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“Falar do Marighella é dizer, ao mesmo tempo, de dores e alegrias. Dores porque é impossível não ter dor, saber que a gente perdeu uma figura tão maravilhosa que foi o Marighella. Não só no Brasil, mas ele serviu de exemplo para a América Latina, para o mundo. Isso foi muito importante. Ao lado disso tem também os jovens de hoje, toda a vez que um jovem aparece protestando, eles mesmo dizem: `Eu sou como Marighella. Eu queria ser como Marighella’. Eu acho que todo lutador poder ser o Marighella, depende da continuidade, da firmeza, da luta, que ele queira fazer. Ser Marighella não é somente ser naquele momento: é sempre. A vida, a luta, não acaba enquanto não acabam as injustiças.”

Palavras de Clara Charf, viúva de Carlos Marighella. Aos 94 anos e apesar da dificuldade para se movimentar, ela esteve presente na manhã deste 4 de novembro de 2019 na homenagem ao combatente revolucionário, assassinado há cinquenta anos em uma emboscada na altura do número 800 da alameda Casa Branca, na zona oeste de São Paulo.

Clara Charf discursa na Homenagem a Marighella, em 4.nov.2019, na alameda Casa Branca — fotos Guilherme Gandolfi @guifrodu / Levante Popular da Juventude

Foi ali mesmo que se reuniram ex-companheiros de Marighella, gente que lutou contra a ditadura militar e que hoje luta pela democracia, pela justiça, pela independência do país, pela libertação nacional –como propunha o dirigente comunista, poeta e guerreiro. Ao lado de muitos homens e mulheres de cabelos brancos, havia também artistas, ativistas, gente jovem, estudantes –como representantes da União Nacional dos Estudantes, do Levante da Juventude e da Juventude Comunista.

Militantes históricos, como Beatriz Cannabrava e Paulo Cannabrava, e jovens ativistas ao lado de Clara Charf na homenagem a Carlos Marighella

Figuras históricas disseram presente, como o dirigente sindical Raphael Martinelli, 93, e o jornalista Paulo Cannabrava, também com décadas de serviços prestados à luta pela democracia. Mais jovens do que eles, mas também com cicatrizes das câmaras de tortura da ditadura, falaram Rose Nogueira e Paulo Frateschi, lembrando sempre o legado de Marighella, a atualidade e a necessidade da luta pela soberania nacional.

Foi esse o tom da fala de Manoel Cirillo de Oliveira Neto, que participou do sequestrou do embaixador norte-americano no Brasil em 1969:

“É importantíssima a presença de todos nós aqui, particularmente o pessoal mais jovem, nós já estamos na melhor idade, mas não sei se é tão melhor assim. Meu joelho, por exemplo, já foi para as cucuias. É muito importante isso. Pela presença, pela força desse companheiro Marighella, os escritos dele, a doutrina dele, da pertinência do que ele escreveu para a situação atual do país. Ontem eu peguei um documento dele, que tinha o programa mínimo da ALN. É impressionante o programa mínimo da ALN. Eu não desejo provocar nenhum de vocês para integrar a ALN, até ela desapareceu, mas é impressionante a consciência, a clareza do Marighella. É muito importante a gente ler, prestigiar, homenagear e reverenciar ele. E o exemplo. Seguir o exemplo dele, de luta. Grande contribuição até hoje, cinquenta anos depois da sua morte física. É isso companheiros. Viva Marighella! Viva Marielle! Viva todas as vítimas, de todos os golpes que a gente anda sofrendo, viva o companheiro Lula!”

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Manoel Cirillo dá seu depoimento na homenagem a Marighella; atrás dele, o líder sindical e militante da ALN Raphael Martinelli, 93

Por sua vez, o ministro dos Direitos Humanos no governo Lula, Paulo Vannuchi, destacou a importância da continuação da luta democrática, da luta por memória, verdade e justiça, ao mesmo tempo em que celebrou, como Cirillo, a participação da juventude nas batalhas pela democracia:

“Agora, quando se completam 50 anos do assassinato, emboscada, neste local, de Carlos Marighella, importante registrar que o momento brasileiro se tornou gravíssimo, dificílimo, com a presidência da república, seus filhos, fazendo chamamento explícito ao golpe, à quebra completa da institucionalidade, que ainda se segura pelas tabelas, duramente golpeada. O estado de direito já não vige mais. Nós temos hoje um preso político em Curitiba, condenado sem respeito à presunção de inocência, ao devido processo. E, como Lula, dezenas de outros. Eu queria dizer que essa batalha da memória e da verdade, de Marighella e de tantos outros. Poucos dias atrás foi Santo Dias da Silva. Ainda ontem, no Armazém do Campo, esse encontro que sintetiza todo o desafio do momento. O encontro Marighella, Marielle. Eu vi na Avenida Paulista um dia desses, uma dessas pichações de muro feita no molde, uma sacada que vocês conhecem, que é belíssima, os dois rostos, Marighella, Marielle, um olhando para o outro. O destaque que os linguistas adorariam, do significante “elle” e “ela”. Os dois com o ele dobrado, e com um chamamento para a questão da luta da mulher hoje, do homem, no trânsito que vai do machismo, que também predominou ao longo dos tempos nas organizações de esquerda, eno encontro dos dois nomes, lembra que também nós não soubemos trabalhar adequadamente nas últimas décadas, e agora aprendemos que é um tema da igualdade racial. Faziam-se textos sobre Marighella, faziam-se textos sobre Santo Dias, desconsiderando o sangue africano de Zumbi dos Palmares, de João Cândido, que une, Marighella e Marielle. Eu termino dizendo, nesse desafio, com todo o imenso respeito que eu tenho, os importantíssimos e icêonicos símbolos, com Clara Charf, aqui presente, e como Martinelli e tantos outros. O mais importante neste evento é a presença dos jovens. Porque é nos jovens que a gente assegura que o bastão está sendo transmitindo. E é nos jovens que nós entendemos que essa luta pela justiça vai continuar”.

 

 

 

 

 

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