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Novas relações da Vaza Jato expõem laços entre Dallagnol e Barroso

Diálogos obtidos pelo “The Intercept” e divulgados por Reinaldo Azevedo apontam que ministro do STF passou a funcionar como orientador de procurador da Lava Jato

Da Rede Brasil Atual, com edição e acréscimos do Viomundo

Vazamentos mostram que Deltan falou com Barroso a respeito da substituição do ex-ministro Teori Zavascki na relatoria da Lava Jato, no STF, pedindo que migrasse para a Segunda Turma

São Paulo – Novos diálogos revelados pela Vaza Jato apontam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso agiu como uma espécie de consultor do procurador da força-tarefa Lava Jato, Deltan Dallagnol.

Conversas obtidas pelo The Intercept e publicadas pelo jornalista Reinaldo Azevedo evidenciam que o acesso a Barroso era privilégio de Dallagnol.

A proximidade entre Deltan e Barroso se estabeleceu, segundo Azevedo, numa viagem que os dois fizeram a Oxford [Reino Unido], em 2016.

Em um dos diálogos, no dia 13 de maio de 2017, a procuradora Anna Carolina Resende pergunta se Dallagnol está em Oxford:

“Deltan, vc tá em Oxford? Vi que Barroso foi e me lembrei q foi aí q vcs estreitaram laços”.

A relação do ministro do Supremo com a Lava Jato se transformou em apoio institucional, de acordo com as conversas.

No dia 29 de março de 2018, Barroso determinou a prisão de José Yunes, ex-assessor do então presidente Michel Temer.

Depois de repassar a notícia no chat [do Telegram], Deltan escreveu:

“Barroso foi para guerra aberta. E conta conosco como tropa auxiliar”.

Além disso, os vazamentos mostram que Deltan falou com Barroso a respeito do sorteio realizado para a substituição do ex-ministro Teori Zavascki na relatoria da Lava Jato no STF, pedindo que migrasse para a Segunda Turma.

No dia 1º de fevereiro de 2017, por exemplo, Deltan disse à procuradora Anna Carolina Resende que o ministro se sentia excluído do processo.

“Deltan, fale com Barroso. Insista para ele ir pra 2 Turma”, solicitou Anna Carolina.

“Ele ficou alijado de todo processo. Ninguém consultou ele em nenhum momento. Há poréns na visão dele em ir, mas insisti com um pedido final. É possível, mas improvável”, respondeu Deltan.

Além disso, o procurador da Lava Jato também falou com Barroso sobre a campanha das 10 Medidas contra a Corrupção.

Relatou Dallagnol, na conversa:

“Caros, comentei com Bruno (Brandão, da Transparência Internacional), mas isso tem que ficar entre nós três, please. Hoje falei com Barroso, que gostou muito da ideia das medidas e da campanha da TI (Transparência Internacional) e vai divulgar. Passei pra ele os arquivos e materiais”

[...]

Indulto de Temer

Em dezembro de 2017, os procuradores da Lava Jato discutiam o indulto de Natal tornado público pelo então presidente Michel Temer, que acabaria beneficiando presos da Lava Jato.

Na época, o procurador Diogo Castor de Mattos publicou artigo criticando o então presidente, referindo-se ao indulto como “aniquilação do combate à corrupção”.

O decreto de Temer acabou sendo suspenso parcialmente pela presidenta do Supremo, Cármen Lúcia.

A decisão da ministra, do dia dia 28 de dezembro, foi informada por Deltan no Telegram aos colegas da Lava Jato.

Ele atribuiu ao ministro Barroso atuação em prol da Lava Jato na Corte.

Escreveu Deltan Dallagnol:

“Saiu a liminar. Carmem Lúcia suspendeu parcialmente o decreto. Caso distribuído para Barroso… Que cá entre nós me escreveu elogiando o artigo sobre o indulto. A distribuicao pro Barroso foi o que pedi a Deus!”

Substituição de Teori

Teori Zavascki morreu no dia 19 de janeiro de 2017, após um acidente aéreo.

Sem publicar uma nota de pesar, os integrantes da Lava Jato iniciaram, no mesmo dia, uma articulação para guindar Roberto Barroso ao posto de relator, com apontam as conversas obtidas pelo Intercept.

Os diálogos mostram que os procuradores buscaram mobilizar aliados na imprensa para plantar informações e “queimar” nomes.

O objetivo do grupo era evitar que a relatoria fosse para os ministros Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski ou Dias Toffoli.

Dallagnol cita conversa que teve com o jornalista Vladimir Netto, da TV Globo, autor do livro que trata da operação Lava Jato e do então juiz federal Sergio Moro, hoje ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro.

Netto é filho da comentarista Miriam Leitão, da TV Globo.

Ambos compareceram com Moro ao lançamento do livro Lava Jato — O juiz Sérgio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil.

 Na mensagem, o coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba informa que vai mobilizar “movimentos sociais” e propõe um tuitaço para pressionar o Supremo.

“Caros, falei ontem com Vladimir Neto. Ele acha que nenhum jornal está peitando dizer que sorteio na segunda turma seria loucura, ou falando contra Gilmar, Toffoli ou Lewa, pq se forem escolhidos o jornal estaria queimado com o relator… Concordo que não podemos ajudar, mas podemos queimar. Creio que devemos nos manifestar em off nesse sentido, falando que sorteio é roleta russa e que tememos que Toff, Gilm ou Lew assumam. Em minha leitura, isso não gerará efeito contrário. O que acham? Meu receio é não fazermos nada antes (embora o que possamos fazer é pouco) e depois ficar o caso com um desses. Reclamar depois será absolutamente inócuo. Os movimentos sociais têm falado sobre isso. Posso falar com eles e sugerir um tuitasso contra o sorteio, mas o problema é que sem sorteio a solução de consenso pode não ser boa também… enfim, sugestões? Cruzar os dedos rsrs? Vou sondar minha fonte enquanto isso”, escreveu Deltan ao grupo.

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