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Professor de Universidade de Buenos Aires (UBA), Alejandro Horowicz é especialista em peronismo | Foto: Arquivo Pessoal

Luís Eduardo Gomes

No último domingo, a Argentina elegeu Alberto Fernández como seu novo presidente. A vitória eleitoral consagrou o retorno do peronismo ao poder, a partir da chapa Frente de Todos. Durante passagem da reportagem do Sul21 pelo país na última semana, conversamos com o sociólogo e professor titular da Universidade de Buenos Aires (UBA), Alejandro Horowicz, que escreveu o livro “Os Quatro Peronismos” para tentar entender o que significa essa corrente política dos nossos vizinhos, que reúne partidos e militantes que vão desde a esquerda até a direita.

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Os quatro peronismos

Horowicz explica que, em seu livro, tratou de dar uma ordem cronológica aos movimentos políticos que surgiram em torno do militar e ex-presidente argentino Juan Domingo Perón. “O primeiro peronismo vai de 1945 a 55. Constitui-se em 17 de outubro com uma mobilização em defesa do coronel Perón preso”, explica Horowicz.

Nessa época, Perón estava preso após um golpe cívico-militar destituir o governo, do qual ele fazia parte, em 9 de outubro de 1945. Oito dias mais, uma mobilização de 300 mil pessoas exige a sua libertação — sua popularidade advinha de ter criado leis em defesa dos trabalhadores como Secretário do Trabalho e Segurança Social. Os militares cedem e libertam Perón, que então discurso para a multidão. “O 17 de outubro é um descobrimento para sociedade argentina e para o coronel Perón”, diz Horowicz.

Ele é eleito presidente no ano seguinte, com 52,4% dos votos, e, segundo Horowicz, governa em um momento de mudança de ordem econômica mundial, no pós-Segunda Guerra, com uma agenda de valorização da indústria nacional e de justiça social. Ele se reelege em 1952, com 62% dos votos, e governa até um novo golpe militar em 19 de setembro de 1955, quando se exila em Madri.

Alejandro Horowicz é autor do livro “Os Quatro Peronismos” | Foto: Reprodução

“Esse peronismo cai por seu próprio peso em setembro de 1955. Tendo todas as possibilidades militares de vencer e apoio suficiente para fazê-lo, Perón decide não entrar em batalha. E aí começa o segundo peronismo, o peronismo da resistência, de enfrentamento constante com os poderes estabelecidos. É um peronismo que não consegue se descolar de um estreito segmento, o movimento trabalhador”, explica Horowicz. “Esse peronismo que tem como última instância o regresso de Perón à pátria, em 17 de novembro de 1972. Agora veja, aos líderes sindicais peronistas, interessava mais que ele seguisse em Madrid e eles em Buenos Aires, porque, desse modo, Perón não podia fazer muito mais do que ratificá-los desde lá. Mas com o retorno de Perón e a ebulição que produz uma mudança drástica em toda a América Latina, começando pela Revolução Cubana (1959) e o efeito que ele tem sobre a juventude latino-americana, ocorre uma virada brutal à esquerda. Esse efeito também se dá na Argentina de maneira notável e o peronismo e o próprio Perón se veem obrigados a modificar suas três bandeiras tradicionais: independência econômica, soberania política e justiça social. Mudam a última para socialismo nacional. É claro que Perón nunca deixou claro em que consistia o socialismo nacional e cada vez que disse algo se parecia muito ao socialismo sueco. Mas na Argentina e em suas condições políticas, isso era ressignificado pela Revolução Cubana e isso significou o ingresso de multidões de todas as correntes na juventude peronista”, diz.

Em 11 de março de 1973, são realizadas eleições na Argentina, com Perón proibido de concorrer. A candidatura peronista de Héctor José Cámpora ganha a eleição e, logo após assumir, renuncia para convocar um novo pleito, dessa vez com Perón liberado para disputar. Em uma chapa com sua então esposa, Isabel, a Isabelita, Perón recebe 60% dos votos. “Nesse terceiro peronismo se produzem grandes mobilizações populares e, em 30 de junho de 1973, regresso definitivo de Perón à pátria, se produz uma mobilização de 2 milhões de argentinos, um de cada três votantes se mobiliza. Pois bem, isso é reprimido pela direita brutalmente, mas fica claro que a direita tinha um exíguo contingente militante e que a multidão respondia às bandeiras do terceiro peronismo”, diz Horowicz.

Perón morre em 1º de julho de 1974. “Essa morte significa o encerramento de todo um capítulo da história argentina, porque, em última instância, entre 1945 e a morte de Perón, se aplicam distintas versões de uma política industrial de substituição de importações. A morte de Perón encerra definitivamente esse ciclo”, diz.

Horowicz destaca que, já no governo de Isabelita, acontece uma reacomodação de forças políticas e econômicas no país, potencializada pela crise internacional do petróleo. “É nessas condições que ocorre uma mudança de estratégia nas classes dominantes, que é o plano do Engenheiro Celestino Rodrigo [ministro da Economia de Isabelita]. O engenheiro era praticamente desconhecido e seu plano não significa quase nada hoje, mas configurou-se como a estratégia principal da classe dominante, que se quis aplicar em escala homeopática com Isabelita Perón e em escala furiosa no governo do general Videla”, diz, referindo-se ao general Jorge Rafael Videla, que chega ao poder após novo golpe militar em março de 1976.

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Já o quarto peronismo seria um movimento sem ligação histórica. “Simplesmente o que pode fazer e o que se faz é buscar uma readequação em certas condições mais ou menos favoráveis nos termos que impõe o mercado mundial”, fiz o professor.

Quem são os peronistas hoje?

No Brasil, costuma-se dizer que o peronismo tem correntes que vão da esquerda à direita. Isso ocorre porque, por exemplo, os ex-presidentes Carlos Menem e Néstor Kirchner eram peronistas, mesmo o primeiro sendo vinculado a políticas econômicas neoliberais e o segundo à corrente de presidentes de centro-esquerda que chegaram ao poder na América Latina no início da década passada. Nessa eleição, o peronismo se uniu em torno de Alberto Fernández e da ex-presidente Cristina Kichner, mas Horowicz avalia que trata-se, principalmente, de uma união eleitoral.

“O peronismo que nós vemos como frente eleitoral é uma frente de unidade de inação. Esses elementos só podem estar juntos sob a condição de não fazer nenhuma outra coisa a não ser apresentar uma chapa eleitoral. Se tiverem que produzir algum tipo de enfrentamento político, não estão em condições de fazê-lo. Isso se viu a todo o momento na falta de oposição extra discursiva ao governo de Maurício Macri. A oposição se fazia pela televisão. Quer dizer, diziam uma coisa na televisão e votavam outra coisa no Congresso. A prova é que Macri governou durante quatro anos sem nenhum tipo de complicação de nenhuma natureza estando todo o tempo em minoria parlamentar”, diz.

Qual vai ser o comportamento desse modelo ao assumir um país em profunda crise econômica e social? “O mais provável é que alguma de suas versões, sobretudo a que encabeça o presidente eleito, vai ser a que vai resolver a equação de forças. É possível formular de antemão qual vai ser esse comportamento? Dentro de certos limites, sim, porque a crise é tão brutal e as condições são tão ruins que não há mais remédio do que tomar algumas medidas de controle real da economia para poder sair do fundo do poço. Isso, como já vimos ocorrer em 2003, não é um programa, mas simplesmente sair do fundo do poço. O que vem se sucedendo na Argentina é que saindo do fundo do poço, se produz uma recomposição, organiza-se o próximo ciclo de saque para voltar ao fundo do poço”, afirma Horowicz.

Alejandro Horowicz (centro) classifica o kirchnerismo como uma mistura entre o terceiro e o quarto peronismo | Foto: Arquivo Pessoal

Onde se encaixa o Kirchnerismo?

Apesar de o peronismo ser um movimento amplo e englobar diversas forças políticas, a avaliação que tem se feito do cenário eleitoral argentino é que o pleito do domingo passado marcou o retorno do kirchnerismo ao poder, mesmo Fernández tem sido um crítico do governo da ex-presidente Cristina, que agora será a vice-presidente.

Para Horowicz, o kirchnerismo se enquadra dentro dessa equação peronista como um movimento que tem a “música” do terceiro peronismo e a “letra” do quarto. “É uma gestualidade que tem termos que remetem às cores dramáticas da América Latina e aos enfrentamentos, ao mesmo tempo que não muda a carta orgânica do Banco Central, o IVA segue sendo 21%, o que é um monumental imposto à pobreza. Não há nenhuma dúvida de que o IVA não afeta da mesma forma os que recebem a menor parte da distribuição de renda e aqueles que estão na parte de cima”, diz.

Para o professor, Fernández é também um homem ambíguo dentro dessa equação, sendo ao mesmo tempo alguém que defende justiça social e adotar uma postura econômica liberal-conservadora. “Fernández é um homem amplo em matéria de direitos e é um homem muitíssimo menos amplo em matéria de enfrentamentos. A ideia de que é possível organizar hoje, nestas condições, um acordo entre empresários e trabalhadores que respeitem os interesses básicos dos trabalhadores é um ‘conto japonês’. Neste momento, um acordo com os empresários somente favorecerá os empresários e, sobretudo, o que é a base do argumento do outro lado, vai permitir uma continuidade laboral, o que significa não sair do mercado. Não é outra coisa senão a continuidade das condições existentes”, prevê.

Horowicz avalia que um dos elementos de sustentação do peronismo, que são os sindicatos, já não tem a mesma força do passado. “Os trabalhadores já não se definem politicamente com o peronismo. Os trabalhadores existem como cidadãos e podem votar as coisas como mais diversas. Era impensável, por exemplo, que os trabalhadores da educação tivessem votado em Macri. Tiveram muitos bons positivos para criticar Cristina, motivos sobravam, mas uma coisa é ter motivo para criticar e outra coisa é votar em Macri. Aqui fica claro que os valores compartilhados da sociedade argentina, muito além do que se vota, o macrismo hegemoniza com a lógica do ‘próprio culismo’. Só importa eu, se eu vou bem, o resto não importa. Como o capitalismo não é somente o que eu tenho, mas o que tenho mais do que você. Que você não tenha é algo particularmente valioso. Eu estou disposto a ter menos ao preço de que você tenha muito menos. Isso vai reconstruir a distância”, diz o sociólogo.

E o futuro?

Para Horowicz, a única coisa que Fernández poderá fazer é “encerrar um ciclo de saques” que extraiu o que era possível do povo argentino e entregou para o sistema internacional. No entanto, ele crê que há uma mudança no horizonte que não passa pelas forças que disputam o poder hoje na Argentina.

“A mudança de verdade que está ocorrendo está nos ventos que sopram na América Latina a partir do ‘êxito do neoliberalismo’, que não se expressa em partidos, mas em uma ordem política e econômica internacional, com estes valores. Quando as vítimas dessa ordem passam de um certo ponto, quando os que se querem fora e os que se querem dentro estão todos em condições de enorme precariedade, o sistema tende a implodir. O Chile é a prova manifesta de que ocorre quando três décadas de políticas neoliberais são aplicadas consistentemente e o modelo ‘maravilhoso’ nos mostra sua cara legítima, que é um policial armado até os dentes golpeando um menino no chão. Essa é a situação real. Agora veja, por trás do policial há outro policial que o controla. Na frente do policial e atrás do menino, está o povo chileno. Essa diferença de qualidade moral vai terminar se impondo e essa diferença de qualidade moral vai renovar a ordem política sul-americana”.

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