Viomundo

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por Conceição Lemes

Um grande amigo, médico e professor de uma das mais conceituadas faculdades de medicina do País, diz: Pau que nasce torto, morre torto.

Nesse sábado (30/11), durante um show realizado na Ópera de Arame, em Curitiba, para a gravação do especial “Roberto Carlos – Além do Horizonte”, o cantor e compositor destacou a presença na plateia de Sérgio Moro:

“Tenho o privilégio de receber aqui nessa plateia um cara que realmente admiro e respeito por tudo o que ele feito por nosso país. Estou falando de Sergio Moro…”

Enquanto batia palmas e reverenciava o homenageado, reforçou:

“Sem dúvida, um privilégio”.

Após o show, Roberto Carlos recebeu no camarim o atual ministro da Justiça e ex-juiz da Lava Jato e a sua “conja” Rosângela Moro.

Tiraram fotos.

Os três postaram em suas redes sociais, inclusive Moro, que escreveu no twitter:

“Dia de levar a esposa em show romântico e de reverenciar o Rei”.

Para quem viveu o período da ditadura militar nenhuma surpresa.

Em artigo publicado em Carta Maior em 5 de maio de 2005 — O Rei Roberto Carlos e a ditadura militar no Brasil –, o jornalista e escritor Urariano Mota lembra a passagem do cantor da juventude, da jovem guarda, para o cantor “romântico”, na medida mesma em que as botas militares pisavavam com mais força a vida brasileira.

Urariano observa:

(…) a passagem do Roberto Carlos Jovem Guarda para o senhor “romântico” não se dá pelo envelhecimento do seu público.

Ora, de 1965 a 1970 correm apenas 5 anos. O envelhecimento é outro. Nesses 5, correm sangue e enfurecimento da ditadura militar, no Brasil, e crescimento da revolta do público “jovem”, no mundo.

Enquanto explodem conflitos, a canção de Roberto Carlos que toca nos rádios de todo o Brasil é Vista a roupa, meu bem (e vamos nos casar).

(…)

Para Urariano, que foi preso político na ditadura militar, o namoro do Rei Roberto Carlos com o regime não foi um breve piscar de olhos, um flerte, um aceno à distância:

O Rei Roberto não compôs só a música permitida naqueles anos de proibição.

O Rei não foi só o “jovem” bem-comportado, que não pisava na grama, porque assim lhe ordenavam.

Ele não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não.

Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas, diamantes, que levantavam o mundo ordenado pelo regime.

Ora, enquanto jovens estudantes eram fuzilados e caçados, enquanto na televisão, nas telas dos cinemas, exibe-se a brilhante propaganda “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o que faz o nosso Rei? O Rei irrompe com uma canção que é um hino, um gospel de corações ocos, um som sem fúria de negros norte-americanos. Ora, ora, o Rei ora:

“Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui

olho pro céu e vejo uma nuvem branca que vai passando

olho pra terra e vejo uma multidão que vai caminhando

como essa nuvem branca, essa gente não sabe aonde vai

quem poderá dizer o caminho certo é Você, meu Pai.

AS BOAS RELAÇÕES COM A DITADURA MILITAR NOS ANOS DE CHUMBO

Em reportagem bem apurada de Marcelo Bortolotti – Roberto Carlos , em ritmo de ditadura, Época faz um retrato minucioso das relações do cantor com o regime militar.

Mostra, inclusive, como, no auge de suas boas relações com o regime militar, o cantor ganhou a concessão de uma rádio FM em 1979, em Belo Horizonte, no princípio do governo do general João Baptista Figueiredo, último presidente da ditadura iniciada em 1964.

“Essa passagem desconhecida da biografia de Roberto Carlos foi o ponto culminante de suas boas relações com o poder ao longo de duas décadas de ditadura no país”, diz Bortolotti.

[...]

A reportagem de Bortolotti, de 4 de abril de 2014, revela:

*Em maio de 1967, Roberto Carlos já era uma espécie de unanimidade nacional, quando foi recebido para uma audiência a portas fechadas com o ministro da Justiça, Luiz Antônio da Gama e Silva, redator e locutor do AI-5. Precisamente em 1968, ano do AI-5, o cantor lançou seu primeiro filme, “Roberto Carlos em ritmo de aventura”.

Os produtores do filme não conseguiram enviar a tempo uma cópia integral do filme, fazendo com que o trailer fosse censurado.

Diante do impasse, o ministro Gama e Silva enviou um telegrama urgente à Divisão de Censura da Polícia Federal, que atuava sob seu comando.

Ele pedia ao chefe da Censura para “abrir uma exceção” e liberar o trailer sem assistir ao filme. “Se trata de uma história cujo protagonista é o mais admirado e popular artista brasileiro”, afirmou o ministro. O trailer foi liberado no dia seguinte.

Foto: Reprodução

*Em 1971, Roberto Carlos mandou um telegrama de condolências ao ministro da Aeronáutica, marechal Márcio Melo, lamentando a morte de três militares num acidente, durante um show da Esquadrilha da Fumaça.

*Também, em 1971, um comunicado do Serviço Nacional de Informações (SNI) criticava a imprensa por “atingir a honra” de diversos artistas por meio de “noticiário difamatório”.
“A incidência deste desgaste recai seguidamente sobre determinados artistas que se uniram à Revolução de 1964 no combate à subversão e outros que estão sempre dispostos a uma efetiva cooperação com o Governo”, diz o informe.

Entre os artistas, aparece o nome de Roberto Carlos e de seu empresário na época, Marcos Lázaro.

*Roberto Carlos realizou shows durante as Olimpíadas do Exército, em 1971 e 1972, na Presidência do general Emílio Garrastazu Médici.

Os jogos serviam para aproximar os militares da população, enquanto o regime iniciava ações duras contra opositores.

*Em 1973, Roberto Carlos foi agraciado com a Medalha do Pacificador, honraria concedida a militares ou civis que de alguma forma contribuíam com o Exército. Mais tarde, a medalha ficou famosa por homenagear os torturadores do regime. Ele a recebeu em São Paulo, das mãos do general linha-dura Humberto de Souza Mello (veja abaixo).

Segundo a justificativa publicada no Boletim do Exército, a medalha foi concedida “pela inestimável colaboração prestada ao Exército”, em especial durante a realização de sua IV Olimpíada.

Os jogos aconteceram no Recife naquele ano, e Roberto Carlos foi a grande atração do show de encerramento. Depois de receber a medalha, ele se apresentou durante a exposição O Brasil de hoje, que enumerava as realizações do governo ao longo de nove anos de ditadura.

Roberto é condecorado com a Medalha do Pacificador, em 1973, e recebe a honraria pelas mãos do general Humberto de Souza Mello, em São Paulo. Foto: Memórias da Ditadura

*Em março de 1975, Roberto Carlos apareceu cantando num programa de televisão comemorativo ao 11º aniversário do golpe militar, transmitido em cadeia nacional. O programa contou com pronunciamento de vários políticos ligados à Arena. Também participaram do programa os músicos Jair Rodrigues e Eliseth Cardoso.

*Em 1976, Roberto Carlos recebeu a Ordem do Rio Branco, reconhecimento do governo brasileiro pelos serviços prestados à nação. Quem entregou a medalha foi o presidente Ernesto Geisel.

ROBERTO CARLOS LAMBEU BOTAS DO GENERAL PINOCHET

O cantor não lambeu botas apenas para a ditadura militar brasileira.

Lambeu também para o sanguinário ditador do Chile, o general Augusto Pinochet.

Reportagem de Osmar Portilho, publicado no UOL, em 10 de fevereiro de 2019, relata as memórias terríveis da cantora chilena Ana María Giménez com algumas músicas, em especial a faixa “Um Milhão de Amigos”, de Roberto Carlos.

A história de Ana María está contada em um artigo da pesquisadora Katia Chornik e foi reproduzida pela CNN.

Em 1975, durante a ditadura Pinochet, ela, então com 24 anos de idade, foi presa sem nenhuma acusação formal e levada para uma das 1.168 cadeias com presos políticos  do Chile.

Em uma noite, quando estava encarcerada, Ana María  foi obrigada a cantar “Um Milhão de Amigos”, de Roberto Carlos.

Quando se recusou a cantar a música, Jiménez foi obrigada a passar a noite na chuva.

Como era musicista, a música era usada como ferramenta de tortura.

Naquele ano, Roberto Carlos se apresentou no tradicional festival de Viña del Mar e agradeceu a presença de Pinochet na plateia, parecido com o que ele fez no sábado a Sérgio Moro.

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