TUTAMÉIA

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“O Gramsci educa. Ele tem uma concepção crítica das relações sociais e do universo categorial tão amplo, que ele pode ser traduzido para o Brasil. Não se trata de copiar o modelo ou aquele conjunto de ideias que ele teve ali, em outro tempo e em outro espaço, e trazer para nosso tempo e nosso espaço. O que tem de se aprender de Gramsci e de outros autores, temos de traduzi-los para nossa realidade, de outro tempo e outro espaço, para ser o que eles foram, críticos, no momento em que você se envolve na transformação de determinada realidade.”

Assim fala o historiador e sociólogo Marcos Del Roio, autor de “Os Prismas de Gramsci”, obra focada no trabalho e nas ideias do pensador italiano no período em que se dedicou a estudar e a formular a política de frente única (1919-1926).

Em entrevista ao TUTAMÉIA (veja no vídeo acima), o doutor em ciência política conversou sobre a trajetória de Antonio Gramsci e seu pensamento que, multifacetado, buscava ao mesmo tempo encontrar o foco principal. É esse raciocínio, aliás, que Del Roio toma emprestado para criar o título de seu livro, encontrado numa frase do próprio Gramsci: “O mesmo raio luminoso passa por diversos prismas e dá refrações de luzes diversas: se uma mesma refração é desejada, faz-se necessária toda uma série de retificações dos prismas individuais.”

Na conversa, Del Roio falou sobre a trajetória do pensador, desde seus tempos de formação até sua atuação para a construção do Partido Comunista Italiano, entrando também pelos longos anos de cárcere, resumidos numa frase: “Gramsci nunca capitulou”.

Para o autor, “Gramsci ajuda a entender nossa realidade de hoje. Ele ganha mais força, mais atrativo, exatamente pelo pesadelo nosso, que vivemos hoje no Brasil, quando se volta a falar muito em fascismo”.

Ele analisa: “Hoje as organizações profissionais são completamente esfaceladas, [o governo] esfacela os sindicatos, esfacela a própria identidade das categorias profissionais, o que é uma coisa barbaramente regressiva. Hoje o que se vê é cada indivíduo voando como átomo solto, resultado de uma política da burguesia, que deseja isso. Cria uma guerra civil entre os dominados, no seio das classes subalternas, em que todos competem contra todos. Pode ser uma competição por espaço no mercado, pelo emprego -que sempre existiu. Mas a coisa é mais séria: é por ponto de tráfico, por espaço físico –uma casa aqui ou acolá. Gera uma criminalidade generalizada. O direito civil deixa de existir”.

No Brasil, afirma Del Roio, “estamos sendo radicalizados nisso. Discursos que vêm do poder central do estado estimulam a matança –você pode pegar armas, você pode queimar florestas, você pode fazer tudo, liberou geral. O que segue intocado é a propriedade privada.

[...]

Trata-se, no entender dele, de uma crise geral do sistema capitalista, diferente da ocorrida no período em que viveu Gramsci.

“Vivemos outra época do capitalismo. Na Itália e na Alemanha, nos anos 1930, o fascismo era uma tentativa de as classes dominantes reorganizarem o seu poder. Mas não era um momento em que o capitalismo estava perto do fim ou estava numa crise, como se imaginou. Não era a crise geral do capitalismo. Mesmo a crise de 1929, ela foi muito violenta, mas foi muito curta, a rigor foi de cinco anos.

“O que estamos vivendo hoje é uma crise de décadas. E, pelo jeito, irreversível. O capitalismo não consegue mais se recompor. Não consegue mais acumular capital. Veja as taxas de crescimento dos anos 1970 para cá… Há mais concentração de renda, mas não se produz mais riqueza social a partir da qual se acumule capital.  A cumulação do capital hoje é basicamente falsa, a partir do capital financeiro. O capitalismo sobrevive cada vez mais à força de coerção, de violência. O capitalismo não produz mais civilização. Estamos mergulhados na barbárie.”

Por isso, aponta Marcos Del Roio, as tarefas de resistência são mais necessárias do que nunca são as tarefas de resistência:

“Importante hoje é estudar, refletir e juntar gente. Vamos nos unir para discutir nossos problemas comuns. Problemas que são, certamente, do Brasil de hoje, mas também da humanidade, num determinado momento da história que é crítico. Nós não podemos continuar com o planeta assim. Nós, humanidade, estamos destruindo o planeta, a sobrevivência da espécie humana está em risco. As apostas hoje são muito mais altas do que as apostas altíssimas que o Gramsci fez ao tempo dele. Mas Gramsci pode oferecer muitas lanternas para iluminar um pouco esse caminho, que parece tão escuro.”

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