo O Rappa, que tinha um estúdio em Curitiba, o pai a incentivou a formar uma banda e gravar o que vinha compondo. Com o patrocínio inesperado do dono de uma construtora, nascia então o primeiro álbum, espécie de demo, intitulado Raissa (2012). O disco acabou tendo a participação de quase todos os integrantes do O Rappa, com algumas canções que depois seriam gravadas novamente no álbum , em 2017, como Maria da paz, feita em homenagem a vó, e Uma cigana de fé, essa tocada ao vivo no programa. Por isso, tem músicas compostas quando Raissa ainda era uma jovem de 16 anos de idade.

Consumo sem limites

A cantora e compositora não separa sua visão de mundo de sua obra artística, muito pelo contrário. O conceito da trilogia Zoiúda deixa isso evidente. Se o primeiro single é sobre a expansão da consciência, o segundo, batizado de Capim e lançado em setembro, trata do entendimento da cadeia de consumo. Composta em parceria com Russo Passapusso, da banda Baiana System, a canção começou a ser escrita na Chapada dos Veadeiros (GO), numa reflexão sobre a “permanência do tempo”, e foi concluída no Chile.

Capim fala um pouco sobre a roda cármica, sobre continuar girando em volta do rabo sem conseguir se libertar, e sobre a roda da produção”, explica Raissa. E exemplifica: “A gente compra coisas que vêm da China. É extraída no Brasil, vai pra China, produz, pega um navio, volta pra cá. Olha o tamanho do impacto pra fazer um produto, que vai gerar um resíduo, e só pelo nosso conforto a gente faz todo esse impacto na Terra e na nossa existência. Então, Capim traz a reflexão sobre pensar a nossa forma de consumo. Vale a pena?”, questiona.

Preservação ambiental

A reflexão proposta pela música Capim se traduz nas atitudes de Raissa Fayet como ativista. Logo após lançar o álbum , recebeu o convite para gravar um depoimento contra um projeto que previa desmatar em torno de 70% da Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana, no Paraná. Ela recorda: “Pensei: ‘Caramba, só gravar um vídeo, não vai adiantar nada’.”

Marcou então uma reunião com os ativistas e propôs fazer um clipe. Reuniu outros artistas e logo nasceu Pare e preste atenção. Em duas semanas, o clipe já tinha um milhão de visualizações, causando pânico entre os deputados proponentes do desmatamento. “Foi a maior campanha ambiental do Sul do Brasil”, afirma. O projeto acabou sendo arquivado.

Devido ao envolvimento com a causa da APA Escarpa Devoniana, Raissa explica que acabou não se dedicando à divulgação do disco como gostaria. Algo que, entretanto, não a incomoda. “Pra mim, não faz o menor sentido se não estiver fazendo alguma coisa pela nossa existência, pela existência da Terra, é muito mais importante isso do que o meu ego artístico.”

Tempos depois, ela se envolveu em outra causa ambiental: a construção de um complexo industrial em frente à Ilha do Mel, com grande impacto e o desmatamento de 5 milhões de metros quadrados de Mata Atlântica. Surgiu assim mais um clipe-denúncia, Salve a Ilha do Mel. O resultado novamente foi positivo e o projeto segue parado. “Eles estavam quase começando a aprovar e deu uma segurada”, pondera a artista.

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O boi do sistema

Em 2016, Raissa Fayet gravou um filme viajando de motorhome por Uruguai, Argentina e Chile. A jornada durou 30 dias, com 15 pessoas dentro do veículo. Chamado De mãos dadas, o filme está em processo de edição e ainda não foi lançado.

Na ocasião, ela recém havia decidido se tornar vegana e, ao tomar ciência do cardápio que seria servido durante as filmagens, levou um susto. Salsicha, leite, manteiga, entre outros produtos de origem animal. Decidiu então levar alimentos por conta própria, como arroz integral, grãos, granola, açúcar mascavo, cogumelos e tomates secos, entre outros itens. “Fiz uma ‘malona’ com comida e preparava minhas refeições em horários paralelos aos dos outros. Consegui ficar todo o tempo 100% vegana”, comemora, ao destacar que a experiência foi o grande teste para seu veganismo.

Única vegana no grupo, as muitas horas de estrada dentro do motorhome fizeram com que o assunto da alimentação saudável fosse, vez ou outra, discutido pelos integrantes do filme. E assim surgiram nas conversas as grandes empresas do ramo das carnes, como JBS e a marca Friboi. Na cabeça da artista veio o estalo. Friboi…Friboi, Free Boi. “Pensei: ‘Nossa, que bom que eles deram esse nome pro frigorífico, que na verdade podia ser ‘vaca livre’ ou ‘boi livre’.”

E eis que assim surgiu a terceira canção da trilogia, Free Boi. Depois de Zoiúda tratar da expansão da consciência, e Capim falar sobre o entendimento da cadeia de consumo, Free Boi, a ser lançada no próximo dia 21 de novembro, propõe a libertação do sistema. “Porque nós somos os bois do sistema”, arremata Raissa. “Estamos comendo plástico, tempo e veneno, mas podemos transformar. Essa é a ideia.”

União dos artistas

Vamos derrubar o sistema
Vamos derrubar
Adubar outro sistema
Que não quer nos matar

Vamos navegar com a terra
Chega de tanto veneno
Vamos navegar
Vamos navegar
Vamos navegar

Os versos fazem parte de uma canção inédita, que Raissa Fayet apresentou em primeira mão no programa Hora do Rango. Por trás do convite em “derrubar o sistema”, a curitibana defende a união dos artistas em causas importantes para a humanidade. “A gente precisa comunicar e dizer o que está acontecendo, e está muito sério o que está acontecendo”, enfatiza.

Ela acredita que o brasileira está anestesiado, imerso num mar de informações com muitas fake news. “É tanta informação vazia que faz com que as pessoas fiquem anestesiadas. Vejo as pessoas na inércia, não colocando pra fora o que de fato estão sentindo. Acomodadas, parece que não vai adiantar nada fazer algo. A gente precisa ir às ruas. E se não for, usar os mecanismos de comunicação. Esse despertar é necessário”, afirma Raissa. “Somos todos, realmente, os bois desse sistema. Esses caras criaram essa história para nos amarrar e a gente trabalha pra eles. A gente está feliz com esse sistema? Está tudo bem? Não está.”

É nesse contexto que ela defende a importância de haver uma grande união que resulte em transformações. Por isso, se incomoda com a falta de engajamento de alguns artistas, mais preocupados em “não perder seguidores do que com a existência”. “Eu fico muito chateada. Como comunicadores, temos que comunicar coisas importantes.”

Para ela, os povos originários e as florestas são alguns dos principais temas da atualidade e que necessitam de apoio. “A gente vai ser extinto se não começar a fazer coisas já”, afirma a compositora da trilogia Zoiúda, disposta a derrubar o sistema.

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