Viomundo

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Da Redação

A troca de mensagens mostra que a ideia de usar a denúncia contra Lula no caso do sítio de Atibaia para criar uma cortina de fumaça no caso Temer partiu do procurador Carlos Fernando dos Santos Limas, foi endossada por Deltan Dallagnol, que fez uma consulta indevida à Polícia Federal em Brasília, referindo-se a operação como “festa” e pedindo sigilo aos colegas (“mantenham aqui óbvio”) sobre a resposta. “Vamos criar distração e mostrar serviço”, afirmou Santos Lima na véspera da denúncia.

A Operação Lava Jato usou a denúncia contra o ex-presidente Lula no caso do sítio de Atibaia politicamente, para criar uma cortina de fumaça e proteger a Procuradoria Geral da República no caso da investigação do usurpador Michel Temer.

A revelação foi feita pelo Intercept Brasil a partir da análise de mensagens trocadas entre integrantes da força tarefa da Lava Jato em Curitiba.

A denúncia contra Lula poderia ter sido apresentada no dia 17 de maio de 2017, mas foi adiada por estratégia de marketing.

Naquele dia, o diário conservador carioca O Globo noticiou que o usurpador Temer teria dado aval ao empresário Joesley Batista, da JBS, para comprar o silêncio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha — ambos do MDB.

Porém, logo a PGR de Rodrigo Janot se viu questionada pelos advogados do usurpador.

O áudio no qual foi baseada a denúncia não havia ainda passado por perícia da Polícia Federal.

Além disso, um dos responsáveis pela delação do empresário Joesley Batista, o ex-procurador da República Marcelo Miller, que foi da Lava Jato na PGR e integrou a equipe de Janot, era suspeito de atuar dos dois lados do balcão.

Mais tarde, Miller foi indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo próprio MPF sob a acusação de receber R$ 700 mil do escritório de advocacia que fez o acordo de delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

Miller, de acordo com a acusação, começou a receber o dinheiro em fevereiro de 2017, mas só se afastou oficialmente do cargo em abril daquele ano.

“No período compreendido entre fevereiro e 05/04/2017, serviu a dois senhores: mantendo-se no cargo de Procurador da República e valendo-se da confiança do Procurador-Geral da República e membro auxiliar do Grupo de Trabalho Lava Jato, orientou a confecção de acordo de colaboração entre o MPF e seus ‘clientes’, em razão de promessa de pagamento ofertada pelos denunciados Joesley e Francisco”, diz a acusação contra ele.

[...]

Francisco é o advogado Francisco de Assis e Silva, que representava o empresário dono da JBS.

Trecho da denúncia contra Miller

Os próprios integrantes da Lava Jato ficaram desconfortáveis com os termos da delação dos Batista, de acordo com o Intercept:

A força-tarefa também se preocupava com as condições do acordo com a JBS, que previa, inicialmente, total imunidade aos delatores: eles não seriam denunciados criminalmente, ficariam livres da prisão e de tornozeleira eletrônica e poderiam se manter no comando das empresas. Dallagnol reportou aos colegas que apoiadores da Lava Jato consideraram “absurdo os batistas nos EUA rindo da nossa cara”, referindo-se aos irmãos Joesley e Wesley Batista, que deixaram o Brasil no mesmo dia em que fecharam a delação.

Apesar das suspeitas, no calor da hora Deltan Dallagnol escreveu um longo texto de apoio a Rodrigo Janot, que compartilhou num grupo com uma centena de integrantes do MPF.

No texto, Deltan defendeu o acordo feito com os irmãos Joesley e Wesley.

Ele aproveitou para “vender” uma reforma anticorrupção que é prerrogativa do Congresso, não do Ministério Público Federal, que não foi eleito para isso.

Finalmente, sugeriu a Janot dar uma entrevista exclusiva ao Jornal Nacional como gatilho de uma “estratégia de marketing”.

Janot refugou. Mais tarde, fez uma manifestação oficial ao STF, defendendo o áudio que incriminava Temer.

Meses depois, com a comprovação do envolvimento de Miller com os irmãos Batista, os acordos de delação foram cancelados a pedido do próprio Janot.

Miller conseguiu trancar a ação do MPF contra si, por “inépcia”.

A defesa apaixonada de Miller e do acordo de delação dos irmãos Batista, feita pelo beato Dallagnol — que não tinha participado do processo —- mostra que o chefe da Lava Jato em Curitiba parecia se mover mais pelo messianismo do que pela cautela:

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