The Intercept

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‘Eu sou diferente e gosto de ser assim como sou. Não sou como um padrão, parte do grupinho que segue a tendência.’

Ilustração: Christopher Dombres/Domínio público

AVISO

Este texto contém relatos de assédio, violência doméstica e estupro.

Patrícia Fernandes, 19 anos, foi considerada um ‘menino’ ao nascer, mas começou a se perceber ‘feminina demais’ enquanto crescia. Contra a expectativa de sua família, a jovem se reconheceria uma mulher trans anos depois.

Ambos moramos em Sapucaia do Sul, cidade a 30 km de Porto Alegre, e nos conhecemos em meados de 2018. Amigos, falávamos sobre nossas vidas, angústias e desilusões. Na época, Patrícia estudava e procurava emprego porque queria sair de casa. A seu pedido, tentei ajudá-la a achar vagas de trabalho abertas e refiz seu currículo, sem sucesso. Pouco a pouco, a cada porta fechada ou olhar atravessado na rua, testemunhei parte da transfobia que Patrícia sofre diariamente.

Desde pequena, por não se enquadrar nas expectativas dos outros sobre seu gênero, conviveu com agressões. Esse ódio aumentou quando, adolescente, reconheceu-se mulher trans. Foi sendo abandonada pela família e continuamente rejeitada pelo mercado de trabalho. Viveu assim até chegar o final de 2018 e Patrícia me contar uma novidade: expulsa de casa, reprovada na escola por um professor transfóbico e com dificuldades de encontrar emprego, havia decidido recorrer à prostituição.

De repente, minha amiga se tornava parte dos esmagadores 90% da população trans brasileira que realizou trabalho sexual em algum momento da vida. Desde então, a jovem já morou em diferentes cidades, casas, apartamentos e até em boates. Hoje, Patrícia busca mais estabilidade e uma nova profissão. Diz estar cansada e desgastada, mas não quer abandonar a prostituição se isso significar a perda da independência que conquistou.

Conversamos em junho deste ano, por cerca de uma hora no apartamento que ela dividia com uma amiga, em Sapucaia do Sul. Nesse dia, Patrícia narrou sua vida inteira: dos momentos mais difíceis aos mais felizes. ‘Contar tudo foi muito libertador. Tirei um fardo que só eu carregava’, me disse.

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Foto: Arquivo pessoal

Descobri que eu era diferente ainda pequena. Aos dois anos, já tinha uma bonequinha azul que era a minha filha. Brinquei com ela até o cachorro estraçalhar. Também nunca gostei de vestir a roupa que a mãe comprava para mim. Queria era botar vestido. Tive fases: achei que era gay, bissexual, andrógina, travesti… Aos 15 anos, troquei todo o meu guarda-roupa – do nada. Antes eu tinha roupas de menino, mas sempre dava um toque feminino nelas, uma cortadinha na camisa ou um lápis de olho.

Quando eu troquei minha maneira de vestir, não pedi autorização a ninguém. Disse ‘vou trocar minhas roupas e não tô nem aí!’. Mas ainda havia uma confusão. Eu me sentia indefinida. Só depois de assistir a uma reportagem na TV que percebi quem eu era, que nasci com uma alma de mulher em um corpo de homem – e com o tempo fui me adequando a ele. Eu tinha uns 16 anos e falavam da novela ‘A força do querer’, sobre um dos personagens que se descobria um homem trans.

Até minha mãe dizia que, ‘se eu queria ser mulherzinha, tinha que agir como uma’.

Eu via ele se batendo porque não queria o corpo que tinha e eu pensava ‘nossa, eu faço isso também’. Na reportagem, tinham outras pessoas sendo entrevistadas e eu me identificava com todas, ‘eu sou assim, agora eu sei quem eu sou’. Aí eu me encaixei e vi que, na verdade, eu era a Patrícia, uma menina trans.

Mas, em casa, nunca fui aceita. Desde quando meu padrasto viu que eu era diferente, passou a me tratar mal e me batia bastante. Até minha mãe dizia que “se eu queria ser mulherzinha, tinha que agir como uma”. Aí eu estava sempre na cozinha, limpando, cozinhando. Se não fazia, apanhava. Desde pequena tive a obrigação de cuidar dos meus irmãos e limpar toda a casa. Era tudo minha responsabilidade e, quando meus irmãos faziam algo errado, quem apanhava era eu, a culpa era sempre minha.

Quando meus pais iam sair, meu padrasto me mandava tomar banho, e, enquanto eu estava no chuveiro, eles saíam para comer. Eu achava que eles estavam lá me esperando, mas já tinham saído. Pensava ‘ué, eles me deixaram?’ Quando eles chegavam em casa, meu padrasto me batia porque eu tinha sujado a panela para preparar uma comida. Eles nem sequer traziam um lanchinho.

Meus três irmãos tiveram tudo: roupa boa desde pequenos e brinquedos, mas eu vivia de roupa de doações dos outros. Em um Natal, meu irmão ganhou um tênis de marca caro, minha irmã uma boneca e meu irmãozinho o brinquedo que ele queria. Para mim, deram só um colarzinho do Inter de R$ 1. E eu chorei e agradeci porque achei maravilhoso que meu padrasto se lembrou de mim. Mas eu queria era ganhar um DVD da Lady Gaga!

Já na rua, eu era mais livre na rua do que dentro de casa, onde era aquele inferno. Às vezes, nem ir para a escola eu podia, porque precisava cuidar dos meus irmãos. Desde os meus 12 anos, sempre trabalhei. Vendi meia, trufa, trabalhei de doméstica, em lanchonete, cuidei de idosa, de criança… Sabia que se eu não fizesse por mim, ninguém ia fazer. Na época, eu trabalhava para poder comprar um cachorro-quente que fosse, mas mesmo assim tinha que dar metade do dinheiro aos meus pais, para ajudar em casa, enquanto meus irmãos ganhavam mesada.

‘Eu só queria mais amor dentro de casa’

Além dos meus pais, também tive encrenca com meu irmão, que é um ano mais velho que eu. Ele começou a se revoltar comigo por eu ser trans. Já apontou uma arma para minha cabeça e me ameaçou com faca. Uma vez bateu em mim tão forte a ponto de eu quase ter morrido. Era um inferno. Só queria que minha mãe me desse mais amor, só queria mais amor dentro de casa. Chegou um dia em que precisei fugir.

Foi uma discussão por causa de um carregador de celular. Meu irmão pegou um pedação de piso e veio jogar em mim. Peguei uma barra de ferro para me defender, mas minha mãe começou a chorar e acabei acertando ela por engano. Acabou que meu irmão pegou uma faca escondido e depois tentou acertar minha barriga. “Eu vou matar esse viado desgraçado”, gritava. Ele tinha raiva porque seus amigos tinham interesse em mim, mas ele mesmo não me aceitava.

Foram dias em que passei fome. Tive vontade de comer o jornal que estava no chão.

[...]

Precisei fugir para não ser morta. Fui morar com uma amiga. Na época, ela estava de mudança para Santa Catarina, então desocupou sua casa, que era alugada, para eu morar. Também me indicou no emprego em que ela trabalhava, em um grande salão de cabeleireiros no centro de Sapucaia do Sul. Só que essa minha amiga ganhava R$ 1200 por mês nesse trabalho. Mas quando comecei, meu chefe só me pagava R$ 450 sendo que o aluguel dessa casa era R$ 395!

Isso foi em 2017. Eu trabalhava às vezes do meio-dia às 21h. E a casa era vazia, sem nada, então não tinha o que comer. O que eu comia era quando ia trabalhar. Só que, como eu recebia por mês, no começo, foram dias direto que passei fome. Tive vontade de comer o jornal que estava no chão. Deitava a cabeça no travesseiro e pensava “dorme, dorme, dorme”, mas o sono não chegava nunca porque era muita fome. E eu não podia ir na minha mãe por causa do meu irmão. “Ah, a Patrícia sabe se virar sozinha”, ela disse aos meus tios.

E meu chefe, no salão de cabeleireiros, pagava pouco porque dizia que tinha “desconto”. Fui conversar e ele me respondeu que “o salário que podia me dar era esse e se eu não quisesse ele contratava outra pessoa”. E tinha ameaças “é isso que posso te dar, se você não quer, vai embora”. Mas como é que eu iria embora se era só aquilo que eu tinha para pagar meu aluguel? Aí eu aceitei. Cheguei a contatar um advogado, que só me respondeu que isso ia ser causa perdida para mim.

Fora isso, também fazia faxina nos finais de semana. Eu dava um jeito para me manter. Economizava água, luz, energia e fazia amizades. Recebi de presente uma mesa e uma cadeira, ganhei um fogão em uma promoção no Facebook, comprei uma geladeira e fui montando meu lar, até um dia que meu chefe me deu R$ 400 de salário. Estava sem comida em casa, então pedi para ele, por favor, me ajudar. Aumentou então meu salário para R$ 600, mas pouco tempo depois me demitiu.

Só que aí, nesse meio tempo, uma amiga minha que estava procurando um lugar para morar com o filho pequeno veio morar comigo. Ela foi minha parceira, a gente se ajudou muito e essa foi uma das melhores fases da minha vida. Trabalhávamos, conversávamos muito e, no final de semana, íamos para festas. Fiz 18 anos e já estava morando sozinha, com meu canto e adquirindo minhas coisas com o suor do meu trabalho – há tempos eu tinha essa meta na minha cabeça, só não sabia que ia ser dessa forma.

‘Eu ficava sem ar. Desmaiava e voltava, desmaiava e voltava’

Nessa minha fase em que eu estava maravilhosa, morando sozinha, com 18 anos, tive minha primeira vez. Eu era virgem ainda e pensei “vou aproveitar minha vida!”. Então marquei um encontro com um homem no Tinder. Ele havia dito que a intenção dele era sexo, e respondi que a minha também. Então ele foi me buscar no serviço e fomos para um motel.

Chegando lá, ele foi tirando minha roupa, daí pedi “calma”. Só que eu não falei para ele que era minha primeira vez. Ele arrancou minha roupa e me jogou na cama. A única coisa que eu lembrei de dizer foi “só bota camisinha”. Ele viu que eu não estava gostando, pedi para ele parar e ele não parava. Comecei a bater na parede e eu ficava sem ar. Desmaiava e voltava, desmaiava e voltava. Caí de joelhos, fiquei sem força. Ele parou, sentou, começou a fumar e ficou olhando a situação. Depois, ele olhou para mim e disse: “sabia que eu sou casado?”

Minha demissão do salão de cabeleireiros aconteceu pouco depois disso. Como eu não arranjava faxina nem nada, fui convidada pela minha amiga que havia ido a Santa Catarina para viver com ela, em Sombrio. Fiquei dois meses tentando achar emprego e nada. Foi quando minha mãe começou a me ligar, mandar mensagens, chorando e dizendo que sentia minha falta. Decidi voltar. Não queria ficar lá com minha amiga me sustentando, então voltei para a casa da minha mãe porque estava longe e de boa com a família. Regredi tudo de novo.

‘Eu vou catar papel, mas não vou entrar para prostituição’

Nesse período, tive depressão e voltei a estudar, mas só estudei um ano porque o professor-regente da minha turma se irritou comigo e zerou todas as minhas notas. Eu já era Patrícia na escola, mas ainda não tinha meu nome social nos documentos. Era o nome masculino, só que todos os professores sabiam, então relevavam. Era meu direito colocar meu nome nas chamadas, do jeito que queria.

Esse professor zerou minhas notas porque meu ‘nome’ não constava nos papéis, sendo que ele sabia que era eu. Por causa disso, repeti de ano no EJA. Foi mais um ano perdido em que eu estava me esforçando pra caramba. Aí eu não queria mais viver. Por que ficar nesse mundo se dá tudo errado para mim? É sempre essa coisa, essa dor de cabeça, esse inferno. As pessoas de fora da família, todo mundo gostava de mim, às vezes queriam me ajudar, mas não tinha o que fazer. Cansei da vida.

Nesse dia, saí sozinha de Sapucaia do Sul à noite e andei até a cidade vizinha, São Leopoldo. Fui até o Rio dos Sinos, olhei para a água e cogitei pular. Queria cair lá dentro, me afogar e ninguém ia saber de nada. Mas, no fim, decidi voltar para casa. Ao chegar, meu padrasto já jogou em mim um prato de comida e gritou “só quer comer! Já tá com 18 anos na cara e não quer nada da vida”, disse. Mas olha tudo o que fiz, sabe? Entrei no quarto, deitei na cama e pensei “queria tanto dormir agora e não acordar mais”. Apagar! E apaguei. No outro dia, acordei melhor.

Nessa hora, apareceu uma outra amiga minha, a Mariele. A gente tinha se afastado durante um tempo porque ela havia entrado para a prostituição, e eu não queria entrar. Eu sempre dizia “posso fazer qualquer coisa, vou catar papelão na rua, mas não vou entrar pra prostituição”. Mas a Mariele apareceu de novo, e ela estava super bem.

Essa ideia de me prostituir veio para eu me reerguer de novo. Fiquei desconfiada, mas ela me garantiu que não era assim como eu pensava. Naquele mesmo dia, foi um inferno dentro de casa, então pensei “ah, foda-se, mais na merda que eu estou não vou ficar!”, e fui para a casa dela.

Aí fui indo. Fiz umas páginas na internet, meu primeiro programa. E agora faz um ano que estou nisso. No começo foi ruim, eu me sentia suja. Depois que saía dos programas eu tomava banho e me esfregava porque é com pessoas que você não quer, sabe? Aí foi que eu acabei me adequando.

Tem altos e baixos, com dias bons e ruins. Hoje, melhorei, ganhei dinheiro. Evoluí e tenho uma visão de mundo completamente diferente da que tinha antes. Eu não sou mais boba. Já fui estuprada, já apanhei. Mas também conheci pessoas legais, sem maldade. Pessoas que só queriam ajuda, atenção e carinho. Muitas vezes, eu não transei. Apenas conversava com a pessoa, dava afeto. Conheci pessoas incríveis que foram fazendo eu voltar a ser quem eu era antes disso tudo. Já ‘casei’ com cliente, fui morar com ele. Também já morei em boate e em diferentes cidades. Eu sempre quis trabalhar, correr atrás, ralar muito. Só quero chegar em um ponto em que eu consiga me estabilizar, tenha meu canto, minhas coisas, minhas contas para pagar. Hoje, estou à procura de outro serviço porque quero parar e estou cansada.

‘Você anda na rua e os homens todos te olham’

Todo dia eu temo pela minha vida. Eu estou em uma boate, pode chegar um cara, me dar uma garrafada na cabeça, e eu cair dura no chão, ou eu chegar em um quarto de motel, e o cara me matar. Isso que, na boca dos homens, eu sou “passável”. Não pareço um “travecão”, como eles falam. Mas ainda tem criança que me vê e olha como se perguntasse: “é menino ou menina?”

Na prostituição, a gente acaba criando um faro. Você anda na rua ,e os homens todos te olham. Até nova eu tinha raiva disso, mas hoje não tenho mais. Antes, eu ficava muito chateada porque as pessoas só queriam me usar como objeto sexual. Só queriam se relacionar comigo para ter uma “experiência”, ter uma primeira vez e saber como é o sexo com uma mulher trans. Com o tempo, usei isso a meu favor, que hoje é o meu trabalho. Me desejou, me pagou, para mim está ótimo.

Na cabeça dos homens, é como se a trans fosse uma “mulher com pau”. Tem a aparência feminina (eles pensam “não vou deixar de ser hétero porque estou olhando para uma mulher”), só que com órgãos masculinos. É uma coisa que é “proibida”, do desejo do homem de fazer uma coisa diferente, algo “perigoso”. E eu acho que se não fosse uma mulher trans, mas cis, não seria tão interessante para homens como sou hoje. Eu sou diferente e gosto de ser assim como sou. Não sou como um padrão, parte do grupinho que segue a tendência.

E, hoje, meu plano para o futuro é arranjar outro trabalho. Hoje quero estudar e virar ‘doutora Patrícia’, ter minha casa, ter meu carro. Eu só quero ser feliz, mas não vou correr o risco de abandonar o trabalho sexual por um salário mínimo que não me garanta uma vida melhor da que tenho hoje.

E querendo ou não, a melhor parte da minha vida foi dos meus 17 para 18 anos, quando morei sozinha, tive minha vida e privacidade. Não tenho ódio, quero o bem para todo mundo. Mas há pessoas com ódio, que não nos aceitam, que acham que somos trans porque queremos, que a gente não nasceu assim e pôde escolher. Não é. A gente ia escolher passar por todo esse tipo de coisa na vida?

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